quinta-feira, 22 de outubro de 2026

"O monstro que se chamava Cala a Boca", de Luiza Alves



- Título: "O monstro que se chamava Cala a Boca"
- Autora: Luiza Alves
- Ilustrador: Bruno Veiga (Dhama)
- Ano de lançamento: 2026
- Número de páginas: 20

Entre o medo da rejeição e as marcas deixadas por palavras descuidadas, "O monstro que se chamava Cala a Boca" retrata o isolamento de um protagonista incompreendido. Com humor, leveza e sensibilidade, o livro explora o encontro com o monstro Boca Suja para nos lembrar da responsabilidade da linguagem, da força do altruísmo e da arte de saber quando e como falar.

Neste seu primeiro livro infantil, a multifacetada psicóloga, musicista, escritora e editora gaúcha Luiza Alves brinda os leitores com uma narrativa relevante, certamente fundamentada em sua bagagem profissional e conduzida por uma impressionante criatividade. Trata-se de uma história de leitura rápida, mas que permanece ecoando na mente de quem a aprecia de verdade.

A obra também é graficamente muito instigante. As ilustrações criadas por Bruno Veiga não apenas complementam o texto, como também estimulam visualmente o público ao fugirem do tradicional, pois os desenhos são modernos e expressivos, compostos por uma paleta vibrante de cores fortes — imagens marcantes, que não pretendem soar necessariamente "fofinhas".

O texto verbal, todo grafado em caixa-alta, apresenta bom tamanho e uma estética que remete à escrita manual, recurso que amplia o alcance do livro e acolhe indivíduos de diversas idades.

O material da edição física é durável e de excelente qualidade, uma vez que o acabamento grampeado combina-se a páginas densas e plastificadas, perfeitamente preparadas para o manuseio constante dos pequenos leitores sem demonstrar desgaste.

Portanto, "O monstro que se chamava Cala a Boca" é uma publicação de grande valor, capaz de encantar todas as idades e especialmente indicada para crianças maiores e pré-adolescentes. Seu enredo deixa lições valiosas sobre o incentivo à liberdade de expressão, o respeito à pluralidade de opiniões e a reflexão sobre a importância do bom senso ao decidir quando e como usar o dom da palavra.


quinta-feira, 15 de outubro de 2026

“Vó Folhinha – Colecionadora do tempo”, de Fabiano Tadeu Grazioli




- Título: “Vó Folhinha – Colecionadora do tempo”
- Autor: Fabiano Tadeu Grazioli
- Ilustrador: Eloar Guazzelli
- Editora: Edelbra (RS)
- Ano de lançamento: 2026
- Número de páginas: 136


“Vó Folhinha – Colecionadora do tempo”, escrito por Fabiano Tadeu Grazioli, é um resgate afetuoso das lembranças da infância, da avó colecionadora de calendários e do seu universo singular. Na obra, os calendários, quase agendas, marcavam de tudo: alegrias e tristezas, festejos e tragédias. Mais do que isso, eram eles que organizavam toda a rotina e a vida da família da Vó Folhinha.

Grazioli nos conta essa história em capítulos que se aproximam da crônica, estabelecendo uma relação direta entre o tempo registrado nas folhinhas e a trajetória familiar, também descrita em episódios. Tudo é narrado sob a ótica ingênua, questionadora e sincera de uma criança. Nesse contexto, o autor revela como, desde pequeno, já se mostrava seduzido pelas palavras e por suas inúmeras possibilidades.

A narrativa aborda a resiliência e a necessidade de seguir adiante, apesar das dificuldades e dos golpes que a vida e as pessoas nos impõem. É um livro que fala sobre cuidado, cortesia e a importância de cada um fazer a sua parte, demonstrando, inclusive, como, muitas vezes, as crianças têm atitudes e posturas bem mais racionais do que os adultos.

O texto traz uma linguagem poética e bastante sinestésica, muito típica da forma como nos recordamos da infância. Além do conteúdo, o livro é esteticamente lindo, pois as ilustrações de Eloar Guazzelli são extremamente significativas, complementares ao texto verbal e repletas de personalidade.

Muito bem escrito, “Vó Folhinha – Colecionadora do tempo” é classificado como literatura infantojuvenil, mas creio que a obra encantará especialmente os adultos jovens de coração, isto é, aqueles que ainda não se deixaram endurecer pela vida.

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

"Uma primavera talvez", de Claudino Pilotto

Lançado em 1986, "Uma primavera talvez" é o primeiro livro do saudoso poeta Claudino Pilotto, natural de Viadutos (RS).

Este é também o primeiro livro do autor que leio, embora já o conhecesse de nome havia muitos anos. Ainda na época de faculdade, a igualmente saudosa professora e poetisa Vera Beatriz Sass, um ser humano incrível que me ensinou tudo o que sei sobre poesia, pediu-me: “Guilherme, nunca pare de escrever. Alguns dos principais poetas da região desistiram de publicar, como o Claudino Pilotto e eu. Por isso, não desista você também.” E, certamente, a minha querida Profe Vera não imaginara quantas vezes essa lembrança voltaria à minha mente e o quanto ela seria importante para que eu não parasse de lançar livros.

Mas voltemos ao Claudino. A obra é dividida em três partes, sendo a última voltada à poesia gauchesca. Ao longo de suas páginas, Pilotto demonstra ter sido um escritor muito competente, pois utiliza os versos para abordar os mais variados assuntos, sob diferentes perspectivas.

Ou seja, "Uma primavera talvez" é um bom livro do gênero lírico, que marca, com notável propriedade, a estreia do bardo proveniente do Alto Uruguai gaúcho.

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

"Da lama ao caos: que som é esse que vem de Pernambuco?", de José Teles

Também biógrafo do saudoso e genial músico pernambucano Chico Science, o jornalista José Teles aborda, neste livro, principalmente a concepção do primeiro álbum de estúdio do influente grupo Chico Science & Nação Zumbi, o absolutamente relevante "Da lama ao caos".

No entanto, para tratar do disco, Teles também discorre sobre o surgimento da banda, os passos posteriores ao álbum e a repercussão de "Da lama ao caos" em diferentes cenários musicais, além de narrar a trajetória do próprio Chico, figura realmente central em todo esse processo.

O volume não é extenso, mas, considerando seu conteúdo, é muito rico em informações. Uma leitura adorável!

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

"O Mito da Caverna", de Platão

Presente no Livro VII da obra A República, "O Mito da Caverna" é fundamental não só para a Filosofia, mas para a sociedade humana de forma geral. Essa alegoria, criada pelo grego Platão, discípulo de Sócrates — ambos pilares da Filosofia Ocidental —, tem a capacidade de permanecer atual; parece que fica cada vez mais viva e faz cada vez mais sentido com o passar do tempo.

Por meio de seu mito, o pensador originário da Grécia Antiga nos faz refletir sobre ignorância, conhecimento, liberdade, responsabilidade, alienação, manipulação, dominação, doutrinação e efeito manada, entre outros temas. Podemos utilizá-lo, por exemplo, em relação à cultura, à educação, à política, ao entretenimento de massa — como a televisão, o rádio e a internet —, e especialmente às redes sociais.

Sendo assim, posso afirmar que o leitor se torna um indivíduo diferente após essa leitura, pois ela transforma a sua postura diante de si mesmo e daqueles que o cercam.

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

“Vida de gado: trinta anos pastando no jornalismo”, de Tom Cardoso




- Título: “Vida de gado: trinta anos pastando no jornalismo”
- Autor: Tom Cardoso
- Editora: Rua do Sabão (SP)
- Ano de lançamento: 2026
- Nº.  de páginas: 172


Há volumes literários que enchem seus leitores de palavras. Este, por sua vez, deixa-os sem palavras, tamanho é o deslumbramento provocado não apenas por sua qualidade, mas também pela ousadia ao expor algumas das passagens aqui contadas.

Nesta divertida e curiosa obra, o jornalista Tom Cardoso, de quem eu já havia lido a excelente biografia “Ninguém pode com Nara Leão”, narra situações sempre surpreendentes, ora pelo humor, ora pela melancolia, vividas na companhia de ilustres figuras que cruzaram sua trajetória de três décadas no jornalismo.

Nas páginas de “Vida de gado”, Tom retrata o lado menos glamouroso e, ao mesmo tempo, mais inusitado da imprensa brasileira. Ao fazê-lo, oferece ao público uma visão pitoresca de uma realidade que exige do indivíduo não apenas boa capacidade de leitura, mas também um vasto conhecimento de mundo. Isso porque não entrega nada mastigado (apesar do título), contando com a inteligência e a cultura de quem tem em mãos esse seu lançamento.

