sexta-feira, 17 de abril de 2026

"As neves do Kilimanjaro e outros contos", de Ernest Hemingway

O pequeno volume em questão conta com doze histórias escritas pelo norte-americano Ernest Hemingway. São elas: "As neves do Kilimanjaro", "Cinquenta mil", "A denúncia", "História natural dos mortos", "Véspera de batalha", "Em um outro país", "Os pistoleiros", "O lutador", "Mãe de bichona", "A capital do mundo", "Depois da tempestade" e "O velho da ponte".

Confesso que busquei este livro somente por conter a narrativa em destaque: "As neves do Kilimanjaro". A primeira vez que a li foi na época em que cursava Letras. E, desde então, mesmo após tantas leituras, nunca descobri outro título que tivesse um final tão memorável, tão esplendoroso; para mim, o melhor desfecho já escrito.

Os demais contos variam em qualidade. Uns chamaram mais a minha atenção do que outros, mas nenhum com o brilho daquele anteriormente citado.

Por isso, não sei se eu recomendaria o livro em si. Por outro lado, "As neves do Kilimanjaro" indico sempre que tenho a oportunidade.

sábado, 11 de abril de 2026

"Livro de Sonetos", de Vinicius de Moraes

Este belo volume publicado pela Companhia das Letras oferece ao leitor sonetos escritos pelo inigualável Vinicius de Moraes em diferentes fases da sua vida.

Aqui podem ser encontrados, por exemplo, os poemas "Soneto de separação", "Soneto do maior amor", "Soneto de fidelidade", "Não comerei da alface a verde pétala", "Poética", "Soneto do Corifeu", "O verbo no infinitivo", "Os quatro elementos" (composto por quatro textos), "Soneto da hora final", "Poética (II)", "O anjo das pernas tortas", "Soneto do gato morto", "Soneto a quatro mãos" (composto junto a Paulo Mendes Campos).

Os versos presentes neste livro comprovam o perfil dúbio do poeta popular e erudito, que conseguia ser ambos com maestria, atingindo momentos em que se mostrava capaz de ser insinuante sem ser vulgar, ou de ser rebuscado sem se revelar prepotente. Além disso, testemunham o quanto Vinicius foi ficando mais à vontade no decorrer dos anos, tanto para construir seus poemas de forma inovadora e surpreendente, quanto para explorar temáticas sem medo de arriscar.

Portanto, "Livro de Sonetos" é uma leitura essencial a qualquer leitor interessado na literatura nacional, pois o "Poetinha", como o chamavam os mais íntimos, foi um dos artistas mais geniais e importantes do Brasil.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

"O Grande Gatsby", de F. Scott Fitzgerald

Em "O Grande Gatsby", um jovem humilde chamado Nick Carraway narra suas experiências, em especial o que viveu ou soube sobre seu vizinho Jay Gatsby, um milionário misterioso e extravagante.

A história, à primeira vista trivial, serve apenas como plano de fundo para que Fitzgerald retrate aquilo que realmente deseja: o pensamento e o comportamento da época (década de 1920), analisando implicitamente os indivíduos e revelando do que são feitos na hora da verdade.

O enredo ganha destaque mais para o final, quando um evento desagradável provoca uma cadeia de acontecimentos, revelando o caráter de cada personagem.

Porém, a principal característica a ser destacada neste livro é o estilo de narração adotado por Fitzgerald, que soa simples, quase displicente, mas que envolve o leitor em sua atmosfera, instigando-o a prosseguir com a leitura.

sábado, 28 de março de 2026

"Aos lúcidos, caso ainda haja algum por aí...", de Octavio Caruso




Jailson Pedreira é um escritor experiente e desconhecido que resiste às modernidades e ignora os apelos de seu editor, Teobaldo, que insiste na produção de romances eróticos para alcançar o sucesso. Até que, de forma inesperada, Jailson acaba se tornando um fenômeno no YouTube por conta de um vídeo acidental. Então, surge um convite para uma entrevista em um podcast popular no país, uma oportunidade que pode mudar definitivamente sua carreira e seus princípios.

