sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

"O Jardim das Oliveiras", de Adélia Prado

A obra poética "O Jardim das Oliveiras" foi lançada em 2025 pela mineira Adélia Prado e coincide com a celebração dos seus 90 anos.

Os inúmeros poemas apresentados neste volume são organizados nas seções "Esta memória forjada em pó de carvão e lágrimas", "As santas vulgaridades têm com certeza um anjo guardião", "Muito cuidado com o recém-nascido" e "Se alguém gritasse, pediria vassoura ou faca para a sangria", títulos que antecipam o conteúdo dos textos, seja em termos de linguagem, seja em relação às provocações propostas pela autora.

Os assuntos abordados podem ser identificados pelas dicotomias: Sagrado e Profano; Vida cotidiana e Vida espiritual; Angústias existenciais e Transcendência; Vida e Morte; Poesia e Espiritualidade; Dores e Graças (associadas ao divino); Tempo e Memória.

Como costuma ser observado no decorrer de sua bibliografia, aqui Adélia não busca rimas nem ritmo triviais, apenas, com o uso do vocabulário e das sentenças comuns, reinventar significados, percepções, conceitos, preconceitos, estereótipos, com muita riqueza e profundidade.

Por fim, cabe acrescentar que o intenso e instigante livro "O Jardim das Oliveiras" comprova que a poetisa em questão, com nove décadas de história, ainda lança trabalhos vigorosos, modernos e que tiram o público da zona de conforto, reafirmando que Adélia Prado merece todos os prêmios e elogios que recebe.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

"Hoje é meu aniversário", de Luciano Buniak




- Título: "Hoje é meu aniversário"
- Autor: Luciano Buniak
- Editora: Labrador (SP)
- Ano de lançamento: 2024
- N.º de páginas: 64


Cheguei a este livro por acaso. Estava procurando obras poéticas interessantes e acessíveis em uma loja virtual e me deparei com "Hoje é meu aniversário". Desde o primeiro contato com o título, senti que esse volume poderia me entregar tudo ou nada.

O primeiro impacto aconteceu no prefácio, no qual o autor afirma: "não sou poeta e este não é um livro de poemas". Na mesma seção, ele acrescenta que o livro é fruto de uma viagem que fez a Paris, em 2022, e dos estranhamentos que vivenciou por lá. A bem dizer, seus versos, surgidos já no meio de sua estadia na Cidade Luz, trazem suas impressões, sensações e sentimentos. Em suma, é o olhar poético não de um turista que vai a algum local badalado para ostentar o seu feito, mas de um ser humano que mudou temporariamente o seu contexto para experimentar e realmente ver se encontrava algo ou alguém diferente.

Nessa obra poética que foi uma surpresa para mim — e para o próprio escritor, que nunca havia planejado a sua concepção —, o leitor depara-se com versos avassaladores, como: "Em poucos dias perceberei que esta viagem / não será como imaginada, / que não serei bem-vindo, / que não serei benquisto aqui / nem ali, nem em lugar algum", "O sol forte do fim do verão / acentua a doce embriaguez de cada um", "Se ninguém mudasse de trajetória, haveria um choque / Nada mudou, houve um choque / [...] Um choque que se repetiu muitas vezes", "E minha vida? Congelada, pausada / À espera do retorno ao normal / O normal que nunca funcionou".

"Hoje é meu aniversário" soa como um verdadeiro diário de viagem, pois os poemas são organizados como tal. Mas é uma viagem pela vida, por si mesmo, pelo outro e também por Paris, sua gente, seus costumes e suas ruas. Fica claro que os textos trazem as percepções profundas do poeta numa lógica temporal (ao menos é o que a sequência dá a entender). Essa ordem é entremeada por provocantes gravuras feitas pelo próprio Luciano, que diz não ser poeta, não ser artista, mas que aqui surge superior a muitos que se nomeiam como tais.

Enfim, adorei ler esse pequeno volume poético, que sinceramente me transportou para a Paris de Luciano Buniak e suas viagens. É um projeto despretensioso que consegue ser uma construção poética consolidada, oferecendo ao público uma arte contemporânea inteligente e de reconhecível valor. Seu autor não subestima os leitores, embora nunca soe presunçoso — nem por ter morado alguns meses na França, nem por ter escrito poesia da melhor qualidade.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

"A Religião na MPB", de Juscelino Filho





- Título: "A Religião na MPB"
- Autor: Juscelino Filho
- Editora: Do Autor (SP)
- Ano de lançamento: 2025
- N.º de páginas: 194


No livro independente "A Religião na MPB", o artista plural Juscelino Filho analisa como a religião, ou melhor, as diversas religiões são abordadas na música popular brasileira. Para isso, explora as composições: "Gita", de Raul Seixas; "As caravanas", de Chico Buarque; "Pagu", de Rita Lee e Zélia Duncan; "Cajuína", de Caetano Veloso; "Canto de Ossanha", de Vinicius de Moraes; "Divina comédia humana", de Belchior; "Metal contra as nuvens", de Renato Russo; e "Se eu quiser falar com Deus", de Gilberto Gil.

