sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

"Melhores poemas", de Cora Coralina

Lançada pela Editora Global em edição de bolso, esta antologia oferece aos leitores um panorama bem completo a respeito da obra e da vida de Cora Coralina.

O volume tem início com uma detalhada apresentação escrita pela poetisa, ensaísta e crítica literária Darcy França Denófrio, que foi também a responsável pela seleção dos poemas de Cora.

Aqui, Darcy organiza os textos competentemente escolhidos de acordo com os seguintes subtítulos: "Nos reinos de Goiás", "Canto de Aninha", "Criança no meu tempo", "Paraíso perdido", "Entre pedras e flores", "Canto solitário" e "Celebrações".

Na sequência, a coletânea apresenta uma rica biografia sobre Cora, assim como a bibliografia completa, contemplando a produção dessa inigualável poetisa goiana.

Lendo este livro, percebe-se que, desde criança, Cora, a Aninha, era diferente, mais sensível e, por isso, incompreendida, cobrada demais, rejeitada, mas também, por conta disso, tornou-se (ou sempre foi), inevitavelmente, poetisa.

Tendo estudado pouco tempo no ensino regular, Cora Coralina até hoje é um fenômeno; escritora de uma poética diferenciada, humana, cujos versos retratam o passado, lamentam as crueldades, celebram as belezas simples, valorizam as melhorias do presente e projetam o futuro.

A autora transpira poesia, não força nada. Para ela, compor lindos poemas é tão natural quanto fazer uma lista de mercado.

Cora Coralina faleceu ainda em 1985, porém deixou um legado imortal.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

"Penso, logo ensino", de Gabriel Perissé

"Penso, logo ensino", de Gabriel Perissé, é um volume pequeno em tamanho, mas enorme em bagagem. Trata-se de uma leitura leve, porém repleta de ensinamentos preciosos, não só para professores.

Inicialmente, o livro traz um valioso texto introdutório escrito por Perissé, no qual o autor tece importantes considerações sobre o ensino e a própria obra. Em seguida, discorre a respeito de trinta palavras-chave, uma por capítulo, que, segundo ele, ajudariam a entender o pensamento humano. São elas, por exemplo, "Aprendizado", "Avaliação", "Ciência", "Discernimento", "Dúvida", "Escola", "Filosofia", "Inteligência", "Linguagem", "Memória". Por fim, faz o fechamento de sua argumentação, afirmando que os mestres não podem ter preguiça de exercitar o pensamento nem receio de compartilhar os seus saberes com os estudantes, por não julgá-los aptos ou merecedores. Afinal, eles podem nos surpreender de várias maneiras.

Portanto, essa publicação, de agradável desfrute, carrega consigo uma pesada carga de conhecimento, cujo aproveitamento se mostra fundamental a todos os estudiosos, não apenas aos da Educação.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

"O Jardim das Oliveiras", de Adélia Prado

A obra poética "O Jardim das Oliveiras" foi lançada em 2025 pela mineira Adélia Prado e coincide com a celebração dos seus 90 anos.

Os inúmeros poemas apresentados neste volume são organizados nas seções "Esta memória forjada em pó de carvão e lágrimas", "As santas vulgaridades têm com certeza um anjo guardião", "Muito cuidado com o recém-nascido" e "Se alguém gritasse, pediria vassoura ou faca para a sangria", títulos que antecipam o conteúdo dos textos, seja em termos de linguagem, seja em relação às provocações propostas pela autora.

Os assuntos abordados podem ser identificados pelas dicotomias: Sagrado e Profano; Vida cotidiana e Vida espiritual; Angústias existenciais e Transcendência; Vida e Morte; Poesia e Espiritualidade; Dores e Graças (associadas ao divino); Tempo e Memória.

Como costuma ser observado no decorrer de sua bibliografia, aqui Adélia não busca rimas nem ritmo triviais, apenas, com o uso do vocabulário e das sentenças comuns, reinventar significados, percepções, conceitos, preconceitos, estereótipos, com muita riqueza e profundidade.