Através dessa premissa, "Aos lúcidos, caso ainda haja algum por aí..." revela-se como a obra mais leve e acessível, mas, simultaneamente, mais densa e desafiadora dentre as escritas pelo singular e plural Octavio Caruso (por isso mesmo, lançada apenas em formato digital). Aqui, o autor não só expõe as formas de controle do povo pelo Sistema, como também as exemplifica através de "realidades" bem delicadas. O certo é que a leitura abre a cabeça do leitor e o faz refletir sobre diversos e importantes assuntos. Eu, no caso, concordei com muitos de seus argumentos; em relação a outros, discordo veementemente, muito embora não possa afirmar com certeza quem esteja definitivamente certo — se é que alguém esteja.

Em suma, essa publicação de Octavio Caruso inicia como uma leitura ácida e divertida, mas, aos poucos, transforma-se em um verdadeiro desafio às certezas do leitor, exigindo dele persistência e abertura ao confronto de ideias. Esse aspecto, embora seja uma de suas maiores qualidades, também pode dificultar sua recepção no cenário atual, em que o debate tende a ser mais reativo do que reflexivo. Ainda assim, é justamente nessa provocação — no convite a questionar, ouvir e repensar — que reside a força da obra.

quarta-feira, 25 de março de 2026

"Está na hora de dormir", de Pietra Seráfico



- Título: "Está na hora de dormir"
- Autora: Pietra Seráfico
- Editora: Viseu (PR)
- Ano de lançamento: 2024
- N.º de páginas: 74


Esta obra poética da jovem escritora cristã e leitora crítica Pietra Seráfico demonstra toda a inconstância presente na vida dela durante a concepção do volume em questão. O livro começou a ganhar forma no começo da adolescência da autora, o que já renderia versos bem fortes, uma vez que essa fase provoca sentimentos, emoções e ideias potentes no âmago de qualquer indivíduo. No entanto, para completar o cenário, no decorrer desse processo, Pietra passou por depressão, crises de ansiedade, ataques de pânico e episódios de automutilação. E tudo isso está latente nestas páginas, bem como a fé e a força da família, que resgataram a poetisa de suas tormentas.

Em "Está na hora de dormir", há poemas de tamanho variado, nem sempre rimados, assim como algumas prosas poéticas. E, o que me surpreendeu, alguns poemas escritos em inglês e em espanhol que soam de maneira adorável. Aqui, encontramos versos impactantes, como: "onde meu coração está / é o meu lar", "porque fingir é mais fácil do que explicar", "mas para evoluir / é preciso batalhar", "é desgastante lutar / contra forças que você / não consegue enxergar", "pessoas morrem todos os dias / a cada segundo / quando levantam da cama / e não veem nenhuma cor".

De todos os títulos presentes no livro, os meus favoritos foram: "Sou do mundo", "Tristeza", "Mudança", "Futuro (?)", "Calling who?", "Meses amarelos", "Freedom", "Bookpower", "Ojos nuestros", "Está na hora de dormir", alguns mais ternos, outros mais pesados, mas todos dispostos a mexer com o leitor, característica fundamental na poesia.

Um dos aspectos mais interessantes é ver como esse gênero literário ajudou a autora ao longo de suas dificuldades, algo que ela mesma confessa na abertura de "Está na hora de dormir". Confesso que a escrita poética também sempre me auxiliou a organizar sentimentos, pensamentos, emoções, situações, e considero uma prática que todos deveriam tentar. Assim, certamente teríamos uma sociedade mais humana.

Além disso, percebendo como a Pietra se encontra atualmente, vejo que ela passou por uma transformação de Fênix, saindo das cinzas para brilhar cada vez mais. E o livro escancara isso, tendo em vista que se apresenta melhor a cada página virada. Porque, enquanto virava as páginas do livro que estava escrevendo, a poetisa virava, também, as páginas da sua história.

