Um livro atrás do outro
"Um livro atrás do outro" é um blog para quem realmente lê qualquer livro que lhe apareça na frente, sem preconceitos e compromissos. Publicarei aqui opiniões breves a respeito das obras que termino de ler, de modo a oferecer noções gerais sobre esses títulos.
sexta-feira, 26 de junho de 2026
segunda-feira, 22 de junho de 2026
“Devocional Pensamentos”, de Pietra Seráfico
O livro “Devocional Pensamentos”, publicado pela escritora e bookstan cristã Pietra Seráfico, chama a atenção do leitor por conta de sua beleza e de sua organização meticulosamente pensada. Ele conduz o indivíduo a vivenciá-lo por dez dias, por meio das temáticas: confiança; dependência; entrega; descanso; espera; obediência e submissão; renúncia; ansiedade; paz e filiação. Cada um desses capítulos é introduzido por um salmo, um comentário acolhedor feito pela autora, uma oração focada no tema e uma reflexão proposta.
Tendo como subtítulo “Devocionais em Salmos para mentes ansiosas e corações quebrantados”, a obra pretende reconectar o leitor com Deus, apresentando, como ferramentas adicionais, seções interativas, como caça-palavras, labirinto (muito pertinente, por conta das possíveis analogias), além de espaços para escrever, desenhar ou o que o leitor quiser.
Por meio de seu segundo livro, Pietra nos dá uma lição de vida, contando a sua história de superação, pretendendo, assim, que nós possamos, também, desfrutar das bênçãos que ela própria recebeu do Espírito Santo.
"Insana Lucidez", de Rodrigo Carpi Nejar
O volume "Insana Lucidez" oferece ao leitor uma ampla variedade de poemas. Os versos de Rodrigo Carpi Nejar, autor oriundo de uma família com tradição na literatura brasileira, caracterizam-se pelo forte simbolismo e pela riqueza de imagens. De extensões diversas, os textos recorrem às rimas quando estas contribuem para a proposta estética do poema. Em alguns momentos, o impacto é imediato; em outros, exige-se do leitor uma interpretação mais atenta. Além disso, há composições que dialogam com a poesia tradicionalista, enquanto outras chegaram a ser adaptadas para a música.
A obra divide-se em quatro partes: "Vertigens", "Patas do Firmamento", "Telas" e "Hora do Sol". Ao longo da leitura dessas seções, os poemas de que mais gostei foram: "Impresso", "Adereço", "Subterrâneos", "Soslaio", "Antes que o choro transborde", "Sobra doméstica", "Chama arredia", "Parto da febre", "Labaredas", "Armistício", "Brevidade da pedra" e "Programação".
Há passagens inegavelmente sublimes, como: "E recolheste / minhas lágrimas, / para fazer adereço." ("Adereço"); "Procuro / olhos de fogo, / para que minhas lágrimas / os suportem." ("Antes que o choro transborde"); "Careceu estancar-se no veio, / ver a fome erguer os seus seios. / E o amor transformar-se em vigília. / Era grão de farelo entre os dedos." ("Chama arredia"); "Na verdade, cansei de mim mesmo. / Eu, desperdício de verso e somatória. / Com as profecias impregnadas de musgos." ("Armistício").
Pode-se dizer, portanto, que "Insana Lucidez" é uma leitura recomendada tanto para iniciantes quanto para leitores experientes de poesia. Trata-se de uma obra que explora diferentes facetas da arte em versos, transitando entre a acessibilidade de alguns poemas e a densidade interpretativa de outros, sem perder a expressividade que caracteriza o conjunto.
sábado, 20 de junho de 2026
"Navegações e Regressos", de Pablo Neruda
Já li muito Neruda durante a minha vida! Esse autor me foi apresentado ainda na adolescência pelo meu tio Rubens, como confidenciei em textos anteriores. Porém, nenhum livro do poeta chileno me impactou tanto quanto "Navegações e Regressos", obra originalmente publicada em 1959.