Por fim, cabe acrescentar que o intenso e instigante livro "O Jardim das Oliveiras" comprova que a poetisa em questão, com nove décadas de história, ainda lança trabalhos vigorosos, modernos e que tiram o público da zona de conforto, reafirmando que Adélia Prado merece todos os prêmios e elogios que recebe.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

"Hoje é meu aniversário", de Luciano Buniak




- Título: "Hoje é meu aniversário"
- Autor: Luciano Buniak
- Editora: Labrador (SP)
- Ano de lançamento: 2024
- N.º de páginas: 64


Cheguei a este livro por acaso. Estava procurando obras poéticas interessantes e acessíveis em uma loja virtual e me deparei com "Hoje é meu aniversário". Desde o primeiro contato com o título, senti que esse volume poderia me entregar tudo ou nada.

O primeiro impacto aconteceu no prefácio, no qual o autor afirma: "não sou poeta e este não é um livro de poemas". Na mesma seção, ele acrescenta que o livro é fruto de uma viagem que fez a Paris, em 2022, e dos estranhamentos que vivenciou por lá. A bem dizer, seus versos, surgidos já no meio de sua estadia na Cidade Luz, trazem suas impressões, sensações e sentimentos. Em suma, é o olhar poético não de um turista que vai a algum local badalado para ostentar o seu feito, mas de um ser humano que mudou temporariamente o seu contexto para experimentar e realmente ver se encontrava algo ou alguém diferente.

Nessa obra poética que foi uma surpresa para mim — e para o próprio escritor, que nunca havia planejado a sua concepção —, o leitor depara-se com versos avassaladores, como: "Em poucos dias perceberei que esta viagem / não será como imaginada, / que não serei bem-vindo, / que não serei benquisto aqui / nem ali, nem em lugar algum", "O sol forte do fim do verão / acentua a doce embriaguez de cada um", "Se ninguém mudasse de trajetória, haveria um choque / Nada mudou, houve um choque / [...] Um choque que se repetiu muitas vezes", "E minha vida? Congelada, pausada / À espera do retorno ao normal / O normal que nunca funcionou".

"Hoje é meu aniversário" soa como um verdadeiro diário de viagem, pois os poemas são organizados como tal. Mas é uma viagem pela vida, por si mesmo, pelo outro e também por Paris, sua gente, seus costumes e suas ruas. Fica claro que os textos trazem as percepções profundas do poeta numa lógica temporal (ao menos é o que a sequência dá a entender). Essa ordem é entremeada por provocantes gravuras feitas pelo próprio Luciano, que diz não ser poeta, não ser artista, mas que aqui surge superior a muitos que se nomeiam como tais.

Enfim, adorei ler esse pequeno volume poético, que sinceramente me transportou para a Paris de Luciano Buniak e suas viagens. É um projeto despretensioso que consegue ser uma construção poética consolidada, oferecendo ao público uma arte contemporânea inteligente e de reconhecível valor. Seu autor não subestima os leitores, embora nunca soe presunçoso — nem por ter morado alguns meses na França, nem por ter escrito poesia da melhor qualidade.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

"A Religião na MPB", de Juscelino Filho





- Título: "A Religião na MPB"
- Autor: Juscelino Filho
- Editora: Do Autor (SP)
- Ano de lançamento: 2025
- N.º de páginas: 194


No livro independente "A Religião na MPB", o artista plural Juscelino Filho analisa como a religião, ou melhor, as diversas religiões são abordadas na música popular brasileira. Para isso, explora as composições: "Gita", de Raul Seixas; "As caravanas", de Chico Buarque; "Pagu", de Rita Lee e Zélia Duncan; "Cajuína", de Caetano Veloso; "Canto de Ossanha", de Vinicius de Moraes; "Divina comédia humana", de Belchior; "Metal contra as nuvens", de Renato Russo; e "Se eu quiser falar com Deus", de Gilberto Gil.

O autor dedica um longo capítulo a cada uma dessas letras de música, pois não só as investiga, mas compartilha um verdadeiro estudo sobre essas pérolas do nosso cancioneiro. Ele traz uma contextualização bem aprofundada a respeito de tudo o que pode ter influenciado na concepção de cada obra. Não é por nada que, por exemplo, ao final do livro, há duas seções de referências utilizadas, uma para a bibliografia, outra para a discografia. E, de posse desse arcabouço teórico, relaciona esse material com os modos de expressão presentes nas composições.

Juscelino executa essas tarefas de forma tão envolvente que quaisquer leitores, mesmo aqueles que não apreciam os estilos musicais em questão, sentem-se impelidos a conhecer as canções elencadas e a, no mínimo, respeitá-las enquanto criações artísticas de enorme valor.