Portanto, "Está na hora de dormir" não só é uma leitura que demonstra todo o poder e a importância da poesia e da fé, mas também revela a capacidade de cada um de nós encontrarmos soluções para os nossos problemas, sejam eles quais forem.

sexta-feira, 20 de março de 2026

"Machado de Assis: do folhetim ao livro", de Ana Cláudia Suriani da Silva

Ana Cláudia Suriani da Silva presenteia os leitores com um livro profundamente interessante — mais até do que eu esperava, para falar a verdade.

A obra tem como foco principal os títulos escritos por Machado de Assis que primeiramente surgiram em folhetins, para depois serem adaptados para o romance.

E o centro desse estudo é a passagem do meu favorito pessoal "Quincas Borba" das páginas da revista internacional de moda e entretenimento "A Estação", para o formato em volume único.

Mas Ana vai muito além! Explora os significados implícitos em "Quincas Borba"; de que forma ele se relacionava com o conteúdo da revista; como se deu o processo de transição das outras obras machadianas; o contexto de publicação literária e dos folhetins no Brasil no final do século XIX; dentre outros tópicos instigantes.

Sendo assim, recomendo o título em questão para quem gosta de Machado de Assis, de Literatura Clássica, de História, pois se trata de um trabalho empolgante, minucioso e que ensina demais.

sexta-feira, 13 de março de 2026

"Melhores poemas", de Manuel Bandeira

Em "Melhores poemas", o leitor não só tem acesso aos textos em verso mais notáveis escritos por Manuel Bandeira, como também pode ler alguns dos exemplares mais salientáveis da poesia brasileira. Pois a obra de Bandeira é realmente diferenciada.

Neste volume, que apresenta o gaúcho André Seffrin como curador, os poemas são organizados de acordo com os seguintes subtítulos: "A Cinza das Horas", "Carnaval", "O Ritmo Dissoluto", "Libertinagem", "Estrela da Manhã", "Lira dos Cinquent'anos", "Belo Belo", "Opus 10", "Estrela da Tarde" e "Mafuá do Malungo".

E nos proporciona, por exemplo, os lapidados diamantes "Desencanto", "Versos Escritos N'Água", "Os Sapos", "Arlequinada", "Debussy", "A Dama Branca", "Os Sinos", "Quando perderes o gosto humilde da tristeza...", "A Estrada", "Meninos Carvoeiros", "Gesso", "Noite Morta", "Na Rua do Sabão", "Balõezinhos", "Não sei dançar", "Mulheres", "Pensão Familiar", "O Cacto", "Pneumotórax", "Poética", "Porquinho-da-índia", "Evocação do Recife", "Poema tirado de uma notícia de jornal", "Teresa", "O Major", "Andorinha", "Profundamente", "Irene no Céu", "Vou-me embora pra Pasárgada", "Poema de Finados", "O Último Poema", "Estrela da Manhã", "Poema do Beco", "Balada das três mulheres do sabonete Araxá", "A Filha do Rei", "Trem de Ferro", "Tragédia Brasileira", "Conto Cruel", "Maçã", "A Mente Absoluta", "A Estrela", "Canção do Vento e da Minha Vida", "Rondó do Capitão", "Testamento", "Velha Chácara", "A Mário de Andrade Ausente", "Neologismo", "A Realidade e a Imagem", "Céu", "O Bicho", "Nova Poética", "Arte de Amar", "Cotovia", "Tema e Variações", "Vozes na Noite", "Visita", "Noturno do Morro de Encanto", "Os Nomes", "Consoada", "Lua Nova", "Ad Instar Delphini", "Antônia", "Mascarada", "Sonho Sonhado", "Poema do mais triste maio" e "Antologia".

O livro contém, nesta ordem: uma introdução redigida por André Seffrin; os poemas selecionados de Bandeira; uma concisa biografia do autor; uma completíssima bibliografia; as referências consultadas pelo antologista; e alguns depoimentos relevantes sobre o poeta.

Impecável!

sexta-feira, 6 de março de 2026

"Biofobia", de Santiago Nazarian

André, um roqueiro decadente de meia-idade, é filho de uma escritora relativamente bem-sucedida que acaba de se suicidar. Ela morava em uma casa extravagante no meio do mato, e ele vai até lá para fazer os preparativos finais.

