sábado, 22 de novembro de 2025

"Poeamo-me: poemas de amor e desamor próprio", de Paula Taitelbaum

"Poeamo-me" é uma das propostas poéticas mais impressionantes (e certamente a mais completa) que já tive a oportunidade de conhecer. Isso porque o kit que acompanha o livro escrito e ilustrado por Paula Taitelbaum inclui instruções para a realização de dinâmicas de grupo a partir da leitura dos poemas, assim como os materiais necessários para colocá-las em prática: uma linda "Sacola para Poeamar", um rolo de barbante vermelho, um bloco de folhas brancas e uma cola.

Lançado pela Editora Piu em 2024, "Poeamo-me: poemas de amor e desamor próprio" é uma coletânea de poemas já publicados no primeiro livro da escritora, "Eu Versos Eu", repaginados e complementados por instigantes ilustrações em vermelho. Os textos são, em sua maioria, curtos, fáceis de entender, porém criativos e provocantes, características que realmente os tornam super indicados para o trabalho com jovens.

E, como se isso fosse pouco, além do formato físico, a obra está disponível nos suportes digital e audiolivro (este de forma gratuita nas plataformas de áudio).

Portanto, "Poeamo-me" é um projeto brilhante, com poemas muito bem selecionados e planejado com carinho em todos os seus detalhes, configurando-se numa imersão poética inigualável.

domingo, 16 de novembro de 2025

"Destino leia-se sentido", de Gabriela Marcondes

Em "Destino leia-se sentido", Gabriela Marcondes apresenta uma criação literária que alia inovação e tradição, revelando-se como uma das vozes mais instigantes da literatura brasileira contemporânea. Sua produção é marcada por um jogo lúdico com a linguagem, no qual frases de outros autores são reinventadas, fragmentadas e ressignificadas, enquanto palavras são embaralhadas até darem origem a novos termos, em um gesto de brilhantismo surpreendente.

Gabriela dá um tom acessível e estimulante àquilo que poderia soar excessivamente experimental, tendo em vista que seus versos não intimidam, convidando o leitor a participar do jogo, explorando significados múltiplos a partir de vocábulos simples, trabalhados com engenho e delicadeza. 

A multiplicidade da autora (médica, poeta, artista visual e mestre em musicologia) transparece em cada página, pois sua criação é atravessada por uma sensibilidade que dialoga com diferentes áreas do conhecimento, resultando em uma escrita que é, simultaneamente, racional e sensorial.

O título já anuncia a proposta: "Destino leia-se sentido", porque, se misturarmos as letras que constituem a palavra “destino”, obteremos “sentido” — gesto que revela não apenas a busca por novos vocábulos, mas, sobretudo, de significados, prenunciando aquilo que acontece no decorrer das páginas deste livro.

Mais do que reafirmar a potência da palavra como matéria viva, a obra desafia quem a lê a repensar os caminhos da poesia atual. Pela ousadia formal e pela clareza de execução, Gabriela Marcondes se consolida como uma das escritoras mais inventivas de sua geração.

domingo, 9 de novembro de 2025

"Café & Foco", de Mauro José Santin




- Título: "Café e Foco: Crônicas Astro Lógicas"
- Autor: Mauro José Santin
- Editora: Edelbra/AEL (RS)
- Ano de lançamento: 2018
- Nº. de páginas: 248


"Café e Foco: Crônicas Astro Lógicas", de Mauro José Santin, é fruto de um percurso que começou em 2010, com o lançamento do livro "Educação para todas as vidas: um novo olhar para a vida, um rumo novo para a educação", e ganhou corpo no blog "Café e Foco", criado em 18 de janeiro de 2011. Esse espaço virtual, ainda ativo, tornou-se um repositório de reflexões em forma de versos e crônicas, que em 2018 resultaram neste livro.

A proposta já está anunciada no título: C – A – F – E, isto é, Ciência, Arte, Filosofia e Espiritualidade, com a Astrologia também presente como chave de leitura. O estilo de Mauro é único, pois seus textos não apenas transmitem ideias, mas são cuidadosamente estruturados para que a forma dos versos dialogue com o conteúdo, criando uma experiência estética e reflexiva.

Cada crônica lírica transcrita neste volume é um convite a pensar o instante vivido, seja quais forem os aspectos da vida humana abordados, sempre com um olhar atento ao tempo histórico em que foi escrita. Por isso, não é uma obra para ser lida de uma vez só; ao contrário, pede calma, digestão lenta, como um café forte que se saboreia aos poucos. Ler um texto por dia, assim, é uma maneira de respeitar o ritmo que o próprio autor defende, já que Mauro condena os excessos da pressa e da velocidade que marcam a vida contemporânea.