O autor dedica um longo capítulo a cada uma dessas letras de música, pois não só as investiga, mas compartilha um verdadeiro estudo sobre essas pérolas do nosso cancioneiro. Ele traz uma contextualização bem aprofundada a respeito de tudo o que pode ter influenciado na concepção de cada obra. Não é por nada que, por exemplo, ao final do livro, há duas seções de referências utilizadas, uma para a bibliografia, outra para a discografia. E, de posse desse arcabouço teórico, relaciona esse material com os modos de expressão presentes nas composições.

Juscelino executa essas tarefas de forma tão envolvente que quaisquer leitores, mesmo aqueles que não apreciam os estilos musicais em questão, sentem-se impelidos a conhecer as canções elencadas e a, no mínimo, respeitá-las enquanto criações artísticas de enorme valor.

Além disso, como é um livro de estreia, seu escritor teve a sensibilidade de, no início, apresentar-se aos leitores e contar um pouco sobre a sua trajetória. Em seguida, expõe uma introdução convidativa ao tema proposto, antes de começar o seu desenvolvimento. Ou seja, apesar de ser uma autopublicação, que poderia trazer falhas e limitações, o criador do querido "Musicália" tomou cuidado para que tudo saísse perfeito, coeso e coerente com o que inteligentemente planejou. Se há brechas para críticas negativas, a mim passaram despercebidas.

Portanto, "A Religião na MPB" é uma leitura muito interessante e relevante, inclusive para instigar a valorização do que se elabora no Brasil. Também, por todas as suas qualidades, como o apuro do conteúdo levantado, não apenas correspondeu às minhas expectativas, como as ultrapassou com brilho. Ela é indicada para quem sinceramente gosta de música, ou, até mesmo, de arte e cultura em geral, e é despido de preconceitos tolos — o que não deixa de ser um pleonasmo, porque todo preconceito é tolo.


- Cantor, compositor, produtor, ator, dramaturgo e crítico musical, Juscelino Filho é o criador do canal no YouTube "Musicália", cujo conteúdo é dedicado à valorização da cultura, em especial da música brasileira, produzida no passado e no presente.


(Escrito em colaboração com Adilson Junior Pilotto.)

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

"O passarinho do contra: uma biografia de Mario Quintana", de Gustavo Grandinetti

Fiquei encantado por esta obra de Gustavo Grandinetti. De forma respeitosa, o autor nos apresenta uma narrativa viva sobre a história do maior poeta gaúcho. Quem conheceu Quintana ficará ainda mais apaixonado por essa figura inigualável. Quem não o conheceu ficará impressionado com o que irá encontrar nas páginas deste volume.

Grandinetti fez questão de conversar com as pessoas mais próximas do poeta, como Armindo Trevisan e Dulce Helfer, por exemplo, estratégia que proporciona um tom intimista a esta biografia. Além disso, mesmo sendo carioca, Gustavo parece extremamente gaúcho, pois retrata com fidelidade a nossa cultura, a nossa história, o nosso ambiente.

"O passarinho do contra" não entrega aos leitores muitas imagens. Porém, revela da melhor maneira possível quem era Mario Quintana, o que pensava, como se comportava, seu modus operandi. Também, esmiúça, de forma lindamente organizada, as publicações feitas pelo escritor, o que, de certo modo, ocasiona um problema ao público, tendo em vista que essa metodologia aguça demais a curiosidade para conhecer (ou revisitar) tudo o que Quintana escreveu.

Por isso, considero o título em questão uma leitura indispensável a qualquer indivíduo, pois sinto que todos temos a obrigação de conhecer pelo menos um pouco sobre um dos brasileiros mais singulares e preciosos que já existiram.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

"As Willis: sexo, morte e escaravelhos", de Carlos Gerbase



Muito mais do que pelo enredo do livro em si, adquiri um exemplar de "As Willis" por conta de seu autor, Carlos Gerbase, músico e cineasta que admiro desde a infância. E confesso que a história me surpreendeu.

As Willis são Mirtha, Irina, Margot, Maria, Madalena e, finalmente, Giselle: belas mulheres que morreram virgens e que, pela influência dos poderes do escaravelho sagrado, retornaram à vida — ou a algo similar a isso. O “porém” é que elas precisam adquirir energia sugando a vitalidade de suas vítimas, como os vampiros fazem, mas de uma maneira um pouco diferente.

A leitura da obra é muito instigante! A narrativa de Gerbase é deliciosa; a ambientação em Porto Alegre e região dá um charme especial, além de proporcionar uma sensação de pertencimento a quem reconhece os locais descritos; as críticas são inteligentes e hilárias; as referências culturais são um atrativo à parte; e a formatação em estilo acadêmico desafia e desacomoda o leitor.

