sábado, 30 de maio de 2026

"A Peneira do Sol", de Maria Luiza Servelin




- Título: "A Peneira do Sol"
- Autora: Maria Luiza Servelin
- Editora: IEL, Tchê! (RS)
- Ano de lançamento: 1993
- N.º de páginas: 77


Com prefácio assinado por José Eduardo Degrazia, "A Peneira do Sol" revela a força lírica e a maturidade da escritora erechinense Maria Luiza Servelin. Dividido nas seções "Sortilégio", "Exercício da pena" e "Auroras e vinho", o livro nos apresenta textos poéticos que, embora construídos sobre simbologias complexas e rimas bem arquitetadas, jamais perdem a sua acessibilidade.

A poesia de Maria Luiza é, acima de tudo, sinestésica e visual. Com imagens consistentes e uma linguagem incisiva, a autora consegue o difícil feito de conversar, ao mesmo tempo, com a rotina e a retina do leitor. Suas palavras capturam não apenas a imagem do mundo, mas o cansaço e a repetição dos dias, entregando críticas fortes que funcionam como verdadeiros diagnósticos do comportamento humano moderno.

Esse olhar aguçado (e, muitas vezes, fatalista) sobre a sociedade contemporânea transparece em poemas como "Modus Vivendi" (p. 13), onde a poetisa resume de forma cirúrgica o peso da nossa relação com o trabalho e a espera:

"Carregamos os dias / vergados / pela ansiedade / da sexta / feira."

A passagem inevitável do tempo também é abordada com brilhantismo em "Ventotempo" (p. 19), através de uma metáfora tão simples quanto cortante:

"O tempo é uma vassoura / que varre o tempo / que nos varre."

Apesar dessas constatações duras, há espaço para a delicadeza e a reflexão sobre as transformações dos afetos. Em "Construção" (p. 15), a maturidade dos sentimentos ganha uma definição memorável, que se afasta do romantismo idealizado para abraçar a realidade do convívio:

"Amor é o que se forja / e modela / fogo ardente primeiro, / depois, fogo de vela."

Para além das citações destacadas, a obra reserva outras joias poéticas que merecem atenção especial do leitor, como "Aniversários" (p. 23), "2ª" (p. 24), "Tecitura" (p. 30), "Usura" (p. 33) e "Reflexão" (p. 39).

"A Peneira do Sol" é uma obra que cumpre o que seu título sugere, tendo em vista que filtra a aspereza dos dias, retendo a essência luminosa da condição humana, sem mascarar as sombras que nos cercam. Uma leitura essencial para quem busca uma poesia visível e visionária.

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