Aqui, Neruda aborda locais, suas paisagens e costumes, a natureza, assim como a natureza humana. Fala de viagens pelo globo terrestre, representando sempre viagens pelo interior dos indivíduos. Por isso, comoveu-me demais o poema "O barco".
Além disso, o volume é formado quase que exclusivamente por odes. Nelas, o poeta inspira-se tanto em personalidades, como o líder soviético Lênin, quanto em animais, a exemplo do gato e do elefante.
Sinto que, neste título, Neruda estava no auge da sua capacidade poética, constituindo, portanto, um livro visivelmente equilibrado: tem valor aos eruditos, aos leitores comuns, àqueles que leem de maneira despretensiosa e àqueles que buscam a profundidade.
Percebe-se, então, que Neruda merece todo o reconhecimento que teve e ainda tem, pois é um escritor que conseguiu sensibilizar todos os estratos sociais, algo realmente para poucos.
sexta-feira, 12 de junho de 2026
"Os ETs de Varginha", de Margarida Hallacoc
- Autora: Margarida Hallacoc
- Editora: Literíssima (MG)
- Ano de lançamento: 2024
- N.º de páginas: 191
Para começo de conversa, comprei este livro com o objetivo de conhecer mais sobre o assunto "ETs de Varginha" (e a obra em questão já instiga pelo título, tendo em vista que, tradicionalmente, fala-se em apenas um ET de Varginha). E o volume escrito por Margarida Hallacoc me chamou a atenção justamente por ter sido concebido por uma jornalista, classe profissional que respeito demais por, quase sempre, não brincar em serviço. Almejava, então, encontrar nestas páginas mais fatos do que crenças pessoais; mais observações do que vontade de observar.
Contudo, ao começar a leitura, fiquei completamente fascinado com o que encontrei. Se, por um lado, o título "Os ETs de Varginha" fornece informações a respeito do tema central do livro, o mote deste volume, por outro, reduz a proposta do ponto de vista dos leitores desavisados. Pois a autora, sim, aborda com inegável propriedade o assunto em questão, sem enrolações, de forma objetiva e factual, englobando todos os aspectos que realmente importam em relação a ele.
No entanto, assim como afirma nos textos introdutórios, a vontade de dar vida a este projeto nasceu de uma ocasião em que ela, durante a pandemia de COVID-19, abriu seu verdadeiro baú do tesouro para mostrar às filhas o material que havia guardado desde aquela época. E ela realmente o faz, mas para todos nós, seus leitores. Hallacoc nos relembra de tudo aquilo que nos fascinou e nos entristeceu durante aquele período, proporcionando-nos uma valiosa viagem no tempo. Não apenas nos fala sobre os ETs, mas também nos oferece todo o contexto, todo o plano de fundo relativo ao acontecimento. É como se a jornalista tivesse embarcado em uma máquina do tempo, capturado a essência dos meados dos anos 90 e nos levado junto nessa viagem por meio de seu encantador texto. Além disso, confidencia-nos suas experiências pessoais, o que nos torna íntimos dessa mineira de Poço Fundo (ao menos durante a leitura da obra).
É aí que devo falar sobre a escrita de Margarida. Ainda na dedicatória, a autora coloca o seguinte: "[...] As linhas e as páginas a seguir são de um relato simples, de alguém que treinou muito para ter a escrita mais popular que há, aquela entendível pelo juiz de Direito ou pelo vendedor de cartelas de um bingo qualquer; pela professora doutora aposentada e pelo frentista do posto de gasolina." (p. 10)
E ela consegue atingir esse objetivo, sem sombra de dúvida, porque sua escrita é fluida, deliciosa, daquelas que convidam à leitura. Se Hallacoc escrever uma lista de compras para ir ao mercado, eu quero lê-la. Fiquei encantado! Essa jornalista sabe como tratar a palavra! Basta acompanhar a reflexão que compartilha conosco na página 173: "Pensei que um texto bem-feito era como um crochê ou uma peça tecida no tear, onde cada fio tinha uma função exata. Uma vez entrelaçados, naquela junção perfeita, não se podia mexer porque não havia lugar para mais nenhum fiapo. Se puxasse um fio, saía desmanchando tudo." (Trecho que anotei para repassar aos meus alunos, uma vez que, do meu ponto de vista, é uma aula de escrita.)
