sexta-feira, 6 de março de 2026

"Biofobia", de Santiago Nazarian

André, um roqueiro decadente de meia-idade, é filho de uma escritora relativamente bem-sucedida que acaba de se suicidar. Ela morava em uma casa extravagante no meio do mato, e ele vai até lá para fazer os preparativos finais.

Contado de forma inteligente por um narrador onisciente e utilizando de modo muito eficaz o discurso indireto livre, "Biofobia" é um dos livros mais notáveis do talentoso escritor paulista Santiago Nazarian.

Durante a leitura, o leitor nunca sabe o que é acontecimento, o que é delírio ou o que é simplesmente um uso interessante de figuras de linguagem, o que proporciona uma experiência estimulante e divertida.

O título "Biofobia", por sua vez, foi planejado de maneira perspicaz, pois pode significar "medo da vida", "medo da natureza", "medo da própria vida", e isso tudo cabe na história.

Sendo assim, esse thriller de Santiago Nazarian é uma obra altamente recomendável, principalmente para quem tem alguma familiaridade com o universo alternativo e é praticamente desprovido de preconceitos.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

"A reinvenção da metáfora: as bodas de Rogério Salgado", organizado por Luiz Otávio Oliani




- Título: "A reinvenção da metáfora: as bodas de Rogério Salgado"
- Autor: Luiz Otávio Oliani
- Editora: Ventura (RJ)
- Ano de lançamento: 2025
- N.º de páginas: 104


Que linda ficou esta obra criada para homenagear Rogério Salgado, poeta mineiro digno de qualquer honraria!

Há cinquenta anos lapidando ideias, ideais, sentimentos e emoções em forma de verso, o autor, cuja gentileza se estende tanto quanto seu notável talento, sempre foi um agitador cultural que não se limita a interesses pessoais. Rogério, muito pelo contrário, busca enaltecer diferentes artistas e iniciativas das mais variadas, de modo a engrandecer, sobretudo, a cultura nacional.

Ao ler esse elegante volume organizado pelo professor e escritor Luiz Otávio Oliani, percebemos não apenas que a arte poética é a força motriz do poeta em questão, mas também que ele nunca esteve alheio ao que ocorria ao seu redor. Rogério fala sobre nossos dramas e alegrias, alguns simultaneamente particulares e coletivos, como os poemas que abordam ditaduras latino-americanas, utilizando constantemente os recursos poéticos mais explorados em cada período.

A escrita de Salgado é criativa, instigante, acessível e, ao mesmo tempo, profunda, características que revelam um escritor que se esforça para inserir a poesia no cotidiano do povo. Daqui, os poemas que mais me maravilharam foram "Poema consciente", "O que cabe no poema", "Inocência na praia", "Sonho de uma nova Vila Rica", "Brado ou canção de liberdade ao povo chileno", "Parafraseando Fernando Pessoa", "Poema inocente para ser recitado", "Definição", "Poema sacaninha", "Jardim de infância", "Fato consumado", "Solo solene para Fernanda Nicácio", "Acorde em dó menor", "Tempo", "Epitáfio" e "Valores humanos".

O livro em si é muito bem organizado: inicia com um prefácio extremamente interessante escrito por Luiz Otávio, que também selecionou os textos e os dividiu nas seções "No corpo da palavra", "Mundo social", "Amor e prazer", "Memórias e despedidas" e "Outros".

Por tudo isso, "A reinvenção da metáfora" é uma excelente oportunidade para conhecer ou revisitar a impressionante obra de Rogério Salgado, por meio de uma publicação pensada e executada com esmero.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

"O Mundo de Sofia", de Jostein Gaarder

Em "O Mundo de Sofia", o norueguês Jostein Gaarder nos apresenta uma adolescente que, ao receber misteriosas cartas com perguntas filosóficas, ingressa sem querer em um curso bem diferente e exclusivo. 

A narrativa conduz o leitor pelos principais momentos da história da Filosofia, sempre em tom dialogado e acessível, o que torna a proposta criativa e convidativa. O autor consegue prender a atenção dos leitores com habilidade, mas em alguns trechos o ritmo se torna cansativo, especialmente quando se detém demais em certos períodos e deixa outros praticamente de lado. Suas escolhas são curiosas, já que, por exemplo, Charles Darwin e Sigmund Freud recebem grande destaque, o que faz o livro, por vezes, parecer mais uma introdução às Ciências do que à Filosofia. Ainda assim, há momentos brilhantes em que Gaarder amplia a discussão e questiona a própria natureza da vida e do universo, provocando reflexões sobre o que está por trás de tudo. 

Um ponto delicado é a cena em que há uma sexualização excessiva de personagens adolescentes, causando certo estranhamento. Por outro lado, um aspecto a ser ressaltado é a abordagem que é feita, já naquela época, a respeito de temas de inegável importância atualmente, como o uso da Inteligência Artificial, a dependência tecnológica e os danos ao meio ambiente.