Confesso que dei várias gargalhadas ao longo destas histórias, que, entretanto, não me conquistaram apenas pela graça. A escrita de Tom é primorosa, ágil e espirituosa, capaz de provocar no leitor as mais diversas reações – façanha alcançada por poucos artistas das letras. O humor, aqui, não é mero recurso para entreter, pois, muitas vezes, serve também para revelar o absurdo, a vaidade, a precariedade e até a estafa escondidos nas situações narradas.

Entre os verbetes presentes no livro, os que mais me fascinaram foram Caetano Veloso, Lobão, Marilyn Manson, Miele, Pastor Valdemiro, Paulinho da Viola, Roberto Carlos, Wilson Simonal e Zé Celso. A diversidade desses nomes dá uma boa medida da amplitude do universo percorrido por Tom Cardoso e da riqueza de (des)encontros que uma longa carreira jornalística pode proporcionar.

No fim das contas, “Vida de gado” passa longe de ser um mero arquivo de anedotas de redação, tendo em vista que, nele, Tom Cardoso transforma suas três décadas de batente em pura literatura, provando que, com o talento certo para a observação, até mesmo os anos “pastando” na profissão podem render um livro absolutamente irresistível.

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

"Squirt", de Telma Scherer




- Título: "Squirt"
- Autora: Telma Scherer
- Editora: Terra Redonda (SP)
- Ano de lançamento: 2021
- N.º de páginas: 88


"Squirt", de Telma Scherer, é construído por meio de poemas longos e prosas poéticas, sem dar título aos seus textos, uma escolha estética que parece ter sido pensada justamente para não fornecer pistas fáceis ou caminhos antecipados ao leitor. Conduzido por temas profundamente femininos, o livro explora sentimentos, sensações e pontos de vista sob essa ótica. Além disso, fala muito sobre as relações humanas, dedicando um foco especial e literal àquelas que se encontram doentes.

Sua leitura revela uma escrita de caráter denso, mas que se mantém acessível o tempo todo. A poesia de Telma é visceral, despudorada e empoderada, e, acima de tudo, muito humana. Ela se sustenta na força de imagens potentes e em uma intertextualidade refinada e nada óbvia, na qual a autora não hesita em recorrer a elementos escatológicos para dar materialidade aos seus versos. Nesse sentido, chama muito a atenção a forma como seus versos dialogam com diversas formas de arte, principalmente as visuais. Em vários momentos, fica evidente que a autora produz seus poemas de maneira análoga ao seu processo com a pintura: ela realiza recortes significativos na linguagem e, em seguida, os ressignifica com tinta, com suor, com sangue.

Por isso, recomendo "Squirt" para quem procura uma poesia corajosa, que disseca a vulnerabilidade dos vínculos com maturidade e sem idealizações. É a escolha certa para quem busca uma literatura forte e imagética, na qual a palavra alcança o humano orgânico para criar uma experiência de leitura intensa e provocadora.

sábado, 29 de agosto de 2026

"A Noiva de Ravel", de L. S. Oliveira




- Título: “A Noiva de Ravel”
- Autor: L. S. Oliveira
- Editora: M.inimalismos (SP)
- Ano de lançamento: 2025
- N.º de páginas: 112


Ravel é um jovem humilde que alimenta, durante anos, uma paixão silenciosa e, aparentemente, impossível por Beatriz, a jovem dona da beleza mais sublime de toda a cidade.

Quando Ravel acreditava que a sorte finalmente estivesse a seu favor, a vida lhe desferiu o golpe mais baixo e humilhante que alguém poderia receber.

Considerando a sua existência completamente arruinada, o rapaz promete a si mesmo devolver todo o mal aos seus algozes. Para isso, não medirá esforços, aguardando com exatidão e paciência o momento certo para resolver cada situação e cobrar a sua dívida.

A narrativa proporcionada aos leitores pelo perspicaz escritor L. S. Oliveira é, a um só tempo, instigante e impactante. A história de Ravel, que certamente provocará a identificação daqueles que se sentem oprimidos de alguma forma, questiona conceitos sociais, expõe as mazelas brasileiras e exemplifica como o dinheiro e o poder manipulam as ações em nosso país, dando a entender que a justiça, sob essa ótica, é sempre parcial.

O estilo de escrita do autor permite que o público com maior bagagem cultural estabeleça ricas intertextualidades com outras obras. Particularmente, reconheci uma forte conexão com os primeiros filmes do cineasta José Mojica Marins, sobretudo na atmosfera que envolve o célebre personagem Zé do Caixão.

Creio que as perguntas que permanecem ecoando ao final da leitura sejam: Ravel é um herói, um anti-herói ou um vilão? Esse protagonista promoveu vingança ou justiça?

Para finalizar, recomendo este título àqueles que admiram histórias chocantes, mas que não se chocam com facilidade. Além disso, reitero que essa leitura é estritamente indicada para maiores de 18 anos, tendo em vista a presença de conteúdos sensíveis para faixas etárias inferiores.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

"Paulo Sant'Ana: o gênio indomável", de Márcio Pinheiro

No volume em questão, o jornalista Márcio Pinheiro concretiza um honroso texto biográfico a respeito do inegavelmente merecedor personagem Paulo Sant'Ana, que foi, de verdade, um gênio da crônica gaúcha.

Os leitores do Rio Grande do Sul liam as colunas de Sant'Ana antes do restante do jornal não só porque elas dialogavam de maneira perspicaz com o seu cotidiano, mas também por conta do carisma hipnótico dessa entidade do nosso estado.

Onde Paulo (ou Pablo) estivesse, seria o centro das atenções, pois, além da inteligência ímpar que possuía, temperada por um uso invejável da língua, ele detinha um magnetismo universal, tendo em vista que dominava todos os públicos. Num local dominado por chimangos e maragatos, gremistas e colorados, Sant'Ana era uma unanimidade.

E Márcio Pinheiro conta a história desse ícone de maneira notavelmente competente e respeitosa, enaltecendo as qualidades tamanhas do polivalente homenageado, assim como salientando os seus perturbadores defeitos.

Márcio fala da criança, do jovem, do adulto, do idoso. Discorre sobre o cronista, o radialista, o comentarista, o gremista, o político, o cantor. Inclui o viciado, o jogador, o herói, o vilão. Todos esses fatores, Pinheiro exemplifica com deliciosos dizeres do próprio Sant'Ana.

Ou seja, ele não deixa passar nada, bem ao estilo de Paulo Sant'Ana!

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

"Marcelino Pão e Vinho", de José María Sánchez-Silva

Livro que deu origem ao inesquecível filme homônimo de 1955, "Marcelino Pão e Vinho" aborda a história de um menino órfão criado por frades que estabelece uma curiosa ligação com Jesus Cristo.

Para mim, este é um dos poucos casos em que o filme supera o livro. Não que a obra literária seja ruim; mas, na minha opinião, a narrativa é contada organizando os fatos de maneira estranha. Por sua vez, o longa-metragem apresenta-se sublime, irretocável ou, utilizando uma alusão cristã, impecável.

Por conta disso, recomendo a leitura deste volume escrito por Sánchez-Silva para aqueles que, assim como eu, são fãs do filme dos anos 50.

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

“Máquinas moem sentimentos (Sob o foco do luar)”, de Rogério Salgado

 

 

- Título: “Máquinas moem sentimentos (Sob o foco do luar)”
- Autor: Rogério Salgado
- Editora: Baroni Edições (MG)
- Ano de lançamento: 2026
- N.º de páginas: 28


Neste ano, a Baroni Edições lança a “Coleção Plaquete”, composta por nove livretos individuais contemplando o gênero lírico.

O volume 1 apresenta ao público o título “Máquinas moem sentimentos (Sob o foco do luar)”, de autoria do consagrado poeta mineiro Rogério Salgado, escritor com cinco décadas de trajetória.

Embora breve, o livro é inesgotável, pois sua poesia se degusta e se aprecia, tal como um bom disco. Nestas páginas, Rogério brinda o leitor com versos que encantam por suas qualidades, representativas da moderníssima lira brasileira, que comunica com e sem palavras, com e sem rimas, pelo uso inovador da língua e da linguagem poética, assim como pela instigante conversa com a tradição.

Em “Máquinas moem sentimentos”, Salgado nos fala a respeito da nossa vida automatizada e virtual, da nostalgia pelo que passou, da solidão, da morte, da infância, da velhice, do Brasil e da política. Faz referência a Vivaldi, Bach, Mário de Sá-Carneiro e a ícones da cultura popular. Além disso, expõe poemas com excepcionalidades, como os que foram escritos em parceria e outros que foram musicados.