Contado de forma inteligente por um narrador onisciente e utilizando de modo muito eficaz o discurso indireto livre, "Biofobia" é um dos livros mais notáveis do talentoso escritor paulista Santiago Nazarian.

Durante a leitura, o leitor nunca sabe o que é acontecimento, o que é delírio ou o que é simplesmente um uso interessante de figuras de linguagem, o que proporciona uma experiência estimulante e divertida.

O título "Biofobia", por sua vez, foi planejado de maneira perspicaz, pois pode significar "medo da vida", "medo da natureza", "medo da própria vida", e isso tudo cabe na história.

Sendo assim, esse thriller de Santiago Nazarian é uma obra altamente recomendável, principalmente para quem tem alguma familiaridade com o universo alternativo e é praticamente desprovido de preconceitos.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

"A reinvenção da metáfora: as bodas de Rogério Salgado", organizado por Luiz Otávio Oliani




- Título: "A reinvenção da metáfora: as bodas de Rogério Salgado"
- Autor: Luiz Otávio Oliani
- Editora: Ventura (RJ)
- Ano de lançamento: 2025
- N.º de páginas: 104


Que linda ficou esta obra criada para homenagear Rogério Salgado, poeta mineiro digno de qualquer honraria!

Há cinquenta anos lapidando ideias, ideais, sentimentos e emoções em forma de verso, o autor, cuja gentileza se estende tanto quanto seu notável talento, sempre foi um agitador cultural que não se limita a interesses pessoais. Rogério, muito pelo contrário, busca enaltecer diferentes artistas e iniciativas das mais variadas, de modo a engrandecer, sobretudo, a cultura nacional.

Ao ler esse elegante volume organizado pelo professor e escritor Luiz Otávio Oliani, percebemos não apenas que a arte poética é a força motriz do poeta em questão, mas também que ele nunca esteve alheio ao que ocorria ao seu redor. Rogério fala sobre nossos dramas e alegrias, alguns simultaneamente particulares e coletivos, como os poemas que abordam ditaduras latino-americanas, utilizando constantemente os recursos poéticos mais explorados em cada período.

A escrita de Salgado é criativa, instigante, acessível e, ao mesmo tempo, profunda, características que revelam um escritor que se esforça para inserir a poesia no cotidiano do povo. Daqui, os poemas que mais me maravilharam foram "Poema consciente", "O que cabe no poema", "Inocência na praia", "Sonho de uma nova Vila Rica", "Brado ou canção de liberdade ao povo chileno", "Parafraseando Fernando Pessoa", "Poema inocente para ser recitado", "Definição", "Poema sacaninha", "Jardim de infância", "Fato consumado", "Solo solene para Fernanda Nicácio", "Acorde em dó menor", "Tempo", "Epitáfio" e "Valores humanos".

O livro em si é muito bem organizado: inicia com um prefácio extremamente interessante escrito por Luiz Otávio, que também selecionou os textos e os dividiu nas seções "No corpo da palavra", "Mundo social", "Amor e prazer", "Memórias e despedidas" e "Outros".

Por tudo isso, "A reinvenção da metáfora" é uma excelente oportunidade para conhecer ou revisitar a impressionante obra de Rogério Salgado, por meio de uma publicação pensada e executada com esmero.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

"O Mundo de Sofia", de Jostein Gaarder

Em "O Mundo de Sofia", o norueguês Jostein Gaarder nos apresenta uma adolescente que, ao receber misteriosas cartas com perguntas filosóficas, ingressa sem querer em um curso bem diferente e exclusivo. 

A narrativa conduz o leitor pelos principais momentos da história da Filosofia, sempre em tom dialogado e acessível, o que torna a proposta criativa e convidativa. O autor consegue prender a atenção dos leitores com habilidade, mas em alguns trechos o ritmo se torna cansativo, especialmente quando se detém demais em certos períodos e deixa outros praticamente de lado. Suas escolhas são curiosas, já que, por exemplo, Charles Darwin e Sigmund Freud recebem grande destaque, o que faz o livro, por vezes, parecer mais uma introdução às Ciências do que à Filosofia. Ainda assim, há momentos brilhantes em que Gaarder amplia a discussão e questiona a própria natureza da vida e do universo, provocando reflexões sobre o que está por trás de tudo. 