Apesar dessas ressalvas, trata-se de uma obra extremamente recomendável para estudantes e professores de Filosofia, tanto como ferramenta didática quanto como material de apoio, porque combina diversão, clareza e profundidade em uma narrativa que desperta a curiosidade filosófica em leitores de qualquer idade.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

"Asas de terra e sangue", de Ivy Menon





- Título: "Asas de terra e sangue"
- Autora: Ivy Menon
- Editora: Arribaçã (PB)
- Ano de lançamento: 2021
- N.º de páginas: 242


Este livro chegou até mim por meio de sua incrivelmente querida autora. Já fascinado com o pouco que sabia de sua trajetória, recebi dela uma incumbência direta: "Leia este livro!". Comecei pelo e-book que me disponibilizou, mas as histórias narradas em "Asas de terra e sangue" (todas reais, contadas com linguagem precisa e poética) encantaram-me tanto que precisei de uma edição física. E, pelo destino, acabei encontrando o último exemplar impresso ainda existente, um que nem a própria autora sabia que restava.

Grande parte das situações hipnóticas aqui apresentadas aconteceram na infância de Ivy. Ela mesma já havia me confidenciado em entrevista: "Por ter sido boia-fria até os vinte anos, cresci distante dos livros. Aos doze, fui trabalhar como doméstica na casa da minha professora do quarto ano primário. Foi ela quem me apresentou e me emprestou 'Reinações de Narizinho', de Monteiro Lobato." Há também episódios de sua juventude, alguns profundamente comoventes, além de fatos recentes, vividos em sua fase atual.

O livro abre espaço para rir, chorar, comover-se e enternecer-se. Qualquer leitor chegará à mesma conclusão: Ivy Menon possui uma história de vida extraordinária, digna de ocupar páginas de livros — e até de ser retratada em outros suportes, como o cinema. Sua narrativa é sensível, com uso estudado das palavras e construções frasais, conferindo às crônicas um valor literário raro. Percebe-se, ainda, a visão poética da criança, a inocência de quem enxerga o mundo de forma diferente.

Sem erro, afirmo que "Asas de terra e sangue" é um dos melhores e mais marcantes títulos que já tive a oportunidade de devorar ao longo da minha monótona existência. A forte, destemida, brilhante e profundamente humana Ivy Menon me fez um favor imenso ao recomendar sua obra. E o destino, generoso, me concedeu a gentileza de permitir esse encontro com uma pessoa tão inspiradora.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

"As atribulações de uma caixa de supermercado", de Anna Sam

A autora francesa Anna Sam, graduada em Literatura, trabalhou durante oito anos como caixa de supermercado. Baseada nessa experiência e apropriando-se de seu perceptível talento para a escrita, bem como de sua perspicácia para ler as pessoas e o mundo, ela criou, inicialmente, um blog no qual relatava tudo aquilo que considerava mais curioso e interessante enquanto exercia sua atividade profissional. Esse conteúdo, pela relevância e sucesso, transformou-se neste livro.

Confesso que escolhi esta obra porque desejava, por esses dias, uma leitura mais leve. Mas, muito além de uma distração, encontrei em suas páginas valiosas lições sociológicas, filosóficas e psicológicas.

A escrita de Anna Sam é ácida e divertida. Ela consegue transmitir, com extrema ironia, as situações insólitas e humilhantes vividas por uma caixa, em um tom tão frenético quanto as tarefas desempenhadas por esses profissionais. Ao mesmo tempo, soube retratar, de maneira respeitosa e poética, ocasiões emocionantes, como o seu último dia exercendo a função.

Concluo, então, que Anna Sam, com este título, não só presta um serviço significativo à sociedade — ao nos instigar a realmente enxergar esses trabalhadores essenciais —, mas também demonstra uma capacidade literária inegável.

Adorei ler "As atribulações de uma caixa de supermercado"! E, sim, fui conferir, e o blog ainda existe: caissierenofutur.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

"Melhores poemas", de Cora Coralina

Lançada pela Editora Global em edição de bolso, esta antologia oferece aos leitores um panorama bem completo a respeito da obra e da vida de Cora Coralina.

O volume tem início com uma detalhada apresentação escrita pela poetisa, ensaísta e crítica literária Darcy França Denófrio, que foi também a responsável pela seleção dos poemas de Cora.

Aqui, Darcy organiza os textos competentemente escolhidos de acordo com os seguintes subtítulos: "Nos reinos de Goiás", "Canto de Aninha", "Criança no meu tempo", "Paraíso perdido", "Entre pedras e flores", "Canto solitário" e "Celebrações".

Na sequência, a coletânea apresenta uma rica biografia sobre Cora, assim como a bibliografia completa, contemplando a produção dessa inigualável poetisa goiana.

Lendo este livro, percebe-se que, desde criança, Cora, a Aninha, era diferente, mais sensível e, por isso, incompreendida, cobrada demais, rejeitada, mas também, por conta disso, tornou-se (ou sempre foi), inevitavelmente, poetisa.