É possível, nesta obra, encontrar preciosidades como: “dizer palavras já não importa / sem que se tenha milhões de seguidores” (“Máquinas moem sentimentos”, p. 5); “preciso que me sintas / como a poesia sente / a presença do poeta” (“Ode”, p. 9); “quando eu tiver que partir / quero ser menino novamente / brincando ao volante da imaginação” (“Poema lusitano”, p. 14); “voar é sobrepor / alcançar o céu / retirar os véus / que o impedem de sonhar” (“Pássaro de Aruá”, p. 15); “aqui apesar de tanta poluição / ainda posso respirar a liberdade” (“A minha terra”, p. 16). Aliás, dentre todos, os poemas de que mais gostei foram “Máquinas moem sentimentos”, “Ode”, “Poema lusitano”, “Pássaro de Aruá”, “A minha terra”, “Fantoches”, “Canto de desatar nossos nós” e “Inspiração”.

Portanto, o livreto em questão é capaz de sensibilizar até mesmo os indivíduos que não estão habituados à poesia, pois apresenta linguagem e imagens acessíveis, que dialogam com o cotidiano e com a travessia de qualquer brasileiro. Recomendo com sinceridade os poemas de Rogério Salgado, cujos versos são uma aula de lirismo, ludicidade e lucidez.

sábado, 8 de agosto de 2026

"Monstros: o dilema do fã", de Claire Dederer

O ensaio "Monstros: o dilema do fã", escrito por Claire Dederer, busca responder à indagação que tem sido bastante discutida: é possível separar a obra do artista?

Para explorar o assunto, a autora expõe comportamentos terríveis de parte de grandes expoentes do cinema, da literatura, da música, das artes plásticas. Além disso, questiona valores da sociedade, sejam de décadas passadas, sejam de agora, que, por vezes, permitiam determinadas condutas.

Ainda, o livro traz reflexões pertinentes e bem fundamentadas, costuradas por uma linha de pensamento coerente que sabe onde quer chegar.

É uma leitura muito interessante, mas, em diversas ocasiões, incômoda, pois realmente tira o leitor da zona de conforto: mexe com preconcepções e instiga o consumo desacomodado e consciente de obras de arte.

Por fim, trago uma percepção que eu já tinha anteriormente, que foi ricamente abordada por Claire:


"Queremos que o canalha ultrapasse os limites, que quebre as regras. Recompensamos essa quebra de regras e, em seguida, damos um passo adiante e a vemos como endêmica à própria produção de arte. [...] Não apenas porque os guardiões, editores e diretores de estúdios são tradicionalmente homens, mas também porque nós precisamos de enredo e ação. Ansiamos por acontecimentos!

[...]

[...] Fingir que não existe fascínio por homens ruins é escamotear a realidade. As mulheres ao redor desses homens se amontoam como lenha. [...] A vida é uma chatice. Com um vilão por perto, é muito provável que alguma coisa aconteça." (p. 150-151)

terça-feira, 28 de julho de 2026

"A face poética da morte", de Angelo Asson




- Título: “A face poética da morte”
- Autor: Angelo Asson
- Ano de lançamento: 2022
- N.º de páginas: 68


"A face poética da morte" é uma obra inegavelmente atraente. A curiosidade já é despertada ao nos depararmos com a capa, de uma beleza ímpar, repleta de belíssimas ilustrações em tons quentes que remetem à celebração do Día de los Muertos, no México.

É justamente essa a proposta do escritor paulista Angelo Asson neste volume: discorrer sobre as diversas faces do passamento, explorando com sensibilidade e leveza os múltiplos recursos da poesia.

De minha parte, fiquei inicialmente fascinado pelos textos introdutórios — aqui compreendidos a quarta capa, a orelha e o prefácio, intitulado "abrindo a cova". Os três demonstram a capacidade discursiva do autor e o seu potencial para envolver o leitor desde as primeiras páginas.

Os poemas, por sua vez, estão organizados em cinco interessantes seções ("o que é a vida?", "tentando entender", "desvarios", "contando as horas" e "descendo o ataúde"), todas abertas por uma brilhante quadra que funciona como introdução ao conjunto de textos.

Ao longo do livro, Asson explora a poesia por meio dos sons e dos significados, produzindo versos de notável inspiração. Sua escrita é simples e impactante, buscando comover o leitor, e não se autopromover. Em seus versos, o autor sublinha a nossa efemeridade, o caráter repentino da morte e a imprevisibilidade tanto da vida quanto da própria finitude, dimensões que escapam ao nosso controle.

O livro se encerra com um perspicaz posfácio, nomeado como "epitáfio", no qual Angelo sintetiza, de maneira bastante feliz, os principais temas desenvolvidos ao longo da obra.

Após concluir esta leitura, posso afirmar que "A face poética da morte" é um título minuciosamente planejado, que reúne uma poesia muito bem construída, capaz de conquistar os mais diversos leitores, ao mesmo tempo em que suscita pertinentes reflexões sobre um tema inerente à condição humana.

Entre todos os poemas, os meus favoritos foram: "Tralha", "Vazio", "Faça barulho!", "Doce vida", "A morte das palavras", "Espetado", "O que é a vida?", "Lágrimas", "Fim de tarde", "Preparando a gente", "As cápsulas vazias", "Quem escolhe" e "Retrato".




quinta-feira, 23 de julho de 2026

"A Princesinha", de Frances Hodgson Burnett

Fiquei maravilhado ao assistir ao filme "A Princesinha", dirigido por Alfonso Cuarón e lançado em 1995. Tanto que, logo em seguida, adquiri o livro no qual o filme foi baseado.

Confesso que, durante a leitura das primeiras páginas, não havia me empolgado muito com a obra, e quase a abandonei. Até por conta de alguns preconceitos nada escondidos nas linhas da narrativa, como: "[...] Eu tenho o cabelo curto, preto e olhos verdes; além do mais, sou uma criança magra e estou longe de ter a pele clara. Sou uma das crianças mais feias que ela já viu. [...]" (p. 12). Ao ser caracterizada dessa forma, fiquei imaginando também por que Sara, a personagem principal, foi interpretada por uma menina branca, de lindos e expressivos olhos azuis e de cachos dourados (um novo preconceito?).

O volume escrito por Frances Hodgson Burnett é, em si mesmo, cheio de contradições que revelam uma autora bem-intencionada, mas, por outro lado, presa a concepções de sua época hoje inaceitáveis. Ao mesmo tempo em que lamenta profundamente que crianças passem fome, valoriza a riqueza e o poder, assim como o respeito e a influência que deles decorrem, enaltecendo, ainda, minas de diamante e casacos de pele.

Além disso, o livro tem por foco a humanidade de Sara, que trata a todos igualmente; porém, ao longo da narrativa, há diversos trechos em que a autora usa estereótipos, sejam intelectuais, sejam físicos, para julgar as personagens.

No entanto, essa obra literária, apesar de seus cada vez mais perceptíveis defeitos, encanta de verdade ao contar a história de Sara Crewe, uma menina rica que se torna pobre da noite para o dia, embora continue demonstrando a mesma nobreza de caráter.

Admito que a narrativa do filme agradou-me mais do que a do livro. Por outro lado, isso não desmerece as páginas escritas por Frances, que estão repletas de trechos interessantes, como:


"— Arrisco a dizer que é bem difícil ser um rato [...]. Ninguém gosta de você. As pessoas pulam, saem correndo e gritam: 'Oh, um rato horrível!' [...] Mas ninguém perguntou a este rato se ele queria ser um rato quando foi feito. [...]" (p. 103)


"Como os animais entendem as coisas é algo que desconheço, mas é certo que eles entendem. Talvez haja uma linguagem que não seja feita de palavras e tudo no mundo a compreenda. Talvez exista uma alma dentro de tudo que consiga sempre falar com outra alma, sem emitir um som sequer. Porém, qualquer que fosse a razão, o rato soube naquele momento que estava a salvo, mesmo sendo um rato. Sabia que esta jovem humana sentada no banquinho vermelho não iria pular e aterrorizá-lo com barulhos selvagens nem atirar nele objetos pesados que, se não o esmagassem, o fariam voltar correndo e mancando para seu buraco. Ele era realmente um rato muito bom e não pretendia causar o menor dano. [...]" (p. 103-104)


Apesar de suas contradições, "A Princesinha" continua sendo uma história profundamente tocante. Talvez seja justamente por reunir virtudes e limitações tão humanas (e por enxergar dignidade até nos seres mais desprezados, como o rato Melquisedeque) que a obra siga despertando encanto e reflexão mais de um século após sua publicação.

sábado, 11 de julho de 2026

"50 Anos de Sonho e de Sangue", de Juscelino Filho e Carla Cruz

 



- Título: “50 Anos de Sonho e de Sangue”
- Autores: Juscelino Filho e Carla Cruz
- Ano de lançamento: 2026
- N.º de páginas: 287


Neste livro, os excelentes Juscelino Filho e Carla Cruz dissecam o álbum “Alucinação”, lançado pelo saudoso músico cearense Belchior, obra que completa cinquenta anos de existência em 2026.

