quinta-feira, 15 de outubro de 2026

“Vó Folhinha – Colecionadora do tempo”, de Fabiano Tadeu Grazioli




- Título: “Vó Folhinha – Colecionadora do tempo”
- Autor: Fabiano Tadeu Grazioli
- Ilustrador: Eloar Guazzelli
- Editora: Edelbra (RS)
- Ano de lançamento: 2026
- Número de páginas: 136


“Vó Folhinha – Colecionadora do tempo”, escrito por Fabiano Tadeu Grazioli, é um resgate afetuoso das lembranças da infância, da avó colecionadora de calendários e do seu universo singular. Na obra, os calendários, quase agendas, marcavam de tudo: alegrias e tristezas, festejos e tragédias. Mais do que isso, eram eles que organizavam toda a rotina e a vida da família da Vó Folhinha.

Grazioli nos conta essa história em capítulos que se aproximam da crônica, estabelecendo uma relação direta entre o tempo registrado nas folhinhas e a trajetória familiar, também descrita em episódios. Tudo é narrado sob a ótica ingênua, questionadora e sincera de uma criança. Nesse contexto, o autor revela como, desde pequeno, já se mostrava seduzido pelas palavras e por suas inúmeras possibilidades.

A narrativa aborda a resiliência e a necessidade de seguir adiante, apesar das dificuldades e dos golpes que a vida e as pessoas nos impõem. É um livro que fala sobre cuidado, cortesia e a importância de cada um fazer a sua parte, demonstrando, inclusive, como, muitas vezes, as crianças têm atitudes e posturas bem mais racionais do que os adultos.

O texto traz uma linguagem poética e bastante sinestésica, muito típica da forma como nos recordamos da infância. Além do conteúdo, o livro é esteticamente lindo, pois as ilustrações de Eloar Guazzelli são extremamente significativas, complementares ao texto verbal e repletas de personalidade.

Muito bem escrito, “Vó Folhinha – Colecionadora do tempo” é classificado como literatura infantojuvenil, mas creio que a obra encantará especialmente os adultos jovens de coração, isto é, aqueles que ainda não se deixaram endurecer pela vida.

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

"Uma primavera talvez", de Claudino Pilotto

Lançado em 1986, "Uma primavera talvez" é o primeiro livro do saudoso poeta Claudino Pilotto, natural de Viadutos (RS).

Este é também o primeiro livro do autor que leio, embora já o conhecesse de nome havia muitos anos. Ainda na época de faculdade, a igualmente saudosa professora e poetisa Vera Beatriz Sass, um ser humano incrível que me ensinou tudo o que sei sobre poesia, pediu-me: “Guilherme, nunca pare de escrever. Alguns dos principais poetas da região desistiram de publicar, como o Claudino Pilotto e eu. Por isso, não desista você também.” E, certamente, a minha querida Profe Vera não imaginara quantas vezes essa lembrança voltaria à minha mente e o quanto ela seria importante para que eu não parasse de lançar livros.

Mas voltemos ao Claudino. A obra é dividida em três partes, sendo a última voltada à poesia gauchesca. Ao longo de suas páginas, Pilotto demonstra ter sido um escritor muito competente, pois utiliza os versos para abordar os mais variados assuntos, sob diferentes perspectivas.

Ou seja, "Uma primavera talvez" é um bom livro do gênero lírico, que marca, com notável propriedade, a estreia do bardo proveniente do Alto Uruguai gaúcho.

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

"Da lama ao caos: que som é esse que vem de Pernambuco?", de José Teles

Também biógrafo do saudoso e genial músico pernambucano Chico Science, o jornalista José Teles aborda, neste livro, principalmente a concepção do primeiro álbum de estúdio do influente grupo Chico Science & Nação Zumbi, o absolutamente relevante "Da lama ao caos".

No entanto, para tratar do disco, Teles também discorre sobre o surgimento da banda, os passos posteriores ao álbum e a repercussão de "Da lama ao caos" em diferentes cenários musicais, além de narrar a trajetória do próprio Chico, figura realmente central em todo esse processo.

O volume não é extenso, mas, considerando seu conteúdo, é muito rico em informações. Uma leitura adorável!

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

"O Mito da Caverna", de Platão

Presente no Livro VII da obra A República, "O Mito da Caverna" é fundamental não só para a Filosofia, mas para a sociedade humana de forma geral. Essa alegoria, criada pelo grego Platão, discípulo de Sócrates — ambos pilares da Filosofia Ocidental —, tem a capacidade de permanecer atual; parece que fica cada vez mais viva e faz cada vez mais sentido com o passar do tempo.

Por meio de seu mito, o pensador originário da Grécia Antiga nos faz refletir sobre ignorância, conhecimento, liberdade, responsabilidade, alienação, manipulação, dominação, doutrinação e efeito manada, entre outros temas. Podemos utilizá-lo, por exemplo, em relação à cultura, à educação, à política, ao entretenimento de massa — como a televisão, o rádio e a internet —, e especialmente às redes sociais.

Sendo assim, posso afirmar que o leitor se torna um indivíduo diferente após essa leitura, pois ela transforma a sua postura diante de si mesmo e daqueles que o cercam.

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

“Vida de gado: trinta anos pastando no jornalismo”, de Tom Cardoso




- Título: “Vida de gado: trinta anos pastando no jornalismo”
- Autor: Tom Cardoso
- Editora: Rua do Sabão (SP)
- Ano de lançamento: 2026
- Nº.  de páginas: 172


Há volumes literários que enchem seus leitores de palavras. Este, por sua vez, deixa-os sem palavras, tamanho é o deslumbramento provocado não apenas por sua qualidade, mas também pela ousadia ao expor algumas das passagens aqui contadas.