Um ponto delicado é a cena em que há uma sexualização excessiva de personagens adolescentes, causando certo estranhamento. Por outro lado, um aspecto a ser ressaltado é a abordagem que é feita, já naquela época, a respeito de temas de inegável importância atualmente, como o uso da Inteligência Artificial, a dependência tecnológica e os danos ao meio ambiente.

Apesar dessas ressalvas, trata-se de uma obra extremamente recomendável para estudantes e professores de Filosofia, tanto como ferramenta didática quanto como material de apoio, porque combina diversão, clareza e profundidade em uma narrativa que desperta a curiosidade filosófica em leitores de qualquer idade.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

"Asas de terra e sangue", de Ivy Menon





- Título: "Asas de terra e sangue"
- Autora: Ivy Menon
- Editora: Arribaçã (PB)
- Ano de lançamento: 2021
- N.º de páginas: 242


Este livro chegou até mim por meio de sua incrivelmente querida autora. Já fascinado com o pouco que sabia de sua trajetória, recebi dela uma incumbência direta: "Leia este livro!". Comecei pelo e-book que me disponibilizou, mas as histórias narradas em "Asas de terra e sangue" (todas reais, contadas com linguagem precisa e poética) encantaram-me tanto que precisei de uma edição física. E, pelo destino, acabei encontrando o último exemplar impresso ainda existente, um que nem a própria autora sabia que restava.

Grande parte das situações hipnóticas aqui apresentadas aconteceram na infância de Ivy. Ela mesma já havia me confidenciado em entrevista: "Por ter sido boia-fria até os vinte anos, cresci distante dos livros. Aos doze, fui trabalhar como doméstica na casa da minha professora do quarto ano primário. Foi ela quem me apresentou e me emprestou 'Reinações de Narizinho', de Monteiro Lobato." Há também episódios de sua juventude, alguns profundamente comoventes, além de fatos recentes, vividos em sua fase atual.

O livro abre espaço para rir, chorar, comover-se e enternecer-se. Qualquer leitor chegará à mesma conclusão: Ivy Menon possui uma história de vida extraordinária, digna de ocupar páginas de livros — e até de ser retratada em outros suportes, como o cinema. Sua narrativa é sensível, com uso estudado das palavras e construções frasais, conferindo às crônicas um valor literário raro. Percebe-se, ainda, a visão poética da criança, a inocência de quem enxerga o mundo de forma diferente.

Sem erro, afirmo que "Asas de terra e sangue" é um dos melhores e mais marcantes títulos que já tive a oportunidade de devorar ao longo da minha monótona existência. A forte, destemida, brilhante e profundamente humana Ivy Menon me fez um favor imenso ao recomendar sua obra. E o destino, generoso, me concedeu a gentileza de permitir esse encontro com uma pessoa tão inspiradora.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

"As atribulações de uma caixa de supermercado", de Anna Sam

A autora francesa Anna Sam, graduada em Literatura, trabalhou durante oito anos como caixa de supermercado. Baseada nessa experiência e apropriando-se de seu perceptível talento para a escrita, bem como de sua perspicácia para ler as pessoas e o mundo, ela criou, inicialmente, um blog no qual relatava tudo aquilo que considerava mais curioso e interessante enquanto exercia sua atividade profissional. Esse conteúdo, pela relevância e sucesso, transformou-se neste livro.

Confesso que escolhi esta obra porque desejava, por esses dias, uma leitura mais leve. Mas, muito além de uma distração, encontrei em suas páginas valiosas lições sociológicas, filosóficas e psicológicas.