Um exemplo marcante é a publicação “Interdependência da Reconstrução”, de 22 de dezembro de 2015, em que o autor escreve: “A Cada Instante Sagrado, ao passar de cada dia AoBemSoado, fica mais evidente a Interdependência entre tudo e todos neste nosso Planeta super-habitado. Torna-se, assim, impossível olhar para o Planeta, que é apenas uma das muitas Moradas no Universo, sem usar o Coração como Luneta, sem perceber que é Único o Verso…”. Nesse texto, Mauro denuncia a exploração insaciável da Terra, a objetificação dos animais e até das próprias pessoas, chamando à reverência e à gratidão. Ao mesmo tempo, recorre à linguagem astrológica para propor uma transformação: Plutão, “o Grande Detetive”, paira sobre Capricórnio e nos pede “Conversão em lugar de Diversão, Justa Ação em lugar do Autoengano da Corrupção”. É um chamado à consciência, à autogestão e à mudança de postura diante da vida e do planeta.

Por conta disso, "Café e Foco: Crônicas Astro Lógicas" não é apenas uma coletânea de textos, mas um exercício de presença e de espiritualidade aplicada ao cotidiano. Mauro José Santin nos convida a olhar para o mundo com o “Coração como Luneta”, a perceber a interdependência entre tudo e todos e a mudar nossa relação com o tempo, com a Terra e conosco mesmos. É uma obra que pede calma, atenção e abertura — um café que aquece, desperta e inspira.

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

"Neve negra", de Santiago Nazarian

Em "Neve negra", Santiago Nazarian narra a história de Bruno Schwarz, um artista plástico bem-sucedido que retorna à antiga casa da família, localizada em uma pequena cidade do interior de Santa Catarina, justamente em um dia de neve atípico. Desde o início, não é apenas o clima que se mostra fora do comum, pois o local tão (re)conhecido pelo pintor está enchendo a sua cabeça de perguntas.

O romance se constrói como um verdadeiro exercício de terror psicológico, em que paranoias, alucinações e dramas concretos se entrelaçam. Nazarian mistura lenda, mistério, isolamento, solidão e crise de identidade, ao mesmo tempo em que contrapõe o sucesso e o fracasso do protagonista. O resultado é uma narrativa que alterna entre suspense, poesia, humor e surrealismo, oscilando constantemente entre presente e passado, devaneio e realidade.  

Mais uma vez, surge a figura de Thomas Schimidt, alter ego literário do autor, que interage com as suas criaturas e oferece um divertido ingrediente ao livro.

Embora não seja a narrativa mais instigante que já li, "Neve negra" se revela interessante e em nenhum momento cansativa. Ao final da leitura, permanece a dúvida essencial: seriam os acontecimentos apenas alegorias criadas por Santiago, fruto da mente perturbada de Bruno Schwarz, ou experiências efetivamente vividas pelo personagem? Essa ambiguidade é o que sustenta a força do romance, deixando no leitor a inquietação própria do melhor terror psicológico.

domingo, 2 de novembro de 2025

"A viúva Simões", de Júlia Lopes de Almeida

O romance "A viúva Simões", de Júlia Lopes de Almeida, traz como personagem principal Ernestina, mulher madura e de beleza singular, cujo marido falecera recentemente, deixando-lhe muitas posses e a filha Sara, moça peculiar e fisicamente parecida com o pai.

No decorrer da narrativa, Ernestina descobre que Luciano, por quem fora apaixonada na juventude, estava retornando ao Brasil após longa estadia na Europa. E esse reencontro provoca o ressurgimento de antigos sentimentos em ambos, assim como reabre feridas mal curadas. Mas, para dificultar uma segunda chance entre os dois, intromete-se Sara, que zela demais pela memória do pai e pelo período de luto devido pela mãe.

Pode-se afirmar, então, que a história é interessante e convida à leitura, apresentando doses certas de suspense, romance, drama e, até mesmo, de um certo terror sobrenatural. Além disso, o terço final da obra é bastante surpreendente, muito embora possa parecer, de certa forma, arrastado e forçado demais, quase apelativo.

Contudo, não há nada que desabone esse tesouro da Literatura Brasileira, publicado no final do século XIX, pois, em suma, "A viúva Simões" revela um enredo competente, planejado e estudado, que, mesmo sendo antigo, ainda proporciona um especial deleite aos seus leitores.


sábado, 25 de outubro de 2025

"É tarde para saber", de Josué Guimarães

Li "É tarde para saber" pela primeira vez na escola, ainda durante o 1º grau (atual Ensino Fundamental). Lembrava-me de que era um romance trágico e de que fora um dos poucos livros que li com satisfação naquele período.

Hoje, relendo a obra com um novo olhar, achei-a boa, mas nada fantástica. Além disso, excetuando-se o risco iminente de um novo governo fascista de extrema-direita, percebi-a bastante datada, retratando especificamente a realidade da época em todos os seus aspectos.

Para quem não sabe, esse título narra a história de Mariana, menina rica moradora de Copacabana, e Cássio, menino pobre e enigmático. Ambos mantêm um relacionamento quase secreto.

Ao longo da narrativa, Josué Guimarães dá “tapas de luva” no regime militar, que era o máximo que poderia fazer naquela conjuntura política brasileira.