Tendo estudado pouco tempo no ensino regular, Cora Coralina até hoje é um fenômeno; escritora de uma poética diferenciada, humana, cujos versos retratam o passado, lamentam as crueldades, celebram as belezas simples, valorizam as melhorias do presente e projetam o futuro.

A autora transpira poesia, não força nada. Para ela, compor lindos poemas é tão natural quanto fazer uma lista de mercado.

Cora Coralina faleceu ainda em 1985, porém deixou um legado imortal.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

"Penso, logo ensino", de Gabriel Perissé

"Penso, logo ensino", de Gabriel Perissé, é um volume pequeno em tamanho, mas enorme em bagagem. Trata-se de uma leitura leve, porém repleta de ensinamentos preciosos, não só para professores.

Inicialmente, o livro traz um valioso texto introdutório escrito por Perissé, no qual o autor tece importantes considerações sobre o ensino e a própria obra. Em seguida, discorre a respeito de trinta palavras-chave, uma por capítulo, que, segundo ele, ajudariam a entender o pensamento humano. São elas, por exemplo, "Aprendizado", "Avaliação", "Ciência", "Discernimento", "Dúvida", "Escola", "Filosofia", "Inteligência", "Linguagem", "Memória". Por fim, faz o fechamento de sua argumentação, afirmando que os mestres não podem ter preguiça de exercitar o pensamento nem receio de compartilhar os seus saberes com os estudantes, por não julgá-los aptos ou merecedores. Afinal, eles podem nos surpreender de várias maneiras.

Portanto, essa publicação, de agradável desfrute, carrega consigo uma pesada carga de conhecimento, cujo aproveitamento se mostra fundamental a todos os estudiosos, não apenas aos da Educação.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

"O Jardim das Oliveiras", de Adélia Prado

A obra poética "O Jardim das Oliveiras" foi lançada em 2025 pela mineira Adélia Prado e coincide com a celebração dos seus 90 anos.

Os inúmeros poemas apresentados neste volume são organizados nas seções "Esta memória forjada em pó de carvão e lágrimas", "As santas vulgaridades têm com certeza um anjo guardião", "Muito cuidado com o recém-nascido" e "Se alguém gritasse, pediria vassoura ou faca para a sangria", títulos que antecipam o conteúdo dos textos, seja em termos de linguagem, seja em relação às provocações propostas pela autora.

Os assuntos abordados podem ser identificados pelas dicotomias: Sagrado e Profano; Vida cotidiana e Vida espiritual; Angústias existenciais e Transcendência; Vida e Morte; Poesia e Espiritualidade; Dores e Graças (associadas ao divino); Tempo e Memória.

Como costuma ser observado no decorrer de sua bibliografia, aqui Adélia não busca rimas nem ritmo triviais, apenas, com o uso do vocabulário e das sentenças comuns, reinventar significados, percepções, conceitos, preconceitos, estereótipos, com muita riqueza e profundidade.

Por fim, cabe acrescentar que o intenso e instigante livro "O Jardim das Oliveiras" comprova que a poetisa em questão, com nove décadas de história, ainda lança trabalhos vigorosos, modernos e que tiram o público da zona de conforto, reafirmando que Adélia Prado merece todos os prêmios e elogios que recebe.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

"Hoje é meu aniversário", de Luciano Buniak




- Título: "Hoje é meu aniversário"
- Autor: Luciano Buniak
- Editora: Labrador (SP)
- Ano de lançamento: 2024
- N.º de páginas: 64


Cheguei a este livro por acaso. Estava procurando obras poéticas interessantes e acessíveis em uma loja virtual e me deparei com "Hoje é meu aniversário". Desde o primeiro contato com o título, senti que esse volume poderia me entregar tudo ou nada.

O primeiro impacto aconteceu no prefácio, no qual o autor afirma: "não sou poeta e este não é um livro de poemas". Na mesma seção, ele acrescenta que o livro é fruto de uma viagem que fez a Paris, em 2022, e dos estranhamentos que vivenciou por lá. A bem dizer, seus versos, surgidos já no meio de sua estadia na Cidade Luz, trazem suas impressões, sensações e sentimentos. Em suma, é o olhar poético não de um turista que vai a algum local badalado para ostentar o seu feito, mas de um ser humano que mudou temporariamente o seu contexto para experimentar e realmente ver se encontrava algo ou alguém diferente.

Nessa obra poética que foi uma surpresa para mim — e para o próprio escritor, que nunca havia planejado a sua concepção —, o leitor depara-se com versos avassaladores, como: "Em poucos dias perceberei que esta viagem / não será como imaginada, / que não serei bem-vindo, / que não serei benquisto aqui / nem ali, nem em lugar algum", "O sol forte do fim do verão / acentua a doce embriaguez de cada um", "Se ninguém mudasse de trajetória, haveria um choque / Nada mudou, houve um choque / [...] Um choque que se repetiu muitas vezes", "E minha vida? Congelada, pausada / À espera do retorno ao normal / O normal que nunca funcionou".

