sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

"O Mundo de Sofia", de Jostein Gaarder

Em "O Mundo de Sofia", o norueguês Jostein Gaarder nos apresenta uma adolescente que, ao receber misteriosas cartas com perguntas filosóficas, ingressa sem querer em um curso bem diferente e exclusivo. 

A narrativa conduz o leitor pelos principais momentos da história da Filosofia, sempre em tom dialogado e acessível, o que torna a proposta criativa e convidativa. O autor consegue prender a atenção dos leitores com habilidade, mas em alguns trechos o ritmo se torna cansativo, especialmente quando se detém demais em certos períodos e deixa outros praticamente de lado. Suas escolhas são curiosas, já que, por exemplo, Charles Darwin e Sigmund Freud recebem grande destaque, o que faz o livro, por vezes, parecer mais uma introdução às Ciências do que à Filosofia. Ainda assim, há momentos brilhantes em que Gaarder amplia a discussão e questiona a própria natureza da vida e do universo, provocando reflexões sobre o que está por trás de tudo. 

Um ponto delicado é a cena em que há uma sexualização excessiva de personagens adolescentes, causando certo estranhamento. Por outro lado, um aspecto a ser ressaltado é a abordagem que é feita, já naquela época, a respeito de temas de inegável importância atualmente, como o uso da Inteligência Artificial, a dependência tecnológica e os danos ao meio ambiente.

Apesar dessas ressalvas, trata-se de uma obra extremamente recomendável para estudantes e professores de Filosofia, tanto como ferramenta didática quanto como material de apoio, porque combina diversão, clareza e profundidade em uma narrativa que desperta a curiosidade filosófica em leitores de qualquer idade.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

"Asas de terra e sangue", de Ivy Menon





- Título: "Asas de terra e sangue"
- Autora: Ivy Menon
- Editora: Arribaçã (PB)
- Ano de lançamento: 2021
- N.º de páginas: 242


Este livro chegou até mim por meio de sua incrivelmente querida autora. Já fascinado com o pouco que sabia de sua trajetória, recebi dela uma incumbência direta: "Leia este livro!". Comecei pelo e-book que me disponibilizou, mas as histórias narradas em "Asas de terra e sangue" (todas reais, contadas com linguagem precisa e poética) encantaram-me tanto que precisei de uma edição física. E, pelo destino, acabei encontrando o último exemplar impresso ainda existente, um que nem a própria autora sabia que restava.

Grande parte das situações hipnóticas aqui apresentadas aconteceram na infância de Ivy. Ela mesma já havia me confidenciado em entrevista: "Por ter sido boia-fria até os vinte anos, cresci distante dos livros. Aos doze, fui trabalhar como doméstica na casa da minha professora do quarto ano primário. Foi ela quem me apresentou e me emprestou 'Reinações de Narizinho', de Monteiro Lobato." Há também episódios de sua juventude, alguns profundamente comoventes, além de fatos recentes, vividos em sua fase atual.

O livro abre espaço para rir, chorar, comover-se e enternecer-se. Qualquer leitor chegará à mesma conclusão: Ivy Menon possui uma história de vida extraordinária, digna de ocupar páginas de livros — e até de ser retratada em outros suportes, como o cinema. Sua narrativa é sensível, com uso estudado das palavras e construções frasais, conferindo às crônicas um valor literário raro. Percebe-se, ainda, a visão poética da criança, a inocência de quem enxerga o mundo de forma diferente.

Sem erro, afirmo que "Asas de terra e sangue" é um dos melhores e mais marcantes títulos que já tive a oportunidade de devorar ao longo da minha monótona existência. A forte, destemida, brilhante e profundamente humana Ivy Menon me fez um favor imenso ao recomendar sua obra. E o destino, generoso, me concedeu a gentileza de permitir esse encontro com uma pessoa tão inspiradora.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

"As atribulações de uma caixa de supermercado", de Anna Sam

A autora francesa Anna Sam, graduada em Literatura, trabalhou durante oito anos como caixa de supermercado. Baseada nessa experiência e apropriando-se de seu perceptível talento para a escrita, bem como de sua perspicácia para ler as pessoas e o mundo, ela criou, inicialmente, um blog no qual relatava tudo aquilo que considerava mais curioso e interessante enquanto exercia sua atividade profissional. Esse conteúdo, pela relevância e sucesso, transformou-se neste livro.