Os autores dão início ao texto relatando as suas primeiras experiências com o artista, discorrendo sobre como e quando conheceram a sua música. A partir daí, inserem o contexto de surgimento e produção do disco. Além disso, após descreverem os pormenores dos responsáveis por essa concepção, eles abordam as principais influências do período. Logo, contextualizam o mundo do cantor naquele momento, escaneando a evolução das letras, da parte instrumental e da harmonia presentes no título homenageado.

O ponto central da leitura é o longo exame de cada canção. É feito um estudo aprofundado sobre a criação poética e sonora de todas as faixas: “Apenas um rapaz latino-americano”, “Velha roupa colorida”, “Como nossos pais”, “Sujeito de sorte”, “Como o diabo gosta”, “Alucinação”, “Não leve flores”, “A palo seco”, “Fotografia 3x4” e “Antes do fim”.

Para concluir o volume, são incluídos, ainda, diagramas que esmiúçam a estrutura dessas composições, bem como um material interativo bônus, que pode ser conferido na plataforma de vídeo YouTube.

Sendo assim, pode-se afirmar que “50 Anos de Sonho e de Sangue: Uma análise do álbum Alucinação” é um registro indicado tanto para aqueles que já apreciam o repertório de Belchior quanto para as pessoas que desejam descobrir mais a respeito dele. Há material para quem busca perspectivas mais aprofundadas, como também há conteúdo para os leitores que chegam às páginas por mera curiosidade.

sexta-feira, 10 de julho de 2026

"Ensaios criativos", de Luiza Alves



- Título: “Ensaios criativos”
- Autora: Luiza Alves
- Editora: Fomento Literário (SP)
- Ano de lançamento: 2025
- N.º de páginas: 84


Este primeiro livro da psicóloga, musicista e escritora gaúcha Luiza Alves é muito instigante! Nele, a autora expõe de forma espontânea e criativa tudo o que se passa na cabeça e no coração. São pequenos poemas e prosas poéticas, cujas reflexões nos convidam a entrar na intimidade de Luiza, que nos auxilia nesse processo anexando ao livro fotografias de tudo aquilo que é importante para ela, inclusive para o seu processo de criação.

Os textos de “Ensaios criativos” provocam um impacto imediato, o que fortalece a sua capacidade de cativar os leitores. Além disso, sendo curtos, nunca são breves, pois ressoam em nossas vivências diárias. Em suas páginas, Luiza aborda inúmeros temas, como colecionismo, suportes de escrita, importância da escrita, onirismo, comportamentos sociais, sentimentos, trajetórias, escolhas, arte, perspectivas, entre outros.

Alguns dos poemas que mais me encantaram foram: “Artifícios”, “Tara por cadernos”, “Diário”, “Sonho”, “Eu me permito escrever”, “Prestatividade”, “Preserve-herança”, “Caderneta de bordo”, “A raiva em mim”, “Tempo de vida”, “Caminho incerto”, “Por onde andam as tuas flores?”, “Arranha-céu”, “Acalento”, “Só”, “Drama” e “Contar histórias”.

O livro traz questões psicológicas, cenas cotidianas e proporciona uma leitura muito envolvente. Tem um tom filosófico, assim como um tom lúdico. As fotografias entremeadas aos textos realmente enriquecem a experiência de leitura. A criatividade nas composições de Luiza é latente, e “Ensaios criativos”, embora pareça uma obra curta, é imensamente rica. Aqui, essa artista demonstra que tem tempo para contemplar, mas não tem tempo a perder.

Para finalizar, é preciso salientar que a escrita de Luiza só não é melhor do que as suas canções, que estou escutando no fone de ouvido, comovido, enquanto escrevo esta resenha.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

“Versículos para momentos difíceis (ou não)”, de Pietra Seráfico

 



“Versículos para momentos difíceis (ou não)” é um verdadeiro mimo! Publicado pela escritora e bookstan cristã Pietra Seráfico, é um livro de bolso que apresenta ao leitor salmos selecionados e organizados por temas, buscando aproximá-lo das escrituras e facilitar os seus momentos de fé em situações de aflição, ou não – como propõe o título.

Além disso, oferece às pessoas espaços para reflexões e a escrita de orações a respeito de cada salmo proposto, tornando-se, com isso, não só uma ferramenta de amparo à religiosidade, mas também de encontro com a sua crença particular, tendo em vista que incentiva os leitores a pensarem por si mesmos, a adequarem a religião às necessidades ligadas a suas próprias trajetórias.

Ou seja, num mundo tão urgente e perturbador, livros como esse da Pietra permitem que a fé faça mais sentido na vida dos indivíduos, porque auxiliam cada um de nós a compreender melhor as Escrituras, de uma forma mais cativante e acessível.


***


Guilherme Mossini Mendel: Como se deu a escolha dos salmos para a organização desta obra?

Pietra Seráfico: Os que mais falaram comigo e conversaram ao meu coração foram os escolhidos.


GMM: Depois do lançamento de “Devocional Pensamentos”, qual é a intenção com este livro?

PS: Na verdade, publicá-lo foi uma grande surpresa até para mim. Eu o fiz há muitos anos, o achei recentemente e resolvi postar!


GMM: Por que foi feita a opção por lançar um belíssimo livro de bolso?

PS: Por ser um livro muito bíblico, queria que fosse algo fácil de carregar, para que haja sempre espaço e tempo para Deus em nossas rotinas.


GMM: De que maneira você percebe que livros como os seus atuam na aproximação das pessoas com a religiosidade?

PS: Creio que a forma como me coloco como ser humano que sofre e, mesmo assim, não perde a fé me humaniza diante dos leitores, fazendo com que percebam que não precisamos da perfeição para buscar a Deus.


GMM: Como você espera que “Versículos para momentos difíceis (ou não)” sirva de incentivo para que os leitores revisitem a Bíblia?

PS: Quero que este livro seja a porta de entrada para que cada vez mais as pessoas sintam despertar em seu coração a curiosidade por Cristo e, claro, busquem conhecê-lo mais profundamente.


terça-feira, 30 de junho de 2026

"Microlândia: As aventuras dos superátomos", de Patricia Keder Sandim Reis




- Título: “Microlândia: As aventuras dos superátomos”
- Autora: Patricia Keder Sandim Reis
- Editora: Ases da Literatura (SC)
- Ano de lançamento: 2025
- N.º de páginas: 52


O que acontece quando uma competente professora de Ciências une uma habilidade inata e responsavelmente trabalhada para contar histórias ao notável domínio do conteúdo que ensina em sala de aula há anos? Surge “Microlândia: As aventuras dos superátomos”, narrativa em que os átomos Rui, Tininha e Dito juntam seus talentos para manter o equilíbrio do lugar. Juntos, eles enfrentam vilões que facilmente associamos a figuras (famosas e anônimas) do nosso cotidiano.

Nesta cativante obra literária, Patricia Keder ensina sobre os átomos de forma lúdica, mas também aborda o respeito às diferenças, a empatia, a união, a autoestima e o trabalho comunitário, valências cada vez mais essenciais em nosso mundo. Com isso, a autora demonstra ser uma profissional atenta não apenas ao conhecimento científico transmitido aos jovens, mas também à formação dos cidadãos que construirão o amanhã do nosso planeta.

Ao longo de “Microlândia: As aventuras dos superátomos”, encontramos não apenas uma narrativa convidativa e estruturada em capítulos – o que facilita a experiência para todos os públicos –, mas também ilustrações atraentes e significativas, assinadas por Tayline Cristensen.

Por fim, vale ressaltar que a edição concebida pela Editora Ases da Literatura contribui para o sucesso da proposta, entregando ao seu público principal, as crianças, um material que além de belo, é bastante durável.


* Patricia Keder Sandim Reis é licenciada em Ciências Biológicas, Química e Pedagogia, com especializações em Neurociência, Neuropsicologia e Neuropsicopedagogia.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

“Devocional Pensamentos”, de Pietra Seráfico



O livro “Devocional Pensamentos”, publicado pela escritora e bookstan cristã Pietra Seráfico, chama a atenção do leitor por conta de sua beleza e de sua organização meticulosamente pensada. Ele conduz o indivíduo a vivenciá-lo por dez dias, por meio das temáticas: confiança; dependência; entrega; descanso; espera; obediência e submissão; renúncia; ansiedade; paz e filiação. Cada um desses capítulos é introduzido por um salmo, um comentário acolhedor feito pela autora, uma oração focada no tema e uma reflexão proposta.