"Hoje é meu aniversário" soa como um verdadeiro diário de viagem, pois os poemas são organizados como tal. Mas é uma viagem pela vida, por si mesmo, pelo outro e também por Paris, sua gente, seus costumes e suas ruas. Fica claro que os textos trazem as percepções profundas do poeta numa lógica temporal (ao menos é o que a sequência dá a entender). Essa ordem é entremeada por provocantes gravuras feitas pelo próprio Luciano, que diz não ser poeta, não ser artista, mas que aqui surge superior a muitos que se nomeiam como tais.

Enfim, adorei ler esse pequeno volume poético, que sinceramente me transportou para a Paris de Luciano Buniak e suas viagens. É um projeto despretensioso que consegue ser uma construção poética consolidada, oferecendo ao público uma arte contemporânea inteligente e de reconhecível valor. Seu autor não subestima os leitores, embora nunca soe presunçoso — nem por ter morado alguns meses na França, nem por ter escrito poesia da melhor qualidade.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

"A Religião na MPB", de Juscelino Filho





- Título: "A Religião na MPB"
- Autor: Juscelino Filho
- Editora: Do Autor (SP)
- Ano de lançamento: 2025
- N.º de páginas: 194


No livro independente "A Religião na MPB", o artista plural Juscelino Filho analisa como a religião, ou melhor, as diversas religiões são abordadas na música popular brasileira. Para isso, explora as composições: "Gita", de Raul Seixas; "As caravanas", de Chico Buarque; "Pagu", de Rita Lee e Zélia Duncan; "Cajuína", de Caetano Veloso; "Canto de Ossanha", de Vinicius de Moraes; "Divina comédia humana", de Belchior; "Metal contra as nuvens", de Renato Russo; e "Se eu quiser falar com Deus", de Gilberto Gil.

O autor dedica um longo capítulo a cada uma dessas letras de música, pois não só as investiga, mas compartilha um verdadeiro estudo sobre essas pérolas do nosso cancioneiro. Ele traz uma contextualização bem aprofundada a respeito de tudo o que pode ter influenciado na concepção de cada obra. Não é por nada que, por exemplo, ao final do livro, há duas seções de referências utilizadas, uma para a bibliografia, outra para a discografia. E, de posse desse arcabouço teórico, relaciona esse material com os modos de expressão presentes nas composições.

Juscelino executa essas tarefas de forma tão envolvente que quaisquer leitores, mesmo aqueles que não apreciam os estilos musicais em questão, sentem-se impelidos a conhecer as canções elencadas e a, no mínimo, respeitá-las enquanto criações artísticas de enorme valor.

Além disso, como é um livro de estreia, seu escritor teve a sensibilidade de, no início, apresentar-se aos leitores e contar um pouco sobre a sua trajetória. Em seguida, expõe uma introdução convidativa ao tema proposto, antes de começar o seu desenvolvimento. Ou seja, apesar de ser uma autopublicação, que poderia trazer falhas e limitações, o criador do querido "Musicália" tomou cuidado para que tudo saísse perfeito, coeso e coerente com o que inteligentemente planejou. Se há brechas para críticas negativas, a mim passaram despercebidas.

Portanto, "A Religião na MPB" é uma leitura muito interessante e relevante, inclusive para instigar a valorização do que se elabora no Brasil. Também, por todas as suas qualidades, como o apuro do conteúdo levantado, não apenas correspondeu às minhas expectativas, como as ultrapassou com brilho. Ela é indicada para quem sinceramente gosta de música, ou, até mesmo, de arte e cultura em geral, e é despido de preconceitos tolos — o que não deixa de ser um pleonasmo, porque todo preconceito é tolo.


- Cantor, compositor, produtor, ator, dramaturgo e crítico musical, Juscelino Filho é o criador do canal no YouTube "Musicália", cujo conteúdo é dedicado à valorização da cultura, em especial da música brasileira, produzida no passado e no presente.


(Escrito em colaboração com Adilson Junior Pilotto.)

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

"O passarinho do contra: uma biografia de Mario Quintana", de Gustavo Grandinetti

Fiquei encantado por esta obra de Gustavo Grandinetti. De forma respeitosa, o autor nos apresenta uma narrativa viva sobre a história do maior poeta gaúcho. Quem conheceu Quintana ficará ainda mais apaixonado por essa figura inigualável. Quem não o conheceu ficará impressionado com o que irá encontrar nas páginas deste volume.

Grandinetti fez questão de conversar com as pessoas mais próximas do poeta, como Armindo Trevisan e Dulce Helfer, por exemplo, estratégia que proporciona um tom intimista a esta biografia. Além disso, mesmo sendo carioca, Gustavo parece extremamente gaúcho, pois retrata com fidelidade a nossa cultura, a nossa história, o nosso ambiente.

"O passarinho do contra" não entrega aos leitores muitas imagens. Porém, revela da melhor maneira possível quem era Mario Quintana, o que pensava, como se comportava, seu modus operandi. Também, esmiúça, de forma lindamente organizada, as publicações feitas pelo escritor, o que, de certo modo, ocasiona um problema ao público, tendo em vista que essa metodologia aguça demais a curiosidade para conhecer (ou revisitar) tudo o que Quintana escreveu.

