quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

"As Willis: sexo, morte e escaravelhos", de Carlos Gerbase



Muito mais do que pelo enredo do livro em si, adquiri um exemplar de "As Willis" por conta de seu autor, Carlos Gerbase, músico e cineasta que admiro desde a infância. E confesso que a história me surpreendeu.

As Willis são Mirtha, Irina, Margot, Maria, Madalena e, finalmente, Giselle: belas mulheres que morreram virgens e que, pela influência dos poderes do escaravelho sagrado, retornaram à vida — ou a algo similar a isso. O “porém” é que elas precisam adquirir energia sugando a vitalidade de suas vítimas, como os vampiros fazem, mas de uma maneira um pouco diferente.

A leitura da obra é muito instigante! A narrativa de Gerbase é deliciosa; a ambientação em Porto Alegre e região dá um charme especial, além de proporcionar uma sensação de pertencimento a quem reconhece os locais descritos; as críticas são inteligentes e hilárias; as referências culturais são um atrativo à parte; e a formatação em estilo acadêmico desafia e desacomoda o leitor.

Ao final, na seção de agradecimentos, o autor confessa que, primeiramente, projetava produzir um longa-metragem com esse roteiro, o qual se tornou uma minissérie nunca filmada, até transformar-se em literatura.

Ou seja, após ler o livro, sinto que deleitei-me demais com esse que, sem dúvidas, é um dos melhores títulos que já li. No entanto, depois de conhecer essas informações, fico imaginando as maravilhas que o cineasta Gerbase realizaria com essa narrativa. Que riqueza de possibilidades!

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

"Olhos de Mandrágora", de Ivy Menon


- Título: “Olhos de Mandrágora”
- Autora: Ivy Menon
- Editora: Patuá (SP)
- Ano de lançamento: 2024
- Nº. de páginas: 88


“Olhos de Mandrágora”, da escritora paranaense Ivy Menon, é um livro de poesia muito coeso em toda a sua concepção, desde o aspecto gráfico até a escolha e a organização dos poemas. Estes, por sua vez, são essencialmente curtos na extensão e profundamente longos na significação. Também, são similares na estrutura, assim como são coerentes na abordagem.

Em seus versos, a autora faz críticas sociais contundentes. Para isso, tece muitas analogias com aquilo que encontra na natureza. Ou, sendo mais específico, percebe-se que ela aprende com a vida selvagem e a ressignifica, emparelhando-a com aquilo que se pode testemunhar na selvageria cotidiana. 

Além disso, a linguagem estudada e empregada por Ivy é densa no limite, pois, por mais exigente que seja, consegue ser acessível aos seus leitores, que, em contrapartida, precisam trazer uma bagagem cultural prévia, como um certo conhecimento sobre mitologia, por exemplo.

Particularmente, adorei os versos de “centro”, “metafísica da angústia”, “lacaniana”, “ilusão”, “fantoche” e “temerário”. Por outro lado, fiquei absurdamente entusiasmado com os poemas “engano”, “platônico”, “caça”, “prometeu” e “ecos”. Neles, encontram-se pérolas como: “cupins não dançam balé clássico” (engano), “a luz cega mais que a escuridão” (platônico), “o pecado de ontem salva o dia seguinte” (caça), “alimenta a liberdade / que lhe devora as vísceras” (prometeu) e “a cidade jamais dorme / sequer cochila” (ecos).

Ou seja, “Olhos de Mandrágora” é uma obra lírica extremamente requintada em todos os seus detalhes, cujas páginas guardam ácidos tesouros literários que ninguém imaginaria terem saído de uma pessoa tão gentil quanto Ivy Menon. Mesmo que eu já tenha tido, há alguns anos, algum contato com trabalhos seus, sempre bastante críticos e criativos, sinto, agora, que ela está cada vez mais competente na composição de suas estrofes, bem como surge mais incisiva em suas denúncias sociais e nas palavras que escolhe para fazê-las. 

Portanto, este é um volume que encanta e, simultaneamente, incomoda, porque foi escrito para isso.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

"Enredar-se", de Joselma Noal


- Título: "Enredar-se"
- Autora: Joselma Noal
- Editora: Libertinagem (SP)
- Ano de lançamento: 2025
- Nº. de páginas: 68

Em "Enredar-se", Joselma Noal propõe ao leitor um mergulho em poemas que se entrelaçam como tentáculos, exalando “tintas de amor, de raiva, de anseio por viver, por recordar, por pensar o mundo, a escrita, a arte, a vida e a morte” (p. 65). A própria autora define sua obra como um convite a entrar na rede, e essa imagem se confirma na leitura, uma vez que cada poema é um fio que surpreende, prende e, ao mesmo tempo, ajuda a libertar.