Enfim, "É tarde para saber" é um livro importante para a nossa literatura, principalmente na ocasião em que foi lançado, e que hoje nos diz muito sobre um momento histórico que parte da população do país prefere ignorar ou romantizar.

domingo, 19 de outubro de 2025

"8 passos para a reconstrução da esperança", de Octavio Caruso



- Título: "8 passos para a reconstrução da esperança"

- Autor: Octavio Caruso

- Editora: Estrada de Papel (PR)

- Ano de lançamento: 2025

- Nº. de páginas: 74


No livro “8 passos para a reconstrução da esperança”, o escritor, crítico de cinema, ator, produtor, roteirista e cineasta independente Octavio Caruso compara o panorama social que se descortinava durante a sua infância com o cenário distópico tristemente observável nos dias atuais. No decorrer das páginas, o autor carioca ilustra, com fortes argumentos, como os brasileiros estão prosseguindo ladeira abaixo enquanto seres humanos de valor, estando a sua vergonhosa maioria perdida, despencando sem perder a pose e o nariz empinado.

Por outro lado, apesar de escancarar a desfavorável realidade com elogiável lucidez, Octavio busca fazer a sua parte (como já vem realizando há muito tempo, aliás, por meio de seus espetaculares trabalhos), listando os oito passos que, segundo ele, permitiriam aos poucos cidadãos fora da curva voltarem a ter alguma esperança na humanidade.

O primeiro passo, “O resgate da gentileza”, aborda a maneira de agir grosseira, vil e egocêntrica testemunhada em quase todos os indivíduos na atualidade. Para o escritor, se as pessoas voltassem a ser gentis, tivessem mais empatia e pensassem mais no bem comum, e não só em satisfazer as necessidades fúteis e instantâneas dos seus sujos umbigos, teríamos uma sociedade visivelmente melhor.

O segundo passo, “A vergonha de ser burro”, trata a respeito de um aspecto que já percebo há algum tempo como professor: os estudantes não sentem mais vergonha de terem um mau desempenho escolar. Tirar uma nota ruim, o que antes era um motivo de desespero, hoje é algo recebido com a mais completa indiferença. Então, não saber é uma situação que não incomoda mais os seres humanos. O importante, para a massa, é arranjar formas de conseguir dinheiro com pouco esforço. Só é relevante aquilo que a levar a isso.

O terceiro passo, “Conservar é amar”, discorre sobre a cada vez mais ameaçada prática do colecionismo, capítulo que mexeu muito comigo. Pois, como sempre gostei demais de música, cinema e literatura, desde criança adquiro e conservo, com o maior zelo possível, CDs, DVDs, livros e gibis. E sinto-me desesperado com a notável “ditadura” virtual. Agora, só vale aquilo que pode ser acessado pela internet, tendo em vista que é o que a maior parte dos indivíduos consome. Sendo assim, os poucos adeptos do verdadeiro apreço à arte e à cultura que ainda não desistiram das mídias físicas estão a cada dia mais angustiados com o cerco que vem se fechando. Gradativamente, está ficando mais complicado de encontrar títulos em CD, LP e DVD, sobretudo de achar aparelhos de qualidade que rodem esses discos. E, concordando com Octavio, digo: a paixão pela mídia física, pelo garimpo cultural, é proporcional ao respeito que se tem pelo autoaprimoramento intelectual.

O quarto passo, “Ilumine o caminho”, também me sensibilizou, porque tece analogias com o papel do docente, que quase sempre é exaustivo, frustrante e infrutífero, mas que, nas raras ocasiões em que o plantio dá sinal de vida, provoca sensações inigualáveis. Aqui, Caruso afirma que não se pode mudar a mentalidade de alguém, restando somente iluminar o seu caminho, torcendo para que os demais acolham a oportunidade. (Porém, convenhamos que é uma tarefa hercúlea, visto que o único trajeto luminoso valorizado pela imensa maioria é a tela dos seus smartphones – as únicas peças estimadas em suas medíocres existências, sem as quais morreriam.)

Por sua vez, os outros quatro passos sugeridos pelo autor desta valorosa obra não são menos importantes do que os supracitados e contêm uma abundante dose de joias em suas linhas. Contudo, não tecerei comentários sobre todos eles, uma vez que o presente texto deseja convidar os leitores para que tenham a mesma rica experiência que eu tive ao devorar “8 passos para a reconstrução da esperança”, e não resumir o livro inteiro, tendo em vista que isso acomodaria o público e, consequentemente, iria contra ao que Octavio Caruso sustentou neste seu lançamento.

Resta-me, assim, encerrar esta análise (bem menos aprofundada do que as brilhantemente executadas pelo escritor da obra em questão) com as minhas considerações finais. Concluo, afirmando que este foi um dos melhores livros que já li em toda a minha vasta experiência como leitor, pois não só encontrei em suas páginas, quase em sua totalidade, ideias com as quais me identifico, como também desfrutei de um título escrito com paixão, primor, verdade e as ponderações feitas por alguém que sabe realmente do que está falando. Octavio mostrou-se um sensível observador daquilo e daqueles que o cercam, assim como, há tempos, revela-se um verdadeiro protagonista da nossa sociedade, a quem devemos maior atenção. E espero, sinceramente, que isso aconteça.