Por isso, considero o título em questão uma leitura indispensável a qualquer indivíduo, pois sinto que todos temos a obrigação de conhecer pelo menos um pouco sobre um dos brasileiros mais singulares e preciosos que já existiram.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

"As Willis: sexo, morte e escaravelhos", de Carlos Gerbase



Muito mais do que pelo enredo do livro em si, adquiri um exemplar de "As Willis" por conta de seu autor, Carlos Gerbase, músico e cineasta que admiro desde a infância. E confesso que a história me surpreendeu.

As Willis são Mirtha, Irina, Margot, Maria, Madalena e, finalmente, Giselle: belas mulheres que morreram virgens e que, pela influência dos poderes do escaravelho sagrado, retornaram à vida — ou a algo similar a isso. O “porém” é que elas precisam adquirir energia sugando a vitalidade de suas vítimas, como os vampiros fazem, mas de uma maneira um pouco diferente.

A leitura da obra é muito instigante! A narrativa de Gerbase é deliciosa; a ambientação em Porto Alegre e região dá um charme especial, além de proporcionar uma sensação de pertencimento a quem reconhece os locais descritos; as críticas são inteligentes e hilárias; as referências culturais são um atrativo à parte; e a formatação em estilo acadêmico desafia e desacomoda o leitor.

Ao final, na seção de agradecimentos, o autor confessa que, primeiramente, projetava produzir um longa-metragem com esse roteiro, o qual se tornou uma minissérie nunca filmada, até transformar-se em literatura.

Ou seja, após ler o livro, sinto que deleitei-me demais com esse que, sem dúvidas, é um dos melhores títulos que já li. No entanto, depois de conhecer essas informações, fico imaginando as maravilhas que o cineasta Gerbase realizaria com essa narrativa. Que riqueza de possibilidades!

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

"Olhos de Mandrágora", de Ivy Menon


- Título: “Olhos de Mandrágora”
- Autora: Ivy Menon
- Editora: Patuá (SP)
- Ano de lançamento: 2024
- Nº. de páginas: 88


“Olhos de Mandrágora”, da escritora paranaense Ivy Menon, é um livro de poesia muito coeso em toda a sua concepção, desde o aspecto gráfico até a escolha e a organização dos poemas. Estes, por sua vez, são essencialmente curtos na extensão e profundamente longos na significação. Também, são similares na estrutura, assim como são coerentes na abordagem.

Em seus versos, a autora faz críticas sociais contundentes. Para isso, tece muitas analogias com aquilo que encontra na natureza. Ou, sendo mais específico, percebe-se que ela aprende com a vida selvagem e a ressignifica, emparelhando-a com aquilo que se pode testemunhar na selvageria cotidiana. 

Além disso, a linguagem estudada e empregada por Ivy é densa no limite, pois, por mais exigente que seja, consegue ser acessível aos seus leitores, que, em contrapartida, precisam trazer uma bagagem cultural prévia, como um certo conhecimento sobre mitologia, por exemplo.

Particularmente, adorei os versos de “centro”, “metafísica da angústia”, “lacaniana”, “ilusão”, “fantoche” e “temerário”. Por outro lado, fiquei absurdamente entusiasmado com os poemas “engano”, “platônico”, “caça”, “prometeu” e “ecos”. Neles, encontram-se pérolas como: “cupins não dançam balé clássico” (engano), “a luz cega mais que a escuridão” (platônico), “o pecado de ontem salva o dia seguinte” (caça), “alimenta a liberdade / que lhe devora as vísceras” (prometeu) e “a cidade jamais dorme / sequer cochila” (ecos).

Ou seja, “Olhos de Mandrágora” é uma obra lírica extremamente requintada em todos os seus detalhes, cujas páginas guardam ácidos tesouros literários que ninguém imaginaria terem saído de uma pessoa tão gentil quanto Ivy Menon. Mesmo que eu já tenha tido, há alguns anos, algum contato com trabalhos seus, sempre bastante críticos e criativos, sinto, agora, que ela está cada vez mais competente na composição de suas estrofes, bem como surge mais incisiva em suas denúncias sociais e nas palavras que escolhe para fazê-las. 

Portanto, este é um volume que encanta e, simultaneamente, incomoda, porque foi escrito para isso.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

"Enredar-se", de Joselma Noal


- Título: "Enredar-se"
- Autora: Joselma Noal
- Editora: Libertinagem (SP)
- Ano de lançamento: 2025
- Nº. de páginas: 68

Em "Enredar-se", Joselma Noal propõe ao leitor um mergulho em poemas que se entrelaçam como tentáculos, exalando “tintas de amor, de raiva, de anseio por viver, por recordar, por pensar o mundo, a escrita, a arte, a vida e a morte” (p. 65). A própria autora define sua obra como um convite a entrar na rede, e essa imagem se confirma na leitura, uma vez que cada poema é um fio que surpreende, prende e, ao mesmo tempo, ajuda a libertar.