A escrita de Anna Sam é ácida e divertida. Ela consegue transmitir, com extrema ironia, as situações insólitas e humilhantes vividas por uma caixa, em um tom tão frenético quanto as tarefas desempenhadas por esses profissionais. Ao mesmo tempo, soube retratar, de maneira respeitosa e poética, ocasiões emocionantes, como o seu último dia exercendo a função.

Concluo, então, que Anna Sam, com este título, não só presta um serviço significativo à sociedade — ao nos instigar a realmente enxergar esses trabalhadores essenciais —, mas também demonstra uma capacidade literária inegável.

Adorei ler "As atribulações de uma caixa de supermercado"! E, sim, fui conferir, e o blog ainda existe: caissierenofutur.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

"Melhores poemas", de Cora Coralina

Lançada pela Editora Global em edição de bolso, esta antologia oferece aos leitores um panorama bem completo a respeito da obra e da vida de Cora Coralina.

O volume tem início com uma detalhada apresentação escrita pela poetisa, ensaísta e crítica literária Darcy França Denófrio, que foi também a responsável pela seleção dos poemas de Cora.

Aqui, Darcy organiza os textos competentemente escolhidos de acordo com os seguintes subtítulos: "Nos reinos de Goiás", "Canto de Aninha", "Criança no meu tempo", "Paraíso perdido", "Entre pedras e flores", "Canto solitário" e "Celebrações".

Na sequência, a coletânea apresenta uma rica biografia sobre Cora, assim como a bibliografia completa, contemplando a produção dessa inigualável poetisa goiana.

Lendo este livro, percebe-se que, desde criança, Cora, a Aninha, era diferente, mais sensível e, por isso, incompreendida, cobrada demais, rejeitada, mas também, por conta disso, tornou-se (ou sempre foi), inevitavelmente, poetisa.

Tendo estudado pouco tempo no ensino regular, Cora Coralina até hoje é um fenômeno; escritora de uma poética diferenciada, humana, cujos versos retratam o passado, lamentam as crueldades, celebram as belezas simples, valorizam as melhorias do presente e projetam o futuro.

A autora transpira poesia, não força nada. Para ela, compor lindos poemas é tão natural quanto fazer uma lista de mercado.

Cora Coralina faleceu ainda em 1985, porém deixou um legado imortal.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

"Penso, logo ensino", de Gabriel Perissé

"Penso, logo ensino", de Gabriel Perissé, é um volume pequeno em tamanho, mas enorme em bagagem. Trata-se de uma leitura leve, porém repleta de ensinamentos preciosos, não só para professores.

Inicialmente, o livro traz um valioso texto introdutório escrito por Perissé, no qual o autor tece importantes considerações sobre o ensino e a própria obra. Em seguida, discorre a respeito de trinta palavras-chave, uma por capítulo, que, segundo ele, ajudariam a entender o pensamento humano. São elas, por exemplo, "Aprendizado", "Avaliação", "Ciência", "Discernimento", "Dúvida", "Escola", "Filosofia", "Inteligência", "Linguagem", "Memória". Por fim, faz o fechamento de sua argumentação, afirmando que os mestres não podem ter preguiça de exercitar o pensamento nem receio de compartilhar os seus saberes com os estudantes, por não julgá-los aptos ou merecedores. Afinal, eles podem nos surpreender de várias maneiras.

Portanto, essa publicação, de agradável desfrute, carrega consigo uma pesada carga de conhecimento, cujo aproveitamento se mostra fundamental a todos os estudiosos, não apenas aos da Educação.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

"O Jardim das Oliveiras", de Adélia Prado

A obra poética "O Jardim das Oliveiras" foi lançada em 2025 pela mineira Adélia Prado e coincide com a celebração dos seus 90 anos.

Os inúmeros poemas apresentados neste volume são organizados nas seções "Esta memória forjada em pó de carvão e lágrimas", "As santas vulgaridades têm com certeza um anjo guardião", "Muito cuidado com o recém-nascido" e "Se alguém gritasse, pediria vassoura ou faca para a sangria", títulos que antecipam o conteúdo dos textos, seja em termos de linguagem, seja em relação às provocações propostas pela autora.