Além disso, como é um livro de estreia, seu escritor teve a sensibilidade de, no início, apresentar-se aos leitores e contar um pouco sobre a sua trajetória. Em seguida, expõe uma introdução convidativa ao tema proposto, antes de começar o seu desenvolvimento. Ou seja, apesar de ser uma autopublicação, que poderia trazer falhas e limitações, o criador do querido "Musicália" tomou cuidado para que tudo saísse perfeito, coeso e coerente com o que inteligentemente planejou. Se há brechas para críticas negativas, a mim passaram despercebidas.

Portanto, "A Religião na MPB" é uma leitura muito interessante e relevante, inclusive para instigar a valorização do que se elabora no Brasil. Também, por todas as suas qualidades, como o apuro do conteúdo levantado, não apenas correspondeu às minhas expectativas, como as ultrapassou com brilho. Ela é indicada para quem sinceramente gosta de música, ou, até mesmo, de arte e cultura em geral, e é despido de preconceitos tolos — o que não deixa de ser um pleonasmo, porque todo preconceito é tolo.


- Cantor, compositor, produtor, ator, dramaturgo e crítico musical, Juscelino Filho é o criador do canal no YouTube "Musicália", cujo conteúdo é dedicado à valorização da cultura, em especial da música brasileira, produzida no passado e no presente.


(Escrito em colaboração com Adilson Junior Pilotto.)

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

"O passarinho do contra: uma biografia de Mario Quintana", de Gustavo Grandinetti

Fiquei encantado por esta obra de Gustavo Grandinetti. De forma respeitosa, o autor nos apresenta uma narrativa viva sobre a história do maior poeta gaúcho. Quem conheceu Quintana ficará ainda mais apaixonado por essa figura inigualável. Quem não o conheceu ficará impressionado com o que irá encontrar nas páginas deste volume.

Grandinetti fez questão de conversar com as pessoas mais próximas do poeta, como Armindo Trevisan e Dulce Helfer, por exemplo, estratégia que proporciona um tom intimista a esta biografia. Além disso, mesmo sendo carioca, Gustavo parece extremamente gaúcho, pois retrata com fidelidade a nossa cultura, a nossa história, o nosso ambiente.

"O passarinho do contra" não entrega aos leitores muitas imagens. Porém, revela da melhor maneira possível quem era Mario Quintana, o que pensava, como se comportava, seu modus operandi. Também, esmiúça, de forma lindamente organizada, as publicações feitas pelo escritor, o que, de certo modo, ocasiona um problema ao público, tendo em vista que essa metodologia aguça demais a curiosidade para conhecer (ou revisitar) tudo o que Quintana escreveu.

Por isso, considero o título em questão uma leitura indispensável a qualquer indivíduo, pois sinto que todos temos a obrigação de conhecer pelo menos um pouco sobre um dos brasileiros mais singulares e preciosos que já existiram.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

"As Willis: sexo, morte e escaravelhos", de Carlos Gerbase



Muito mais do que pelo enredo do livro em si, adquiri um exemplar de "As Willis" por conta de seu autor, Carlos Gerbase, músico e cineasta que admiro desde a infância. E confesso que a história me surpreendeu.

As Willis são Mirtha, Irina, Margot, Maria, Madalena e, finalmente, Giselle: belas mulheres que morreram virgens e que, pela influência dos poderes do escaravelho sagrado, retornaram à vida — ou a algo similar a isso. O “porém” é que elas precisam adquirir energia sugando a vitalidade de suas vítimas, como os vampiros fazem, mas de uma maneira um pouco diferente.

A leitura da obra é muito instigante! A narrativa de Gerbase é deliciosa; a ambientação em Porto Alegre e região dá um charme especial, além de proporcionar uma sensação de pertencimento a quem reconhece os locais descritos; as críticas são inteligentes e hilárias; as referências culturais são um atrativo à parte; e a formatação em estilo acadêmico desafia e desacomoda o leitor.

Ao final, na seção de agradecimentos, o autor confessa que, primeiramente, projetava produzir um longa-metragem com esse roteiro, o qual se tornou uma minissérie nunca filmada, até transformar-se em literatura.

Ou seja, após ler o livro, sinto que deleitei-me demais com esse que, sem dúvidas, é um dos melhores títulos que já li. No entanto, depois de conhecer essas informações, fico imaginando as maravilhas que o cineasta Gerbase realizaria com essa narrativa. Que riqueza de possibilidades!