A poesia aqui se apresenta como retratos instantâneos, como esquetes do cotidiano, e sempre plurissignificativa. Em textos curtos ou mais longos, Joselma constrói analogias que destroem a mesmice, como no pedido de que “as tonalidades venham fortes, e arrastem para baixo do tapete a monotonia nossa de cada dia” (p. 18). Há também momentos de delicadeza, em que um simples raio de sol se torna “afago, trégua nos dias nublados que demoraram a partir” (p. 27). O olhar da autora para o cotidiano é capaz de transformar o banal em reflexão, como nesta sugestão sobre o tempo, que “floresce uma só vez” e poderia ser cultivado em forma de sonhos, em vez de amarguras (p. 62-63).

Os poemas lembram os minicontos que a escritora também produz, pois são breves, incisivos, capazes de surpreender com poucas palavras. Essa economia verbal é uma marca de seu estilo, e nela reside a força de Joselma, especialista em provocar o inesperado. A poesia, assim, ganha ritmo e forma dentro da vida de cada leitor, dialogando com rotinas, com imagens recorrentes como a mulher, o mar, o pássaro, a gaiola, o corpo. São símbolos que se repetem e se transformam, proporcionando coesão e consistência ao livro.

Portanto, "Enredar-se" é um título que desafia quem o lê a se deixar capturar pelas malhas da poesia, onde cada verso é um convite à sensibilidade, ao imprevisto; a enxergar as nossas semelhanças, diferenças, particularidades, peculiaridades, enfim, o modo como absorvemos e lidamos com esta incontrolável, incompreensível, linda e desafiadora vida.


Quando é novembro
o amor paira pela praça,
cheira a pipoca e a papel.
E enquanto os poetas passarinhos
abençoam a primavera
de capas coloridas,
dos livros abertos
nascem asas
e pela praça
esparramam
palavras
voa
     do
          ras


(Página 26)

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

"Canções do Desoculta", de Pollyanna Carvalhaes

 



- Título: "Canções do Desoculta"
- Autora: Pollyanna Carvalhaes
- Editora: Chiado Books (SP)
- Ano de lançamento: 2021
- Nº. de páginas: 82


Publicado em 2021 pela Chiado Books, o livro "Canções do Desoculta", de Pollyanna Carvalhaes, reúne 82 páginas de poesia que se destacam pela combinação equilibrada entre poemas longos e curtos, todos trabalhados com um ritmo muito bem conduzido.

A autora demonstra grande competência ao tecer simbologias acessíveis, sem abrir mão da densidade poética, que nunca soa prepotente. Suas analogias são criativas e surpreendentes, fugindo do óbvio e convidando o leitor a mergulhar em novas possibilidades de sentido. Em seus poemas, ela parte de experiências individuais do eu lírico para alcançar dimensões universais, transformando situações particulares em reflexões que dialogam com o cotidiano de todos nós. Essa transição do íntimo para o coletivo é feita com leveza e astúcia, sendo reforçada pelo jogo com nuances de significado e pela sinalização gráfica que intensifica a expressividade dos poemas. Esse, aliás, é um dos aspectos mais marcantes da obra: o uso inventivo da forma, por meio da utilização de quebras de versos inesperadas e do emprego diferenciado das vírgulas, que criam cadências atraentes, prendem a atenção e tornam a leitura dinâmica.

A organização do volume é coesa e revela um planejamento cuidadoso, em que cada texto ocupa seu lugar de forma a compor um conjunto harmônico. Entre os poemas que mais se destacam estão “Insônia nua”, “Reza”, “Desenha-me uma boca”, “Um copo de corpo”, “Dormir só”, “Labirintite”, “Kamikaze”, “Lua Sangra”, “Quatro vias três segredos”, “Nó de luas nuas”, “Total” e “Carangueixa”, todos exemplos da força criativa da autora.

Portanto, "Canções do Desoculta" se apresenta como uma obra poética planejada em cada detalhe, desde a escrita até a disposição dos textos, oferecendo ao leitor uma experiência instigante e ao mesmo tempo suave. A leitura é inegavelmente agradável e demonstra uma poetisa capaz de surpreender pela originalidade e pela delicadeza com que constrói suas imagens. Para quem se aproxima do livro sem grandes expectativas, o resultado é uma grata surpresa, uma vez que a poesia de Pollyanna Carvalhaes fascina e encanta.

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

"Flor-essência", de Sofia Enderle Silva




- Título: "Flor-essência"
- Autora: Sofia Enderle Silva
- Editora: Filos (SC)
- Ano de lançamento: 2025
- Nº. de páginas: 116


Publicado em 2025 pela Filos Editora, "Flor-essência" é a estreia literária de Sofia Enderle Silva, uma autora de apenas 15 anos que já demonstra uma impressionante maturidade artística. A obra se divide em duas partes: “Poesia”, organizada cronologicamente entre os anos de 2021 e 2025, e “Prosa”, composta por cinco contos. 