Tendo como subtítulo “Devocionais em Salmos para mentes ansiosas e corações quebrantados”, a obra pretende reconectar o leitor com Deus, apresentando, como ferramentas adicionais, seções interativas, como caça-palavras, labirinto (muito pertinente, por conta das possíveis analogias), além de espaços para escrever, desenhar ou o que o leitor quiser.

Por meio de seu segundo livro, Pietra nos dá uma lição de vida, contando a sua história de superação, pretendendo, assim, que nós possamos, também, desfrutar das bênçãos que ela própria recebeu do Espírito Santo.


***



Guilherme Mossini Mendel: Pietra, o que exatamente é um devocional?

Pietra Seráfico: Um devocional é um tempo separado, intencional, para buscar a presença de Deus, ouvir Sua voz e alinhar o coração com os princípios da fé cristã. É um momento de conexão, reflexão, leitura bíblica e oração. Diferente de um estudo bíblico aprofundado, o devocional é mais pessoal.


GMM: O que motivou a escrita deste livro em específico?

PS: Saber que a área em que mais sofremos também é a área que mais ajudamos os outros. Minha dor tem um propósito, e eu precisava compartilhá-la.


GMM: O seu primeiro livro, “Está na hora de dormir”, foi publicado por uma editora. Já o “Devocional Pensamentos” foi lançado de forma independente. Como se deu essa escolha e o processo de edição da obra?

PS: Simplesmente pelo fato de que o retorno financeiro com a editora foi péssimo, rsrs. Já com o 2º livro, em pouquíssimo tempo, o retorno já foi bem melhor.


GMM: O que você espera que as pessoas levem consigo após a leitura desse título?

PS: Espero que saibam que apesar dos sofrimentos, há Alguém que nos capacita para enfrentar tudo isso. Espero que sintam a paz de Cristo que tanto lutei para encontrar, mas que hoje é um companheiro diário.


GMM: Como ocorreu a concepção da capa do livro, tanto em relação à parte criativa quanto à
execução?

PS: Em relação à concepção, foi feita com IA mesmo porque não conseguia pagar um ilustrador para realizar o design da capa. Já a parte criativa, foi uma forma de dizer, através da mão de Deus na minha cabeça, que Ele controla o meu ser do começo ao fim. Controla minha mente e meus pensamentos, mesmo quando nem eu consigo.

"Insana Lucidez", de Rodrigo Carpi Nejar





- Título: "Insana Lucidez"
- Autor: Rodrigo Carpi Nejar
- Editora: Bestiário (RS)
- Ano de lançamento: 2022
- N.º de páginas: 160


O volume "Insana Lucidez" oferece ao leitor uma ampla variedade de poemas. Os versos de Rodrigo Carpi Nejar, autor oriundo de uma família com tradição na literatura brasileira, caracterizam-se pelo forte simbolismo e pela riqueza de imagens. De extensões diversas, os textos recorrem às rimas quando estas contribuem para a proposta estética do poema. Em alguns momentos, o impacto é imediato; em outros, exige-se do leitor uma interpretação mais atenta. Além disso, há composições que dialogam com a poesia tradicionalista, enquanto outras chegaram a ser adaptadas para a música.

A obra divide-se em quatro partes: "Vertigens", "Patas do Firmamento", "Telas" e "Hora do Sol". Ao longo da leitura dessas seções, os poemas de que mais gostei foram: "Impresso", "Adereço", "Subterrâneos", "Soslaio", "Antes que o choro transborde", "Sobra doméstica", "Chama arredia", "Parto da febre", "Labaredas", "Armistício", "Brevidade da pedra" e "Programação".

Há passagens inegavelmente sublimes, como: "E recolheste / minhas lágrimas, / para fazer adereço." ("Adereço"); "Procuro / olhos de fogo, / para que minhas lágrimas / os suportem." ("Antes que o choro transborde"); "Careceu estancar-se no veio, / ver a fome erguer os seus seios. / E o amor transformar-se em vigília. / Era grão de farelo entre os dedos." ("Chama arredia"); "Na verdade, cansei de mim mesmo. / Eu, desperdício de verso e somatória. / Com as profecias impregnadas de musgos." ("Armistício").

Pode-se dizer, portanto, que "Insana Lucidez" é uma leitura recomendada tanto para iniciantes quanto para leitores experientes de poesia. Trata-se de uma obra que explora diferentes facetas da arte em versos, transitando entre a acessibilidade de alguns poemas e a densidade interpretativa de outros, sem perder a expressividade que caracteriza o conjunto.

sábado, 20 de junho de 2026

"Navegações e Regressos", de Pablo Neruda

Já li muito Neruda durante a minha vida! Esse autor me foi apresentado ainda na adolescência pelo meu tio Rubens, como confidenciei em textos anteriores. Porém, nenhum livro do poeta chileno me impactou tanto quanto "Navegações e Regressos", obra originalmente publicada em 1959.

Aqui, Neruda aborda locais, suas paisagens e costumes, a natureza, assim como a natureza humana. Fala de viagens pelo globo terrestre, representando sempre viagens pelo interior dos indivíduos. Por isso, comoveu-me demais o poema "O barco".

Além disso, o volume é formado quase que exclusivamente por odes. Nelas, o poeta inspira-se tanto em personalidades, como o líder soviético Lênin, quanto em animais, a exemplo do gato e do elefante.

Sinto que, neste título, Neruda estava no auge da sua capacidade poética, constituindo, portanto, um livro visivelmente equilibrado: tem valor aos eruditos, aos leitores comuns, àqueles que leem de maneira despretensiosa e àqueles que buscam a profundidade.

Percebe-se, então, que Neruda merece todo o reconhecimento que teve e ainda tem, pois é um escritor que conseguiu sensibilizar todos os estratos sociais, algo realmente para poucos.




sexta-feira, 12 de junho de 2026

"Os ETs de Varginha", de Margarida Hallacoc





- Título: "Os ETs de Varginha"
- Autora: Margarida Hallacoc
- Editora: Literíssima (MG)
- Ano de lançamento: 2024
- N.º de páginas: 191


Para começo de conversa, comprei este livro com o objetivo de conhecer mais sobre o assunto "ETs de Varginha" (e a obra em questão já instiga pelo título, tendo em vista que, tradicionalmente, fala-se em apenas um ET de Varginha). E o volume escrito por Margarida Hallacoc me chamou a atenção justamente por ter sido concebido por uma jornalista, classe profissional que respeito demais por, quase sempre, não brincar em serviço. Almejava, então, encontrar nestas páginas mais fatos do que crenças pessoais; mais observações do que vontade de observar.

Contudo, ao começar a leitura, fiquei completamente fascinado com o que encontrei. Se, por um lado, o título "Os ETs de Varginha" fornece informações a respeito do tema central do livro, o mote deste volume, por outro, reduz a proposta do ponto de vista dos leitores desavisados. Pois a autora, sim, aborda com inegável propriedade o assunto em questão, sem enrolações, de forma objetiva e factual, englobando todos os aspectos que realmente importam em relação a ele.

No entanto, assim como afirma nos textos introdutórios, a vontade de dar vida a este projeto nasceu de uma ocasião em que ela, durante a pandemia de COVID-19, abriu seu verdadeiro baú do tesouro para mostrar às filhas o material que havia guardado desde aquela época. E ela realmente o faz, mas para todos nós, seus leitores. Hallacoc nos relembra de tudo aquilo que nos fascinou e nos entristeceu durante aquele período, proporcionando-nos uma valiosa viagem no tempo. Não apenas nos fala sobre os ETs, mas também nos oferece todo o contexto, todo o plano de fundo relativo ao acontecimento. É como se a jornalista tivesse embarcado em uma máquina do tempo, capturado a essência dos meados dos anos 90 e nos levado junto nessa viagem por meio de seu encantador texto. Além disso, confidencia-nos suas experiências pessoais, o que nos torna íntimos dessa mineira de Poço Fundo (ao menos durante a leitura da obra).