Sendo assim, recomendo este título para qualquer vida inteligente que existir na Terra. Leia este livro, nem que seja para ler uma boa obra. No fim, creio que os ETs vieram ao nosso planeta, em 1996, justamente a Varginha, no estado de Minas Gerais, com a intenção de constatar se realmente havia inteligência no planeta azul, pois tinham ouvido falar de Margarida Hallacoc.
terça-feira, 2 de junho de 2026
"Clarão do Luar", de Aline Bischoff
Lançado em 2024 pela Editora Perse, "Clarão do Luar", escrito pela paulista Aline Bischoff, nasce da aparente calmaria e do recolhimento das madrugadas. Como a própria autora explica, a antítese entre a noite e o luar funciona como uma metáfora para a dualidade da existência humana, equilibrando a vida e a morte, o lado consciente e o inconsciente. A partir dessa premissa, Aline entrega uma poesia com forma e conteúdo admiráveis, de execução praticamente impecável. Ela explora ao máximo os recursos poéticos com muita segurança, dominando tanto as formas curtas quanto os poemas mais longos. Em vários momentos, a musicalidade e a densidade dos versos despertaram em mim lembranças muito claras do lirismo de Álvares de Azevedo, Lord Byron e Augusto dos Anjos.
O que mais chama a atenção é como a obra consegue ampliar esse tom introspectivo para temas muito variados e bem amarrados. Há excelentes poemas românticos, reflexões sobre a fé (com referências a São Francisco de Assis e ao Bom Samaritano) e um olhar muito lúcido para as questões sociais. Textos como "À margem da cidade", "Contrastes da janela" e o fortíssimo "O cognome da fome" mostram uma autora conectada à realidade, capaz de registrar até mesmo a dura fase da COVID-19. O livro ainda é repleto de homenagens a locais consagrados (como São Paulo, Rio de Janeiro, Foz do Iguaçu) e a grandes nomes das artes (como Ferreira Gullar, Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo e Pagu). Diante de tanta variedade, meus grandes destaques de leitura foram "Noturno", "Clarão do Luar", "Soneto do amor sobre a chuva", "Náufrago das emoções", "A estação da alma", "Soneto do amor incondicional", "A luz da misericórdia e o seu poder salvador", "O cognome da fome", "Contrastes da janela", "À margem da cidade", "Sentido", "O Conflito das Vozes Interiores", "Via de mão dupla", "O vicejar da era", "Estranha habitação" (que brinca com trechos de versos famosos), "Incontroversos", "Desafios do Poeta", "Temos poemas fresquinhos!", "Escrevo poesia" e "Invocação".
A leitura atenta de "Clarão do Luar" confirma o talento e a maturidade de Aline Bischoff como poeta. Ela não apenas sente a poesia, mas sabe exatamente como estruturá-la no papel, equilibrando o peso das emoções com o rigor exigido pela escrita. É um desafio encontrar um livro que consiga ser tão diverso em seus temas sem perder a sua unidade, e ela faz isso com muita competência. A autora tem pleno domínio do ofício, construindo versos que soam naturais, sem enfeites desnecessários, mas que atingem o leitor com precisão. Recomendo muito a leitura, pois trata-se de um trabalho consistente e autêntico de alguém que domina e respeita a arte da palavra.
sábado, 30 de maio de 2026
"A Peneira do Sol", de Maria Luiza Servelin
- Autora: Maria Luiza Servelin
- Editora: IEL, Tchê! (RS)
- Ano de lançamento: 1993
- N.º de páginas: 77