Logo no início da leitura, percebe-se que Sofia não se limita à ingenuidade que se poderia esperar de uma escritora tão jovem. Pelo contrário, ela brinca com letras, fonemas, significados e formas, explorando disposições gráficas e sonoras que mexem com os sentidos e constroem uma poesia envolvente. Seus textos são profundos, nada óbvios, e muitas vezes se aproximam da prosa poética. Há ritmo, mas nem sempre rima; há sabedoria, e nunca superficialidade.  

Entre os poemas, destacam-se alguns que se tornaram meus favoritos, como: “Pássaros” (o primeiro que escreveu, aos 11 anos); “Hábito”; “Dependência”; “Diálogo”; “Ciclo”; “Nós e o tempo”; “O ouvido de Bárbara está inflamado e é minha culpa”; “Caindo”; “Eu, tu e nós”; “Entre o Céu e a Terra”; “Inércia”; “Todas as faces instrumentais de um relógio”; “Factual”; e “O homem”. Em todos eles, Sofia revela uma lucidez incomum para sua idade e para um contexto social marcado pela alienação, convidando o leitor a decifrar enigmas e jogos linguísticos que ela habilmente constrói.  

Quando se chega à seção de contos, o impacto é igualmente surpreendente, pois eles estão à altura das narrativas produzidas pelos melhores escritores do país. Surge, então, a dúvida inevitável: seria Sofia melhor poetisa ou contista? A resposta talvez seja que ela transita com igual segurança entre os dois gêneros.

A escrita de Sofia é encantadora e transformou "Flor-essência" em uma das obras poéticas mais marcantes que já li. O fascínio não reside apenas no fato de uma autora tão precoce manifestar tamanha qualidade (o que por si só já seria um atrativo), mas sobretudo na consistência de sua produção. Sua linguagem é acessível, porém, simultaneamente, instiga o leitor a pensar, a decifrar, a mergulhar nos labirintos que elabora com palavras. Por isso, discordo da afirmação de Gilnei Oleiro Corrêa que, na apresentação da obra, chamou-a de “voz promissora”. Para mim, Sofia Enderle Silva não é promessa, é realidade.

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

"A arte do guerreiro lúcido", de Octavio Caruso


- Título: "A arte do guerreiro lúcido"
- Autor: Octavio Caruso
- Editora: Jaguatirica (RJ)
- Ano de lançamento: 2017
- Nº. de páginas: 222
 
 
Em seu segundo livro, cujo título é "A arte do guerreiro lúcido", o escritor, crítico de cinema, ator, roteirista e cineasta carioca Octavio Caruso tece uma narrativa vivida por personagens, muitas vezes, nem tão fictícios, a exemplo do protagonista Antonio, alter ego literário do autor. Ele utiliza esse romance como plano de fundo para retratar o panorama brasileiro atual sob vários aspectos (político, cultural, educacional, moral).
 
Nas páginas desta obra, Caruso mescla realidade, ficção, passado, presente e futuro, explorando as possibilidades do gênero para provocar reflexões, identificar o papel do cinema na sociedade, seja no seu princípio ou agora, além de projetar a importância da sétima arte nos nossos próximos momentos históricos.
 
"A arte do guerreiro lúcido" traz, também, trechos de relevantes crônicas escritas por Octavio, assim como oferece aos leitores algumas das suas principais análises de filmes.
 
Em um trecho particularmente interessante que eu gostaria de ressaltar, o autor proporciona ainda um roteiro para introduzir o cinema na vida das crianças.
 
Por fim, concluo que esse livro mistura textos diversos (romance, crônica, crítica) de maneira muito criativa, desacomodando (ou instigando) o seu público, mostrando, sobretudo, o quanto Octavio Caruso é lúcido de verdade.

sábado, 22 de novembro de 2025

"Poeamo-me: poemas de amor e desamor próprio", de Paula Taitelbaum

"Poeamo-me" é uma das propostas poéticas mais impressionantes (e certamente a mais completa) que já tive a oportunidade de conhecer. Isso porque o kit que acompanha o livro escrito e ilustrado por Paula Taitelbaum inclui instruções para a realização de dinâmicas de grupo a partir da leitura dos poemas, assim como os materiais necessários para colocá-las em prática: uma linda "Sacola para Poeamar", um rolo de barbante vermelho, um bloco de folhas brancas e uma cola.

Lançado pela Editora Piu em 2024, "Poeamo-me: poemas de amor e desamor próprio" é uma coletânea de poemas já publicados no primeiro livro da escritora, "Eu Versos Eu", repaginados e complementados por instigantes ilustrações em vermelho. Os textos são, em sua maioria, curtos, fáceis de entender, porém criativos e provocantes, características que realmente os tornam super indicados para o trabalho com jovens.

E, como se isso fosse pouco, além do formato físico, a obra está disponível nos suportes digital e audiolivro (este de forma gratuita nas plataformas de áudio).

