Em "Enredar-se", Joselma Noal propõe ao leitor um mergulho em poemas que se entrelaçam como tentáculos, exalando “tintas de amor, de raiva, de anseio por viver, por recordar, por pensar o mundo, a escrita, a arte, a vida e a morte” (p. 65). A própria autora define sua obra como um convite a entrar na rede, e essa imagem se confirma na leitura, uma vez que cada poema é um fio que surpreende, prende e, ao mesmo tempo, ajuda a libertar.
A poesia aqui se apresenta como retratos instantâneos, como esquetes do cotidiano, e sempre plurissignificativa. Em textos curtos ou mais longos, Joselma constrói analogias que destroem a mesmice, como no pedido de que “as tonalidades venham fortes, e arrastem para baixo do tapete a monotonia nossa de cada dia” (p. 18). Há também momentos de delicadeza, em que um simples raio de sol se torna “afago, trégua nos dias nublados que demoraram a partir” (p. 27). O olhar da autora para o cotidiano é capaz de transformar o banal em reflexão, como nesta sugestão sobre o tempo, que “floresce uma só vez” e poderia ser cultivado em forma de sonhos, em vez de amarguras (p. 62-63).
Os poemas lembram os minicontos que a escritora também produz, pois são breves, incisivos, capazes de surpreender com poucas palavras. Essa economia verbal é uma marca de seu estilo, e nela reside a força de Joselma, especialista em provocar o inesperado. A poesia, assim, ganha ritmo e forma dentro da vida de cada leitor, dialogando com rotinas, com imagens recorrentes como a mulher, o mar, o pássaro, a gaiola, o corpo. São símbolos que se repetem e se transformam, proporcionando coesão e consistência ao livro.
Portanto, "Enredar-se" é um título que desafia quem o lê a se deixar capturar pelas malhas da poesia, onde cada verso é um convite à sensibilidade, ao imprevisto; a enxergar as nossas semelhanças, diferenças, particularidades, peculiaridades, enfim, o modo como absorvemos e lidamos com esta incontrolável, incompreensível, linda e desafiadora vida.
o amor paira pela praça,
cheira a pipoca e a papel.
E enquanto os poetas passarinhos
abençoam a primavera
de capas coloridas,
dos livros abertos
nascem asas
e pela praça
esparramam
palavras
voa
do
ras
(Página 26)

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