Os assuntos abordados podem ser identificados pelas dicotomias: Sagrado e Profano; Vida cotidiana e Vida espiritual; Angústias existenciais e Transcendência; Vida e Morte; Poesia e Espiritualidade; Dores e Graças (associadas ao divino); Tempo e Memória.

Como costuma ser observado no decorrer de sua bibliografia, aqui Adélia não busca rimas nem ritmo triviais, apenas, com o uso do vocabulário e das sentenças comuns, reinventar significados, percepções, conceitos, preconceitos, estereótipos, com muita riqueza e profundidade.

Por fim, cabe acrescentar que o intenso e instigante livro "O Jardim das Oliveiras" comprova que a poetisa em questão, com nove décadas de história, ainda lança trabalhos vigorosos, modernos e que tiram o público da zona de conforto, reafirmando que Adélia Prado merece todos os prêmios e elogios que recebe.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

"Hoje é meu aniversário", de Luciano Buniak




- Título: "Hoje é meu aniversário"
- Autor: Luciano Buniak
- Editora: Labrador (SP)
- Ano de lançamento: 2024
- N.º de páginas: 64


Cheguei a este livro por acaso. Estava procurando obras poéticas interessantes e acessíveis em uma loja virtual e me deparei com "Hoje é meu aniversário". Desde o primeiro contato com o título, senti que esse volume poderia me entregar tudo ou nada.

O primeiro impacto aconteceu no prefácio, no qual o autor afirma: "não sou poeta e este não é um livro de poemas". Na mesma seção, ele acrescenta que o livro é fruto de uma viagem que fez a Paris, em 2022, e dos estranhamentos que vivenciou por lá. A bem dizer, seus versos, surgidos já no meio de sua estadia na Cidade Luz, trazem suas impressões, sensações e sentimentos. Em suma, é o olhar poético não de um turista que vai a algum local badalado para ostentar o seu feito, mas de um ser humano que mudou temporariamente o seu contexto para experimentar e realmente ver se encontrava algo ou alguém diferente.

Nessa obra poética que foi uma surpresa para mim — e para o próprio escritor, que nunca havia planejado a sua concepção —, o leitor depara-se com versos avassaladores, como: "Em poucos dias perceberei que esta viagem / não será como imaginada, / que não serei bem-vindo, / que não serei benquisto aqui / nem ali, nem em lugar algum", "O sol forte do fim do verão / acentua a doce embriaguez de cada um", "Se ninguém mudasse de trajetória, haveria um choque / Nada mudou, houve um choque / [...] Um choque que se repetiu muitas vezes", "E minha vida? Congelada, pausada / À espera do retorno ao normal / O normal que nunca funcionou".

"Hoje é meu aniversário" soa como um verdadeiro diário de viagem, pois os poemas são organizados como tal. Mas é uma viagem pela vida, por si mesmo, pelo outro e também por Paris, sua gente, seus costumes e suas ruas. Fica claro que os textos trazem as percepções profundas do poeta numa lógica temporal (ao menos é o que a sequência dá a entender). Essa ordem é entremeada por provocantes gravuras feitas pelo próprio Luciano, que diz não ser poeta, não ser artista, mas que aqui surge superior a muitos que se nomeiam como tais.

Enfim, adorei ler esse pequeno volume poético, que sinceramente me transportou para a Paris de Luciano Buniak e suas viagens. É um projeto despretensioso que consegue ser uma construção poética consolidada, oferecendo ao público uma arte contemporânea inteligente e de reconhecível valor. Seu autor não subestima os leitores, embora nunca soe presunçoso — nem por ter morado alguns meses na França, nem por ter escrito poesia da melhor qualidade.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

"A Religião na MPB", de Juscelino Filho





- Título: "A Religião na MPB"
- Autor: Juscelino Filho
- Editora: Do Autor (SP)
- Ano de lançamento: 2025
- N.º de páginas: 194


No livro independente "A Religião na MPB", o artista plural Juscelino Filho analisa como a religião, ou melhor, as diversas religiões são abordadas na música popular brasileira. Para isso, explora as composições: "Gita", de Raul Seixas; "As caravanas", de Chico Buarque; "Pagu", de Rita Lee e Zélia Duncan; "Cajuína", de Caetano Veloso; "Canto de Ossanha", de Vinicius de Moraes; "Divina comédia humana", de Belchior; "Metal contra as nuvens", de Renato Russo; e "Se eu quiser falar com Deus", de Gilberto Gil.