Portanto, "Poeamo-me" é um projeto brilhante, com poemas muito bem selecionados e planejado com carinho em todos os seus detalhes, configurando-se numa imersão poética inigualável.

domingo, 16 de novembro de 2025

"Destino leia-se sentido", de Gabriela Marcondes

Em "Destino leia-se sentido", Gabriela Marcondes apresenta uma criação literária que alia inovação e tradição, revelando-se como uma das vozes mais instigantes da literatura brasileira contemporânea. Sua produção é marcada por um jogo lúdico com a linguagem, no qual frases de outros autores são reinventadas, fragmentadas e ressignificadas, enquanto palavras são embaralhadas até darem origem a novos termos, em um gesto de brilhantismo surpreendente.

Gabriela dá um tom acessível e estimulante àquilo que poderia soar excessivamente experimental, tendo em vista que seus versos não intimidam, convidando o leitor a participar do jogo, explorando significados múltiplos a partir de vocábulos simples, trabalhados com engenho e delicadeza. 

A multiplicidade da autora (médica, poeta, artista visual e mestre em musicologia) transparece em cada página, pois sua criação é atravessada por uma sensibilidade que dialoga com diferentes áreas do conhecimento, resultando em uma escrita que é, simultaneamente, racional e sensorial.

O título já anuncia a proposta: "Destino leia-se sentido", porque, se misturarmos as letras que constituem a palavra “destino”, obteremos “sentido” — gesto que revela não apenas a busca por novos vocábulos, mas, sobretudo, de significados, prenunciando aquilo que acontece no decorrer das páginas deste livro.

Mais do que reafirmar a potência da palavra como matéria viva, a obra desafia quem a lê a repensar os caminhos da poesia atual. Pela ousadia formal e pela clareza de execução, Gabriela Marcondes se consolida como uma das escritoras mais inventivas de sua geração.

domingo, 9 de novembro de 2025

"Café & Foco", de Mauro José Santin




- Título: "Café e Foco: Crônicas Astro Lógicas"
- Autor: Mauro José Santin
- Editora: Edelbra/AEL (RS)
- Ano de lançamento: 2018
- Nº. de páginas: 248


"Café e Foco: Crônicas Astro Lógicas", de Mauro José Santin, é fruto de um percurso que começou em 2010, com o lançamento do livro "Educação para todas as vidas: um novo olhar para a vida, um rumo novo para a educação", e ganhou corpo no blog "Café e Foco", criado em 18 de janeiro de 2011. Esse espaço virtual, ainda ativo, tornou-se um repositório de reflexões em forma de versos e crônicas, que em 2018 resultaram neste livro.

A proposta já está anunciada no título: C – A – F – E, isto é, Ciência, Arte, Filosofia e Espiritualidade, com a Astrologia também presente como chave de leitura. O estilo de Mauro é único, pois seus textos não apenas transmitem ideias, mas são cuidadosamente estruturados para que a forma dos versos dialogue com o conteúdo, criando uma experiência estética e reflexiva.

Cada crônica lírica transcrita neste volume é um convite a pensar o instante vivido, seja quais forem os aspectos da vida humana abordados, sempre com um olhar atento ao tempo histórico em que foi escrita. Por isso, não é uma obra para ser lida de uma vez só; ao contrário, pede calma, digestão lenta, como um café forte que se saboreia aos poucos. Ler um texto por dia, assim, é uma maneira de respeitar o ritmo que o próprio autor defende, já que Mauro condena os excessos da pressa e da velocidade que marcam a vida contemporânea.

Um exemplo marcante é a publicação “Interdependência da Reconstrução”, de 22 de dezembro de 2015, em que o autor escreve: “A Cada Instante Sagrado, ao passar de cada dia AoBemSoado, fica mais evidente a Interdependência entre tudo e todos neste nosso Planeta super-habitado. Torna-se, assim, impossível olhar para o Planeta, que é apenas uma das muitas Moradas no Universo, sem usar o Coração como Luneta, sem perceber que é Único o Verso…”. Nesse texto, Mauro denuncia a exploração insaciável da Terra, a objetificação dos animais e até das próprias pessoas, chamando à reverência e à gratidão. Ao mesmo tempo, recorre à linguagem astrológica para propor uma transformação: Plutão, “o Grande Detetive”, paira sobre Capricórnio e nos pede “Conversão em lugar de Diversão, Justa Ação em lugar do Autoengano da Corrupção”. É um chamado à consciência, à autogestão e à mudança de postura diante da vida e do planeta.

Por conta disso, "Café e Foco: Crônicas Astro Lógicas" não é apenas uma coletânea de textos, mas um exercício de presença e de espiritualidade aplicada ao cotidiano. Mauro José Santin nos convida a olhar para o mundo com o “Coração como Luneta”, a perceber a interdependência entre tudo e todos e a mudar nossa relação com o tempo, com a Terra e conosco mesmos. É uma obra que pede calma, atenção e abertura — um café que aquece, desperta e inspira.