Nesta divertida e curiosa obra, o jornalista Tom Cardoso, de quem eu já havia lido a excelente biografia “Ninguém pode com Nara Leão”, narra situações sempre surpreendentes, ora pelo humor, ora pela melancolia, vividas na companhia de ilustres figuras que cruzaram sua trajetória de três décadas no jornalismo.

Nas páginas de “Vida de gado”, Tom retrata o lado menos glamouroso e, ao mesmo tempo, mais inusitado da imprensa brasileira. Ao fazê-lo, oferece ao público uma visão pitoresca de uma realidade que exige do indivíduo não apenas boa capacidade de leitura, mas também um vasto conhecimento de mundo. Isso porque não entrega nada mastigado (apesar do título), contando com a inteligência e a cultura de quem tem em mãos esse seu lançamento.

Confesso que dei várias gargalhadas ao longo destas histórias, que, entretanto, não me conquistaram apenas pela graça. A escrita de Tom é primorosa, ágil e espirituosa, capaz de provocar no leitor as mais diversas reações – façanha alcançada por poucos artistas das letras. O humor, aqui, não é mero recurso para entreter, pois, muitas vezes, serve também para revelar o absurdo, a vaidade, a precariedade e até a estafa escondidos nas situações narradas.

Entre os verbetes presentes no livro, os que mais me fascinaram foram Caetano Veloso, Lobão, Marilyn Manson, Miele, Pastor Valdemiro, Paulinho da Viola, Roberto Carlos, Wilson Simonal e Zé Celso. A diversidade desses nomes dá uma boa medida da amplitude do universo percorrido por Tom Cardoso e da riqueza de (des)encontros que uma longa carreira jornalística pode proporcionar.

No fim das contas, “Vida de gado” passa longe de ser um mero arquivo de anedotas de redação, tendo em vista que, nele, Tom Cardoso transforma suas três décadas de batente em pura literatura, provando que, com o talento certo para a observação, até mesmo os anos “pastando” na profissão podem render um livro absolutamente irresistível.

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

"Squirt", de Telma Scherer




- Título: "Squirt"
- Autora: Telma Scherer
- Editora: Terra Redonda (SP)
- Ano de lançamento: 2021
- N.º de páginas: 88


"Squirt", de Telma Scherer, é construído por meio de poemas longos e prosas poéticas, sem dar título aos seus textos, uma escolha estética que parece ter sido pensada justamente para não fornecer pistas fáceis ou caminhos antecipados ao leitor. Conduzido por temas profundamente femininos, o livro explora sentimentos, sensações e pontos de vista sob essa ótica. Além disso, fala muito sobre as relações humanas, dedicando um foco especial e literal àquelas que se encontram doentes.

Sua leitura revela uma escrita de caráter denso, mas que se mantém acessível o tempo todo. A poesia de Telma é visceral, despudorada e empoderada, e, acima de tudo, muito humana. Ela se sustenta na força de imagens potentes e em uma intertextualidade refinada e nada óbvia, na qual a autora não hesita em recorrer a elementos escatológicos para dar materialidade aos seus versos. Nesse sentido, chama muito a atenção a forma como seus versos dialogam com diversas formas de arte, principalmente as visuais. Em vários momentos, fica evidente que a autora produz seus poemas de maneira análoga ao seu processo com a pintura: ela realiza recortes significativos na linguagem e, em seguida, os ressignifica com tinta, com suor, com sangue.

Por isso, recomendo "Squirt" para quem procura uma poesia corajosa, que disseca a vulnerabilidade dos vínculos com maturidade e sem idealizações. É a escolha certa para quem busca uma literatura forte e imagética, na qual a palavra alcança o humano orgânico para criar uma experiência de leitura intensa e provocadora.

sábado, 29 de agosto de 2026

"A Noiva de Ravel", de L. S. Oliveira




- Título: “A Noiva de Ravel”
- Autor: L. S. Oliveira
- Editora: M.inimalismos (SP)
- Ano de lançamento: 2025
- N.º de páginas: 112


Ravel é um jovem humilde que alimenta, durante anos, uma paixão silenciosa e, aparentemente, impossível por Beatriz, a jovem dona da beleza mais sublime de toda a cidade.

Quando Ravel acreditava que a sorte finalmente estivesse a seu favor, a vida lhe desferiu o golpe mais baixo e humilhante que alguém poderia receber.

Considerando a sua existência completamente arruinada, o rapaz promete a si mesmo devolver todo o mal aos seus algozes. Para isso, não medirá esforços, aguardando com exatidão e paciência o momento certo para resolver cada situação e cobrar a sua dívida.

A narrativa proporcionada aos leitores pelo perspicaz escritor L. S. Oliveira é, a um só tempo, instigante e impactante. A história de Ravel, que certamente provocará a identificação daqueles que se sentem oprimidos de alguma forma, questiona conceitos sociais, expõe as mazelas brasileiras e exemplifica como o dinheiro e o poder manipulam as ações em nosso país, dando a entender que a justiça, sob essa ótica, é sempre parcial.

O estilo de escrita do autor permite que o público com maior bagagem cultural estabeleça ricas intertextualidades com outras obras. Particularmente, reconheci uma forte conexão com os primeiros filmes do cineasta José Mojica Marins, sobretudo na atmosfera que envolve o célebre personagem Zé do Caixão.

Creio que as perguntas que permanecem ecoando ao final da leitura sejam: Ravel é um herói, um anti-herói ou um vilão? Esse protagonista promoveu vingança ou justiça?

Para finalizar, recomendo este título àqueles que admiram histórias chocantes, mas que não se chocam com facilidade. Além disso, reitero que essa leitura é estritamente indicada para maiores de 18 anos, tendo em vista a presença de conteúdos sensíveis para faixas etárias inferiores.