É aí que devo falar sobre a escrita de Margarida. Ainda na dedicatória, a autora coloca o seguinte: "[...] As linhas e as páginas a seguir são de um relato simples, de alguém que treinou muito para ter a escrita mais popular que há, aquela entendível pelo juiz de Direito ou pelo vendedor de cartelas de um bingo qualquer; pela professora doutora aposentada e pelo frentista do posto de gasolina." (p. 10)

E ela consegue atingir esse objetivo, sem sombra de dúvida, porque sua escrita é fluida, deliciosa, daquelas que convidam à leitura. Se Hallacoc escrever uma lista de compras para ir ao mercado, eu quero lê-la. Fiquei encantado! Essa jornalista sabe como tratar a palavra! Basta acompanhar a reflexão que compartilha conosco na página 173: "Pensei que um texto bem-feito era como um crochê ou uma peça tecida no tear, onde cada fio tinha uma função exata. Uma vez entrelaçados, naquela junção perfeita, não se podia mexer porque não havia lugar para mais nenhum fiapo. Se puxasse um fio, saía desmanchando tudo." (Trecho que anotei para repassar aos meus alunos, uma vez que, do meu ponto de vista, é uma aula de escrita.)

Sendo assim, recomendo este título para qualquer vida inteligente que existir na Terra. Leia este livro, nem que seja para ler uma boa obra. No fim, creio que os ETs vieram ao nosso planeta, em 1996, justamente a Varginha, no estado de Minas Gerais, com a intenção de constatar se realmente havia inteligência no planeta azul, pois tinham ouvido falar de Margarida Hallacoc.

terça-feira, 2 de junho de 2026

"Clarão do Luar", de Aline Bischoff



Lançado em 2024 pela Editora Perse, "Clarão do Luar", escrito pela paulista Aline Bischoff, nasce da aparente calmaria e do recolhimento das madrugadas. Como a própria autora explica, a antítese entre a noite e o luar funciona como uma metáfora para a dualidade da existência humana, equilibrando a vida e a morte, o lado consciente e o inconsciente. A partir dessa premissa, Aline entrega uma poesia com forma e conteúdo admiráveis, de execução praticamente impecável. Ela explora ao máximo os recursos poéticos com muita segurança, dominando tanto as formas curtas quanto os poemas mais longos. Em vários momentos, a musicalidade e a densidade dos versos despertaram em mim lembranças muito claras do lirismo de Álvares de Azevedo, Lord Byron e Augusto dos Anjos.

O que mais chama a atenção é como a obra consegue ampliar esse tom introspectivo para temas muito variados e bem amarrados. Há excelentes poemas românticos, reflexões sobre a fé (com referências a São Francisco de Assis e ao Bom Samaritano) e um olhar muito lúcido para as questões sociais. Textos como "À margem da cidade", "Contrastes da janela" e o fortíssimo "O cognome da fome" mostram uma autora conectada à realidade, capaz de registrar até mesmo a dura fase da COVID-19. O livro ainda é repleto de homenagens a locais consagrados (como São Paulo, Rio de Janeiro, Foz do Iguaçu) e a grandes nomes das artes (como Ferreira Gullar, Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo e Pagu). Diante de tanta variedade, meus grandes destaques de leitura foram "Noturno", "Clarão do Luar", "Soneto do amor sobre a chuva", "Náufrago das emoções", "A estação da alma", "Soneto do amor incondicional", "A luz da misericórdia e o seu poder salvador", "O cognome da fome", "Contrastes da janela", "À margem da cidade", "Sentido", "O Conflito das Vozes Interiores", "Via de mão dupla", "O vicejar da era", "Estranha habitação" (que brinca com trechos de versos famosos), "Incontroversos", "Desafios do Poeta", "Temos poemas fresquinhos!", "Escrevo poesia" e "Invocação".

A leitura atenta de "Clarão do Luar" confirma o talento e a maturidade de Aline Bischoff como poeta. Ela não apenas sente a poesia, mas sabe exatamente como estruturá-la no papel, equilibrando o peso das emoções com o rigor exigido pela escrita. É um desafio encontrar um livro que consiga ser tão diverso em seus temas sem perder a sua unidade, e ela faz isso com muita competência. A autora tem pleno domínio do ofício, construindo versos que soam naturais, sem enfeites desnecessários, mas que atingem o leitor com precisão. Recomendo muito a leitura, pois trata-se de um trabalho consistente e autêntico de alguém que domina e respeita a arte da palavra.

sábado, 30 de maio de 2026

"A Peneira do Sol", de Maria Luiza Servelin




- Título: "A Peneira do Sol"
- Autora: Maria Luiza Servelin
- Editora: IEL, Tchê! (RS)
- Ano de lançamento: 1993
- N.º de páginas: 77


Com prefácio assinado por José Eduardo Degrazia, "A Peneira do Sol" revela a força lírica e a maturidade da escritora erechinense Maria Luiza Servelin. Dividido nas seções "Sortilégio", "Exercício da pena" e "Auroras e vinho", o livro nos apresenta textos poéticos que, embora construídos sobre simbologias complexas e rimas bem arquitetadas, jamais perdem a sua acessibilidade.

A poesia de Maria Luiza é, acima de tudo, sinestésica e visual. Com imagens consistentes e uma linguagem incisiva, a autora consegue o difícil feito de conversar, ao mesmo tempo, com a rotina e a retina do leitor. Suas palavras capturam não apenas a imagem do mundo, mas o cansaço e a repetição dos dias, entregando críticas fortes que funcionam como verdadeiros diagnósticos do comportamento humano moderno.

Esse olhar aguçado (e, muitas vezes, fatalista) sobre a sociedade contemporânea transparece em poemas como "Modus Vivendi" (p. 13), onde a poetisa resume de forma cirúrgica o peso da nossa relação com o trabalho e a espera:

"Carregamos os dias / vergados / pela ansiedade / da sexta / feira."

A passagem inevitável do tempo também é abordada com brilhantismo em "Ventotempo" (p. 19), através de uma metáfora tão simples quanto cortante:

"O tempo é uma vassoura / que varre o tempo / que nos varre."

Apesar dessas constatações duras, há espaço para a delicadeza e a reflexão sobre as transformações dos afetos. Em "Construção" (p. 15), a maturidade dos sentimentos ganha uma definição memorável, que se afasta do romantismo idealizado para abraçar a realidade do convívio:

"Amor é o que se forja / e modela / fogo ardente primeiro, / depois, fogo de vela."

Para além das citações destacadas, a obra reserva outras joias poéticas que merecem atenção especial do leitor, como "Aniversários" (p. 23), "2ª" (p. 24), "Tecitura" (p. 30), "Usura" (p. 33) e "Reflexão" (p. 39).

"A Peneira do Sol" é uma obra que cumpre o que seu título sugere, tendo em vista que filtra a aspereza dos dias, retendo a essência luminosa da condição humana, sem mascarar as sombras que nos cercam. Uma leitura essencial para quem busca uma poesia visível e visionária.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

"Pensamentos ao Vento", de Adriel Ferreira



- Título: "Pensamentos ao Vento"
- Autor: Adriel Ferreira
- Editora: VGraf (RS)
- Ano de lançamento: 2026
- N.º de páginas: 54


Este primeiro volume poético de autoria do jornalista, radialista, publicitário e designer gráfico gaúcho Adriel Ferreira surpreendeu-me de forma bastante positiva, pois reúne qualidades capazes de satisfazer até mesmo os leitores mais exigentes.

O livro inicia com a presença de belos aforismos, nos quais Adriel já antecipa sua capacidade de dizer muito com poucos recursos linguísticos, como em: “O tempo é um baita ladrão da felicidade!” (p. 9).

Adiante, o poeta oferece ao público uma poesia de forte apelo humano, tendo em vista que dialoga com experiências universais da vida com grande sensibilidade e perspicácia, ilustradas, por exemplo, nos versos do poema “Resolvi”: “A vida não reserva / tempo para escolher.” e “O mundo anda muito sério / pra tantos sonhos / que tenho por viver.” (p. 15).

Há poemas românticos, como se observa em “A Saudade”: “[...] a vontade / de estar junto é maior. / É que o tempo passa, / como se não passasse o tempo.” (p. 19). E há poemas reflexivos, como “Pétalas secas”: “Do segredo em guardar / as pétalas secas, / aprendemos o quanto / um dia foram belas.” (p. 40).

Nas páginas de "Pensamentos ao Vento", o leitor encontrará textos maiores ou menores em extensão, mas sempre ricos em sensibilidade e apuro técnico, porque Adriel emprega recursos poéticos diversos com notável naturalidade.

Dentre todos os títulos pertencentes a esta sublime coletânea poética, os que mais me agradaram foram: “Resolvi”, “A Saudade”, “Pés descalços”, “Reencontro”, “Pétalas secas”, “Gosto” e “Você”.