O autor dedica um longo capítulo a cada uma dessas letras de música, pois não só as investiga, mas compartilha um verdadeiro estudo sobre essas pérolas do nosso cancioneiro. Ele traz uma contextualização bem aprofundada a respeito de tudo o que pode ter influenciado na concepção de cada obra. Não é por nada que, por exemplo, ao final do livro, há duas seções de referências utilizadas, uma para a bibliografia, outra para a discografia. E, de posse desse arcabouço teórico, relaciona esse material com os modos de expressão presentes nas composições.

Juscelino executa essas tarefas de forma tão envolvente que quaisquer leitores, mesmo aqueles que não apreciam os estilos musicais em questão, sentem-se impelidos a conhecer as canções elencadas e a, no mínimo, respeitá-las enquanto criações artísticas de enorme valor.

Além disso, como é um livro de estreia, seu escritor teve a sensibilidade de, no início, apresentar-se aos leitores e contar um pouco sobre a sua trajetória. Em seguida, expõe uma introdução convidativa ao tema proposto, antes de começar o seu desenvolvimento. Ou seja, apesar de ser uma autopublicação, que poderia trazer falhas e limitações, o criador do querido "Musicália" tomou cuidado para que tudo saísse perfeito, coeso e coerente com o que inteligentemente planejou. Se há brechas para críticas negativas, a mim passaram despercebidas.

Portanto, "A Religião na MPB" é uma leitura muito interessante e relevante, inclusive para instigar a valorização do que se elabora no Brasil. Também, por todas as suas qualidades, como o apuro do conteúdo levantado, não apenas correspondeu às minhas expectativas, como as ultrapassou com brilho. Ela é indicada para quem sinceramente gosta de música, ou, até mesmo, de arte e cultura em geral, e é despido de preconceitos tolos — o que não deixa de ser um pleonasmo, porque todo preconceito é tolo.


- Cantor, compositor, produtor, ator, dramaturgo e crítico musical, Juscelino Filho é o criador do canal no YouTube "Musicália", cujo conteúdo é dedicado à valorização da cultura, em especial da música brasileira, produzida no passado e no presente.


(Escrito em colaboração com Adilson Junior Pilotto.)

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

"O passarinho do contra: uma biografia de Mario Quintana", de Gustavo Grandinetti

Fiquei encantado por esta obra de Gustavo Grandinetti. De forma respeitosa, o autor nos apresenta uma narrativa viva sobre a história do maior poeta gaúcho. Quem conheceu Quintana ficará ainda mais apaixonado por essa figura inigualável. Quem não o conheceu ficará impressionado com o que irá encontrar nas páginas deste volume.

Grandinetti fez questão de conversar com as pessoas mais próximas do poeta, como Armindo Trevisan e Dulce Helfer, por exemplo, estratégia que proporciona um tom intimista a esta biografia. Além disso, mesmo sendo carioca, Gustavo parece extremamente gaúcho, pois retrata com fidelidade a nossa cultura, a nossa história, o nosso ambiente.

"O passarinho do contra" não entrega aos leitores muitas imagens. Porém, revela da melhor maneira possível quem era Mario Quintana, o que pensava, como se comportava, seu modus operandi. Também, esmiúça, de forma lindamente organizada, as publicações feitas pelo escritor, o que, de certo modo, ocasiona um problema ao público, tendo em vista que essa metodologia aguça demais a curiosidade para conhecer (ou revisitar) tudo o que Quintana escreveu.

Por isso, considero o título em questão uma leitura indispensável a qualquer indivíduo, pois sinto que todos temos a obrigação de conhecer pelo menos um pouco sobre um dos brasileiros mais singulares e preciosos que já existiram.