Confesso que escolhi esta obra porque desejava, por esses dias, uma leitura mais leve. Mas, muito além de uma distração, encontrei em suas páginas valiosas lições sociológicas, filosóficas e psicológicas.

A escrita de Anna Sam é ácida e divertida. Ela consegue transmitir, com extrema ironia, as situações insólitas e humilhantes vividas por uma caixa, em um tom tão frenético quanto as tarefas desempenhadas por esses profissionais. Ao mesmo tempo, soube retratar, de maneira respeitosa e poética, ocasiões emocionantes, como o seu último dia exercendo a função.

Concluo, então, que Anna Sam, com este título, não só presta um serviço significativo à sociedade — ao nos instigar a realmente enxergar esses trabalhadores essenciais —, mas também demonstra uma capacidade literária inegável.

Adorei ler "As atribulações de uma caixa de supermercado"! E, sim, fui conferir, e o blog ainda existe: caissierenofutur.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

"Melhores poemas", de Cora Coralina

Lançada pela Editora Global em edição de bolso, esta antologia oferece aos leitores um panorama bem completo a respeito da obra e da vida de Cora Coralina.

O volume tem início com uma detalhada apresentação escrita pela poetisa, ensaísta e crítica literária Darcy França Denófrio, que foi também a responsável pela seleção dos poemas de Cora.

Aqui, Darcy organiza os textos competentemente escolhidos de acordo com os seguintes subtítulos: "Nos reinos de Goiás", "Canto de Aninha", "Criança no meu tempo", "Paraíso perdido", "Entre pedras e flores", "Canto solitário" e "Celebrações".

Na sequência, a coletânea apresenta uma rica biografia sobre Cora, assim como a bibliografia completa, contemplando a produção dessa inigualável poetisa goiana.

Lendo este livro, percebe-se que, desde criança, Cora, a Aninha, era diferente, mais sensível e, por isso, incompreendida, cobrada demais, rejeitada, mas também, por conta disso, tornou-se (ou sempre foi), inevitavelmente, poetisa.

Tendo estudado pouco tempo no ensino regular, Cora Coralina até hoje é um fenômeno; escritora de uma poética diferenciada, humana, cujos versos retratam o passado, lamentam as crueldades, celebram as belezas simples, valorizam as melhorias do presente e projetam o futuro.

A autora transpira poesia, não força nada. Para ela, compor lindos poemas é tão natural quanto fazer uma lista de mercado.

Cora Coralina faleceu ainda em 1985, porém deixou um legado imortal.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

"Penso, logo ensino", de Gabriel Perissé

"Penso, logo ensino", de Gabriel Perissé, é um volume pequeno em tamanho, mas enorme em bagagem. Trata-se de uma leitura leve, porém repleta de ensinamentos preciosos, não só para professores.

Inicialmente, o livro traz um valioso texto introdutório escrito por Perissé, no qual o autor tece importantes considerações sobre o ensino e a própria obra. Em seguida, discorre a respeito de trinta palavras-chave, uma por capítulo, que, segundo ele, ajudariam a entender o pensamento humano. São elas, por exemplo, "Aprendizado", "Avaliação", "Ciência", "Discernimento", "Dúvida", "Escola", "Filosofia", "Inteligência", "Linguagem", "Memória". Por fim, faz o fechamento de sua argumentação, afirmando que os mestres não podem ter preguiça de exercitar o pensamento nem receio de compartilhar os seus saberes com os estudantes, por não julgá-los aptos ou merecedores. Afinal, eles podem nos surpreender de várias maneiras.

Portanto, essa publicação, de agradável desfrute, carrega consigo uma pesada carga de conhecimento, cujo aproveitamento se mostra fundamental a todos os estudiosos, não apenas aos da Educação.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

"O Jardim das Oliveiras", de Adélia Prado

A obra poética "O Jardim das Oliveiras" foi lançada em 2025 pela mineira Adélia Prado e coincide com a celebração dos seus 90 anos.