A poesia aqui se apresenta como retratos instantâneos, como esquetes do cotidiano, e sempre plurissignificativa. Em textos curtos ou mais longos, Joselma constrói analogias que destroem a mesmice, como no pedido de que “as tonalidades venham fortes, e arrastem para baixo do tapete a monotonia nossa de cada dia” (p. 18). Há também momentos de delicadeza, em que um simples raio de sol se torna “afago, trégua nos dias nublados que demoraram a partir” (p. 27). O olhar da autora para o cotidiano é capaz de transformar o banal em reflexão, como nesta sugestão sobre o tempo, que “floresce uma só vez” e poderia ser cultivado em forma de sonhos, em vez de amarguras (p. 62-63).

Os poemas lembram os minicontos que a escritora também produz, pois são breves, incisivos, capazes de surpreender com poucas palavras. Essa economia verbal é uma marca de seu estilo, e nela reside a força de Joselma, especialista em provocar o inesperado. A poesia, assim, ganha ritmo e forma dentro da vida de cada leitor, dialogando com rotinas, com imagens recorrentes como a mulher, o mar, o pássaro, a gaiola, o corpo. São símbolos que se repetem e se transformam, proporcionando coesão e consistência ao livro.

Portanto, "Enredar-se" é um título que desafia quem o lê a se deixar capturar pelas malhas da poesia, onde cada verso é um convite à sensibilidade, ao imprevisto; a enxergar as nossas semelhanças, diferenças, particularidades, peculiaridades, enfim, o modo como absorvemos e lidamos com esta incontrolável, incompreensível, linda e desafiadora vida.


Quando é novembro
o amor paira pela praça,
cheira a pipoca e a papel.
E enquanto os poetas passarinhos
abençoam a primavera
de capas coloridas,
dos livros abertos
nascem asas
e pela praça
esparramam
palavras
voa
     do
          ras


(Página 26)

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

"Canções do Desoculta", de Pollyanna Carvalhaes

 



- Título: "Canções do Desoculta"
- Autora: Pollyanna Carvalhaes
- Editora: Chiado Books (SP)
- Ano de lançamento: 2021
- Nº. de páginas: 82


Publicado em 2021 pela Chiado Books, o livro "Canções do Desoculta", de Pollyanna Carvalhaes, reúne 82 páginas de poesia que se destacam pela combinação equilibrada entre poemas longos e curtos, todos trabalhados com um ritmo muito bem conduzido.

A autora demonstra grande competência ao tecer simbologias acessíveis, sem abrir mão da densidade poética, que nunca soa prepotente. Suas analogias são criativas e surpreendentes, fugindo do óbvio e convidando o leitor a mergulhar em novas possibilidades de sentido. Em seus poemas, ela parte de experiências individuais do eu lírico para alcançar dimensões universais, transformando situações particulares em reflexões que dialogam com o cotidiano de todos nós. Essa transição do íntimo para o coletivo é feita com leveza e astúcia, sendo reforçada pelo jogo com nuances de significado e pela sinalização gráfica que intensifica a expressividade dos poemas. Esse, aliás, é um dos aspectos mais marcantes da obra: o uso inventivo da forma, por meio da utilização de quebras de versos inesperadas e do emprego diferenciado das vírgulas, que criam cadências atraentes, prendem a atenção e tornam a leitura dinâmica.

A organização do volume é coesa e revela um planejamento cuidadoso, em que cada texto ocupa seu lugar de forma a compor um conjunto harmônico. Entre os poemas que mais se destacam estão “Insônia nua”, “Reza”, “Desenha-me uma boca”, “Um copo de corpo”, “Dormir só”, “Labirintite”, “Kamikaze”, “Lua Sangra”, “Quatro vias três segredos”, “Nó de luas nuas”, “Total” e “Carangueixa”, todos exemplos da força criativa da autora.

Portanto, "Canções do Desoculta" se apresenta como uma obra poética planejada em cada detalhe, desde a escrita até a disposição dos textos, oferecendo ao leitor uma experiência instigante e ao mesmo tempo suave. A leitura é inegavelmente agradável e demonstra uma poetisa capaz de surpreender pela originalidade e pela delicadeza com que constrói suas imagens. Para quem se aproxima do livro sem grandes expectativas, o resultado é uma grata surpresa, uma vez que a poesia de Pollyanna Carvalhaes fascina e encanta.