quarta-feira, 30 de setembro de 2026

"Da lama ao caos: que som é esse que vem de Pernambuco?", de José Teles

Também biógrafo do saudoso e genial músico pernambucano Chico Science, o jornalista José Teles aborda, neste livro, principalmente a concepção do primeiro álbum de estúdio do influente grupo Chico Science & Nação Zumbi, o absolutamente relevante "Da lama ao caos".

No entanto, para tratar do disco, Teles também discorre sobre o surgimento da banda, os passos posteriores ao álbum e a repercussão de "Da lama ao caos" em diferentes cenários musicais, além de narrar a trajetória do próprio Chico, figura realmente central em todo esse processo.

O volume não é extenso, mas, considerando seu conteúdo, é muito rico em informações. Uma leitura adorável!

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

"O Mito da Caverna", de Platão

Presente no Livro VII da obra A República, "O Mito da Caverna" é fundamental não só para a Filosofia, mas para a sociedade humana de forma geral. Essa alegoria, criada pelo grego Platão, discípulo de Sócrates — ambos pilares da Filosofia Ocidental —, tem a capacidade de permanecer atual; parece que fica cada vez mais viva e faz cada vez mais sentido com o passar do tempo.

Por meio de seu mito, o pensador originário da Grécia Antiga nos faz refletir sobre ignorância, conhecimento, liberdade, responsabilidade, alienação, manipulação, dominação, doutrinação e efeito manada, entre outros temas. Podemos utilizá-lo, por exemplo, em relação à cultura, à educação, à política, ao entretenimento de massa — como a televisão, o rádio e a internet —, e especialmente às redes sociais.

Sendo assim, posso afirmar que o leitor se torna um indivíduo diferente após essa leitura, pois ela transforma a sua postura diante de si mesmo e daqueles que o cercam.

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

“Vida de gado: trinta anos pastando no jornalismo”, de Tom Cardoso




- Título: “Vida de gado: trinta anos pastando no jornalismo”
- Autor: Tom Cardoso
- Editora: Rua do Sabão (SP)
- Ano de lançamento: 2026
- Nº.  de páginas: 172


Há volumes literários que enchem seus leitores de palavras. Este, por sua vez, deixa-os sem palavras, tamanho é o deslumbramento provocado não apenas por sua qualidade, mas também pela ousadia ao expor algumas das passagens aqui contadas.

Nesta divertida e curiosa obra, o jornalista Tom Cardoso, de quem eu já havia lido a excelente biografia “Ninguém pode com Nara Leão”, narra situações sempre surpreendentes, ora pelo humor, ora pela melancolia, vividas na companhia de ilustres figuras que cruzaram sua trajetória de três décadas no jornalismo.

Nas páginas de “Vida de gado”, Tom retrata o lado menos glamouroso e, ao mesmo tempo, mais inusitado da imprensa brasileira. Ao fazê-lo, oferece ao público uma visão pitoresca de uma realidade que exige do indivíduo não apenas boa capacidade de leitura, mas também um vasto conhecimento de mundo. Isso porque não entrega nada mastigado (apesar do título), contando com a inteligência e a cultura de quem tem em mãos esse seu lançamento.

Confesso que dei várias gargalhadas ao longo destas histórias, que, entretanto, não me conquistaram apenas pela graça. A escrita de Tom é primorosa, ágil e espirituosa, capaz de provocar no leitor as mais diversas reações – façanha alcançada por poucos artistas das letras. O humor, aqui, não é mero recurso para entreter, pois, muitas vezes, serve também para revelar o absurdo, a vaidade, a precariedade e até a estafa escondidos nas situações narradas.

Entre os verbetes presentes no livro, os que mais me fascinaram foram Caetano Veloso, Lobão, Marilyn Manson, Miele, Pastor Valdemiro, Paulinho da Viola, Roberto Carlos, Wilson Simonal e Zé Celso. A diversidade desses nomes dá uma boa medida da amplitude do universo percorrido por Tom Cardoso e da riqueza de (des)encontros que uma longa carreira jornalística pode proporcionar.

No fim das contas, “Vida de gado” passa longe de ser um mero arquivo de anedotas de redação, tendo em vista que, nele, Tom Cardoso transforma suas três décadas de batente em pura literatura, provando que, com o talento certo para a observação, até mesmo os anos “pastando” na profissão podem render um livro absolutamente irresistível.

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

"Squirt", de Telma Scherer




- Título: "Squirt"
- Autora: Telma Scherer
- Editora: Terra Redonda (SP)
- Ano de lançamento: 2021
- N.º de páginas: 88


"Squirt", de Telma Scherer, é construído por meio de poemas longos e prosas poéticas, sem dar título aos seus textos, uma escolha estética que parece ter sido pensada justamente para não fornecer pistas fáceis ou caminhos antecipados ao leitor. Conduzido por temas profundamente femininos, o livro explora sentimentos, sensações e pontos de vista sob essa ótica. Além disso, fala muito sobre as relações humanas, dedicando um foco especial e literal àquelas que se encontram doentes.

Sua leitura revela uma escrita de caráter denso, mas que se mantém acessível o tempo todo. A poesia de Telma é visceral, despudorada e empoderada, e, acima de tudo, muito humana. Ela se sustenta na força de imagens potentes e em uma intertextualidade refinada e nada óbvia, na qual a autora não hesita em recorrer a elementos escatológicos para dar materialidade aos seus versos. Nesse sentido, chama muito a atenção a forma como seus versos dialogam com diversas formas de arte, principalmente as visuais. Em vários momentos, fica evidente que a autora produz seus poemas de maneira análoga ao seu processo com a pintura: ela realiza recortes significativos na linguagem e, em seguida, os ressignifica com tinta, com suor, com sangue.

Por isso, recomendo "Squirt" para quem procura uma poesia corajosa, que disseca a vulnerabilidade dos vínculos com maturidade e sem idealizações. É a escolha certa para quem busca uma literatura forte e imagética, na qual a palavra alcança o humano orgânico para criar uma experiência de leitura intensa e provocadora.