Sendo assim, recomendo o livro em questão para todas as pessoas que apreciam poesia, pois qualquer leitor encontrará em suas páginas uma experiência de leitura significativa. No entanto, a obra também se mostra bastante indicada para aqueles que não possuem o hábito de ler textos em verso, uma vez que "Pensamentos ao Vento" é composta por poemas acessíveis, delicados e profundamente comoventes.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

"Caso Varginha - 30 anos", de Marco Petit




- Título: "Caso Varginha - 30 anos"
- Autor: Marco Petit
- Editora: Editora do Conhecimento (SP)
- Ano de lançamento: 2026
- N.º de páginas: 294


Há três décadas, um OVNI avariado caiu em Minas Gerais, mais especificamente na cidade de Varginha. Rapidamente, mas sem qualquer discrição, as autoridades militares agiram para "limpar" a área, buscando eliminar toda e qualquer evidência. No entanto, não conseguiram evitar que civis testemunhassem a nave espacial e os seus tripulantes pelas redondezas.

Depois de tanto tempo estudando o caso e produzindo material a respeito, Marco Petit, um dos mais importantes e respeitados ufólogos brasileiros, lança agora este verdadeiro documento, amparado nas informações mais completas e precisas sobre as ocorrências ligadas a esse evento histórico.

A obra, bela e extensa, é repleta de fotografias e anexos que dão inegável credibilidade às palavras de Petit, proporcionando uma leitura enriquecedora para o leitor de mente aberta.

Sem dúvida, quem se propõe a ler "Caso Varginha - 30 anos" terá a sua visão de mundo transformada, uma vez que passa a perceber com mais clareza a pequenez do ser humano e a frieza inescrupulosa daqueles que detêm o poder.

Portanto, recomendo este volume àqueles que desejam saber mais sobre ufologia, especialmente a que envolve aparições brasileiras. Cabe ressaltar, sobretudo, que não se trata apenas de uma especulação do século passado, mas de um momento crucial vivido em nosso país.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

"Contos de desencontros", de Mariele Zawierucka Bressan




- Título: "Contos de desencontros"
- Autora: Mariele Zawierucka Bressan
- Editora: Frutificando (RJ)
- Ano de lançamento: 2026
- N.º de páginas: 114


Este compilado de contos escritos por Mariele Bressan é cuidadosamente elaborado. Cada texto possui personalidade própria, mas também traz elementos que o ligam aos demais.

O título do volume não poderia ter sido melhor escolhido, pois seu conteúdo aborda verdadeiros desencontros verossímeis entre os personagens, como aqueles que todos nós vivenciamos na pele ou nos outros no decorrer da vida.

Esses desencontros ocorrem, por exemplo, por conta de receios e covardias, segredos e desejos, muitas vezes observados em meio a um emaranhado de coincidências.

"Contos de desencontros" ilustra como o ser humano é um eterno insatisfeito, sempre buscando algo melhor, ou alguém melhor. De forma recorrente, procuramos defeitos nas coisas e nas pessoas para poder descartá-las de uma maneira mais justificável. Mas como é difícil olharmos para o próprio umbigo!

Portanto, em tempos de relacionamentos vazios, de cancelamentos, de comportamentos bizarros e de intensa pressão, os vinte contos aqui presentes são indicados para leitores maiores, com mais experiência, não só para que desfrutem de um livro de contos exemplar, mas também para que reflitam sobre a vida — a própria, de preferência.

sábado, 25 de abril de 2026

"Treta em Paraíso Artificial", de Mateus Kupa





- Título: "Treta em Paraíso Artificial"
- Autor: Mateus Kupa
- Editora: (publicação independente)
- Ano de lançamento: 2026
- N.º de páginas: 91


Em "Treta em Paraíso Artificial", Mateus Kupa nos transporta para um paraíso de fachada, como tantos outros que podemos encontrar no Brasil. A trama acompanha o retorno de Fênix, um traficante de armas que a prefeitura tentou liquidar. Entre estratégias de vingança e conflitos sangrentos contra o governo e a polícia, o chefe da bandidagem cruza o caminho de inocentes e culpados para retomar o comando das ruas.

A obra se destaca imediatamente pelo seu tom frenético. Mateus não desperdiça palavras; ele opta por capítulos curtos que imprimem uma velocidade cinematográfica à leitura. O autor utiliza uma crítica social ácida para desmascarar as instituições, como exemplificado na descrição grotesca e brilhante do Secretário da Educação: "O secretário da educação não era um sujeito educado. Estava mais interessado em dinheiro do que comes e bebes. Se pudesse, comeria dinheiro. Moedas, cédulas, cheques. Então, após digerir e evacuar, usaria como adubo, na esperança de gerar mais dinheiro a partir da própria merda. Afinal, sempre que fazia merda com dinheiro público, gerava mais dinheiro. Dinheiro sujo." (p. 18)

Essa crueza, aliada a um humor satírico, confere ao livro uma camada de realismo cínico que faz o leitor questionar o quanto daquela ficção já transbordou para a nossa realidade cotidiana. Entretanto, o que torna a narrativa verdadeiramente inesquecível é a exploração das máscaras  e das excentricidades humanas. Kupa transita entre cenas de violência explícita e momentos de profunda análise sobre lealdade e traição, desacomodando o leitor com quebras de expectativa constantes.

Sendo assim, "Treta em Paraíso Artificial" é uma recomendação obrigatória para quem busca uma leitura rápida, porém marcante. É um prato cheio para entusiastas de ficção policial e thrillers de ação que não abrem mão de uma narrativa inteligente e provocadora. Se você aprecia autores que não têm medo de expor realidades que a maior parte da sociedade prefere ignorar, utilizando, para isso, um estilo impactante, ora brutal, ora cômico, mas sempre instigante, esse lançamento de Mateus Kupa certamente irá agradá-lo.

sexta-feira, 17 de abril de 2026

"As neves do Kilimanjaro e outros contos", de Ernest Hemingway

O pequeno volume em questão conta com doze histórias escritas pelo norte-americano Ernest Hemingway. São elas: "As neves do Kilimanjaro", "Cinquenta mil", "A denúncia", "História natural dos mortos", "Véspera de batalha", "Em um outro país", "Os pistoleiros", "O lutador", "Mãe de bichona", "A capital do mundo", "Depois da tempestade" e "O velho da ponte".

Confesso que busquei este livro somente por conter a narrativa em destaque: "As neves do Kilimanjaro". A primeira vez que a li foi na época em que cursava Letras. E, desde então, mesmo após tantas leituras, nunca descobri outro título que tivesse um final tão memorável, tão esplendoroso; para mim, o melhor desfecho já escrito.

Os demais contos variam em qualidade. Uns chamaram mais a minha atenção do que outros, mas nenhum com o brilho daquele anteriormente citado.

Por isso, não sei se eu recomendaria o livro em si. Por outro lado, "As neves do Kilimanjaro" indico sempre que tenho a oportunidade.

sábado, 11 de abril de 2026

"Livro de Sonetos", de Vinicius de Moraes

Este belo volume publicado pela Companhia das Letras oferece ao leitor sonetos escritos pelo inigualável Vinicius de Moraes em diferentes fases da sua vida.

Aqui podem ser encontrados, por exemplo, os poemas "Soneto de separação", "Soneto do maior amor", "Soneto de fidelidade", "Não comerei da alface a verde pétala", "Poética", "Soneto do Corifeu", "O verbo no infinitivo", "Os quatro elementos" (composto por quatro textos), "Soneto da hora final", "Poética (II)", "O anjo das pernas tortas", "Soneto do gato morto", "Soneto a quatro mãos" (composto junto a Paulo Mendes Campos).

Os versos presentes neste livro comprovam o perfil dúbio do poeta popular e erudito, que conseguia ser ambos com maestria, atingindo momentos em que se mostrava capaz de ser insinuante sem ser vulgar, ou de ser rebuscado sem se revelar prepotente. Além disso, testemunham o quanto Vinicius foi ficando mais à vontade no decorrer dos anos, tanto para construir seus poemas de forma inovadora e surpreendente, quanto para explorar temáticas sem medo de arriscar.

Portanto, "Livro de Sonetos" é uma leitura essencial a qualquer leitor interessado na literatura nacional, pois o "Poetinha", como o chamavam os mais íntimos, foi um dos artistas mais geniais e importantes do Brasil.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

"O Grande Gatsby", de F. Scott Fitzgerald

Em "O Grande Gatsby", um jovem humilde chamado Nick Carraway narra suas experiências, em especial o que viveu ou soube sobre seu vizinho Jay Gatsby, um milionário misterioso e extravagante.

A história, à primeira vista trivial, serve apenas como plano de fundo para que Fitzgerald retrate aquilo que realmente deseja: o pensamento e o comportamento da época (década de 1920), analisando implicitamente os indivíduos e revelando do que são feitos na hora da verdade.