Os inúmeros poemas apresentados neste volume são organizados nas seções "Esta memória forjada em pó de carvão e lágrimas", "As santas vulgaridades têm com certeza um anjo guardião", "Muito cuidado com o recém-nascido" e "Se alguém gritasse, pediria vassoura ou faca para a sangria", títulos que antecipam o conteúdo dos textos, seja em termos de linguagem, seja em relação às provocações propostas pela autora.

Os assuntos abordados podem ser identificados pelas dicotomias: Sagrado e Profano; Vida cotidiana e Vida espiritual; Angústias existenciais e Transcendência; Vida e Morte; Poesia e Espiritualidade; Dores e Graças (associadas ao divino); Tempo e Memória.

Como costuma ser observado no decorrer de sua bibliografia, aqui Adélia não busca rimas nem ritmo triviais, apenas, com o uso do vocabulário e das sentenças comuns, reinventar significados, percepções, conceitos, preconceitos, estereótipos, com muita riqueza e profundidade.

Por fim, cabe acrescentar que o intenso e instigante livro "O Jardim das Oliveiras" comprova que a poetisa em questão, com nove décadas de história, ainda lança trabalhos vigorosos, modernos e que tiram o público da zona de conforto, reafirmando que Adélia Prado merece todos os prêmios e elogios que recebe.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

"Hoje é meu aniversário", de Luciano Buniak




- Título: "Hoje é meu aniversário"
- Autor: Luciano Buniak
- Editora: Labrador (SP)
- Ano de lançamento: 2024
- N.º de páginas: 64


Cheguei a este livro por acaso. Estava procurando obras poéticas interessantes e acessíveis em uma loja virtual e me deparei com "Hoje é meu aniversário". Desde o primeiro contato com o título, senti que esse volume poderia me entregar tudo ou nada.

O primeiro impacto aconteceu no prefácio, no qual o autor afirma: "não sou poeta e este não é um livro de poemas". Na mesma seção, ele acrescenta que o livro é fruto de uma viagem que fez a Paris, em 2022, e dos estranhamentos que vivenciou por lá. A bem dizer, seus versos, surgidos já no meio de sua estadia na Cidade Luz, trazem suas impressões, sensações e sentimentos. Em suma, é o olhar poético não de um turista que vai a algum local badalado para ostentar o seu feito, mas de um ser humano que mudou temporariamente o seu contexto para experimentar e realmente ver se encontrava algo ou alguém diferente.

Nessa obra poética que foi uma surpresa para mim — e para o próprio escritor, que nunca havia planejado a sua concepção —, o leitor depara-se com versos avassaladores, como: "Em poucos dias perceberei que esta viagem / não será como imaginada, / que não serei bem-vindo, / que não serei benquisto aqui / nem ali, nem em lugar algum", "O sol forte do fim do verão / acentua a doce embriaguez de cada um", "Se ninguém mudasse de trajetória, haveria um choque / Nada mudou, houve um choque / [...] Um choque que se repetiu muitas vezes", "E minha vida? Congelada, pausada / À espera do retorno ao normal / O normal que nunca funcionou".

"Hoje é meu aniversário" soa como um verdadeiro diário de viagem, pois os poemas são organizados como tal. Mas é uma viagem pela vida, por si mesmo, pelo outro e também por Paris, sua gente, seus costumes e suas ruas. Fica claro que os textos trazem as percepções profundas do poeta numa lógica temporal (ao menos é o que a sequência dá a entender). Essa ordem é entremeada por provocantes gravuras feitas pelo próprio Luciano, que diz não ser poeta, não ser artista, mas que aqui surge superior a muitos que se nomeiam como tais.

Enfim, adorei ler esse pequeno volume poético, que sinceramente me transportou para a Paris de Luciano Buniak e suas viagens. É um projeto despretensioso que consegue ser uma construção poética consolidada, oferecendo ao público uma arte contemporânea inteligente e de reconhecível valor. Seu autor não subestima os leitores, embora nunca soe presunçoso — nem por ter morado alguns meses na França, nem por ter escrito poesia da melhor qualidade.