O enredo ganha destaque mais para o final, quando um evento desagradável provoca uma cadeia de acontecimentos, revelando o caráter de cada personagem.

Porém, a principal característica a ser destacada neste livro é o estilo de narração adotado por Fitzgerald, que soa simples, quase displicente, mas que envolve o leitor em sua atmosfera, instigando-o a prosseguir com a leitura.

sábado, 28 de março de 2026

"Aos lúcidos, caso ainda haja algum por aí...", de Octavio Caruso




Jailson Pedreira é um escritor experiente e desconhecido que resiste às modernidades e ignora os apelos de seu editor, Teobaldo, que insiste na produção de romances eróticos para alcançar o sucesso. Até que, de forma inesperada, Jailson acaba se tornando um fenômeno no YouTube por conta de um vídeo acidental. Então, surge um convite para uma entrevista em um podcast popular no país, uma oportunidade que pode mudar definitivamente sua carreira e seus princípios.

Através dessa premissa, "Aos lúcidos, caso ainda haja algum por aí..." revela-se como a obra mais leve e acessível, mas, simultaneamente, mais densa e desafiadora dentre as escritas pelo singular e plural Octavio Caruso (por isso mesmo, lançada apenas em formato digital). Aqui, o autor não só expõe as formas de controle do povo pelo Sistema, como também as exemplifica através de "realidades" bem delicadas. O certo é que a leitura abre a cabeça do leitor e o faz refletir sobre diversos e importantes assuntos. Eu, no caso, concordei com muitos de seus argumentos; em relação a outros, discordo veementemente, muito embora não possa afirmar com certeza quem esteja definitivamente certo — se é que alguém esteja.

Em suma, essa publicação de Octavio Caruso inicia como uma leitura ácida e divertida, mas, aos poucos, transforma-se em um verdadeiro desafio às certezas do leitor, exigindo dele persistência e abertura ao confronto de ideias. Esse aspecto, embora seja uma de suas maiores qualidades, também pode dificultar sua recepção no cenário atual, em que o debate tende a ser mais reativo do que reflexivo. Ainda assim, é justamente nessa provocação — no convite a questionar, ouvir e repensar — que reside a força da obra.

quarta-feira, 25 de março de 2026

"Está na hora de dormir", de Pietra Seráfico



- Título: "Está na hora de dormir"
- Autora: Pietra Seráfico
- Editora: Viseu (PR)
- Ano de lançamento: 2024
- N.º de páginas: 74


Esta obra poética da jovem escritora cristã e leitora crítica Pietra Seráfico demonstra toda a inconstância presente na vida dela durante a concepção do volume em questão. O livro começou a ganhar forma no começo da adolescência da autora, o que já renderia versos bem fortes, uma vez que essa fase provoca sentimentos, emoções e ideias potentes no âmago de qualquer indivíduo. No entanto, para completar o cenário, no decorrer desse processo, Pietra passou por depressão, crises de ansiedade, ataques de pânico e episódios de automutilação. E tudo isso está latente nestas páginas, bem como a fé e a força da família, que resgataram a poetisa de suas tormentas.

Em "Está na hora de dormir", há poemas de tamanho variado, nem sempre rimados, assim como algumas prosas poéticas. E, o que me surpreendeu, alguns poemas escritos em inglês e em espanhol que soam de maneira adorável. Aqui, encontramos versos impactantes, como: "onde meu coração está / é o meu lar", "porque fingir é mais fácil do que explicar", "mas para evoluir / é preciso batalhar", "é desgastante lutar / contra forças que você / não consegue enxergar", "pessoas morrem todos os dias / a cada segundo / quando levantam da cama / e não veem nenhuma cor".

De todos os títulos presentes no livro, os meus favoritos foram: "Sou do mundo", "Tristeza", "Mudança", "Futuro (?)", "Calling who?", "Meses amarelos", "Freedom", "Bookpower", "Ojos nuestros", "Está na hora de dormir", alguns mais ternos, outros mais pesados, mas todos dispostos a mexer com o leitor, característica fundamental na poesia.

Um dos aspectos mais interessantes é ver como esse gênero literário ajudou a autora ao longo de suas dificuldades, algo que ela mesma confessa na abertura de "Está na hora de dormir". Confesso que a escrita poética também sempre me auxiliou a organizar sentimentos, pensamentos, emoções, situações, e considero uma prática que todos deveriam tentar. Assim, certamente teríamos uma sociedade mais humana.

Além disso, percebendo como a Pietra se encontra atualmente, vejo que ela passou por uma transformação de Fênix, saindo das cinzas para brilhar cada vez mais. E o livro escancara isso, tendo em vista que se apresenta melhor a cada página virada. Porque, enquanto virava as páginas do livro que estava escrevendo, a poetisa virava, também, as páginas da sua história.

Portanto, "Está na hora de dormir" não só é uma leitura que demonstra todo o poder e a importância da poesia e da fé, mas também revela a capacidade de cada um de nós encontrarmos soluções para os nossos problemas, sejam eles quais forem.

sexta-feira, 20 de março de 2026

"Machado de Assis: do folhetim ao livro", de Ana Cláudia Suriani da Silva

Ana Cláudia Suriani da Silva presenteia os leitores com um livro profundamente interessante — mais até do que eu esperava, para falar a verdade.

A obra tem como foco principal os títulos escritos por Machado de Assis que primeiramente surgiram em folhetins, para depois serem adaptados para o romance.

E o centro desse estudo é a passagem do meu favorito pessoal "Quincas Borba" das páginas da revista internacional de moda e entretenimento "A Estação", para o formato em volume único.

Mas Ana vai muito além! Explora os significados implícitos em "Quincas Borba"; de que forma ele se relacionava com o conteúdo da revista; como se deu o processo de transição das outras obras machadianas; o contexto de publicação literária e dos folhetins no Brasil no final do século XIX; dentre outros tópicos instigantes.

Sendo assim, recomendo o título em questão para quem gosta de Machado de Assis, de Literatura Clássica, de História, pois se trata de um trabalho empolgante, minucioso e que ensina demais.

sexta-feira, 13 de março de 2026

"Melhores poemas", de Manuel Bandeira

Em "Melhores poemas", o leitor não só tem acesso aos textos em verso mais notáveis escritos por Manuel Bandeira, como também pode ler alguns dos exemplares mais salientáveis da poesia brasileira. Pois a obra de Bandeira é realmente diferenciada.

Neste volume, que apresenta o gaúcho André Seffrin como curador, os poemas são organizados de acordo com os seguintes subtítulos: "A Cinza das Horas", "Carnaval", "O Ritmo Dissoluto", "Libertinagem", "Estrela da Manhã", "Lira dos Cinquent'anos", "Belo Belo", "Opus 10", "Estrela da Tarde" e "Mafuá do Malungo".

E nos proporciona, por exemplo, os lapidados diamantes "Desencanto", "Versos Escritos N'Água", "Os Sapos", "Arlequinada", "Debussy", "A Dama Branca", "Os Sinos", "Quando perderes o gosto humilde da tristeza...", "A Estrada", "Meninos Carvoeiros", "Gesso", "Noite Morta", "Na Rua do Sabão", "Balõezinhos", "Não sei dançar", "Mulheres", "Pensão Familiar", "O Cacto", "Pneumotórax", "Poética", "Porquinho-da-índia", "Evocação do Recife", "Poema tirado de uma notícia de jornal", "Teresa", "O Major", "Andorinha", "Profundamente", "Irene no Céu", "Vou-me embora pra Pasárgada", "Poema de Finados", "O Último Poema", "Estrela da Manhã", "Poema do Beco", "Balada das três mulheres do sabonete Araxá", "A Filha do Rei", "Trem de Ferro", "Tragédia Brasileira", "Conto Cruel", "Maçã", "A Mente Absoluta", "A Estrela", "Canção do Vento e da Minha Vida", "Rondó do Capitão", "Testamento", "Velha Chácara", "A Mário de Andrade Ausente", "Neologismo", "A Realidade e a Imagem", "Céu", "O Bicho", "Nova Poética", "Arte de Amar", "Cotovia", "Tema e Variações", "Vozes na Noite", "Visita", "Noturno do Morro de Encanto", "Os Nomes", "Consoada", "Lua Nova", "Ad Instar Delphini", "Antônia", "Mascarada", "Sonho Sonhado", "Poema do mais triste maio" e "Antologia".

O livro contém, nesta ordem: uma introdução redigida por André Seffrin; os poemas selecionados de Bandeira; uma concisa biografia do autor; uma completíssima bibliografia; as referências consultadas pelo antologista; e alguns depoimentos relevantes sobre o poeta.

Impecável!