Ao final, na seção de agradecimentos, o autor confessa que, primeiramente, projetava produzir um longa-metragem com esse roteiro, o qual se tornou uma minissérie nunca filmada, até transformar-se em literatura.

Ou seja, após ler o livro, sinto que deleitei-me demais com esse que, sem dúvidas, é um dos melhores títulos que já li. No entanto, depois de conhecer essas informações, fico imaginando as maravilhas que o cineasta Gerbase realizaria com essa narrativa. Que riqueza de possibilidades!

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

"Olhos de Mandrágora", de Ivy Menon


- Título: “Olhos de Mandrágora”
- Autora: Ivy Menon
- Editora: Patuá (SP)
- Ano de lançamento: 2024
- Nº. de páginas: 88


“Olhos de Mandrágora”, da escritora paranaense Ivy Menon, é um livro de poesia muito coeso em toda a sua concepção, desde o aspecto gráfico até a escolha e a organização dos poemas. Estes, por sua vez, são essencialmente curtos na extensão e profundamente longos na significação. Também, são similares na estrutura, assim como são coerentes na abordagem.

Em seus versos, a autora faz críticas sociais contundentes. Para isso, tece muitas analogias com aquilo que encontra na natureza. Ou, sendo mais específico, percebe-se que ela aprende com a vida selvagem e a ressignifica, emparelhando-a com aquilo que se pode testemunhar na selvageria cotidiana. 

Além disso, a linguagem estudada e empregada por Ivy é densa no limite, pois, por mais exigente que seja, consegue ser acessível aos seus leitores, que, em contrapartida, precisam trazer uma bagagem cultural prévia, como um certo conhecimento sobre mitologia, por exemplo.

Particularmente, adorei os versos de “centro”, “metafísica da angústia”, “lacaniana”, “ilusão”, “fantoche” e “temerário”. Por outro lado, fiquei absurdamente entusiasmado com os poemas “engano”, “platônico”, “caça”, “prometeu” e “ecos”. Neles, encontram-se pérolas como: “cupins não dançam balé clássico” (engano), “a luz cega mais que a escuridão” (platônico), “o pecado de ontem salva o dia seguinte” (caça), “alimenta a liberdade / que lhe devora as vísceras” (prometeu) e “a cidade jamais dorme / sequer cochila” (ecos).

Ou seja, “Olhos de Mandrágora” é uma obra lírica extremamente requintada em todos os seus detalhes, cujas páginas guardam ácidos tesouros literários que ninguém imaginaria terem saído de uma pessoa tão gentil quanto Ivy Menon. Mesmo que eu já tenha tido, há alguns anos, algum contato com trabalhos seus, sempre bastante críticos e criativos, sinto, agora, que ela está cada vez mais competente na composição de suas estrofes, bem como surge mais incisiva em suas denúncias sociais e nas palavras que escolhe para fazê-las. 

Portanto, este é um volume que encanta e, simultaneamente, incomoda, porque foi escrito para isso.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

"Enredar-se", de Joselma Noal


- Título: "Enredar-se"
- Autora: Joselma Noal
- Editora: Libertinagem (SP)
- Ano de lançamento: 2025
- Nº. de páginas: 68

Em "Enredar-se", Joselma Noal propõe ao leitor um mergulho em poemas que se entrelaçam como tentáculos, exalando “tintas de amor, de raiva, de anseio por viver, por recordar, por pensar o mundo, a escrita, a arte, a vida e a morte” (p. 65). A própria autora define sua obra como um convite a entrar na rede, e essa imagem se confirma na leitura, uma vez que cada poema é um fio que surpreende, prende e, ao mesmo tempo, ajuda a libertar.

A poesia aqui se apresenta como retratos instantâneos, como esquetes do cotidiano, e sempre plurissignificativa. Em textos curtos ou mais longos, Joselma constrói analogias que destroem a mesmice, como no pedido de que “as tonalidades venham fortes, e arrastem para baixo do tapete a monotonia nossa de cada dia” (p. 18). Há também momentos de delicadeza, em que um simples raio de sol se torna “afago, trégua nos dias nublados que demoraram a partir” (p. 27). O olhar da autora para o cotidiano é capaz de transformar o banal em reflexão, como nesta sugestão sobre o tempo, que “floresce uma só vez” e poderia ser cultivado em forma de sonhos, em vez de amarguras (p. 62-63).

Os poemas lembram os minicontos que a escritora também produz, pois são breves, incisivos, capazes de surpreender com poucas palavras. Essa economia verbal é uma marca de seu estilo, e nela reside a força de Joselma, especialista em provocar o inesperado. A poesia, assim, ganha ritmo e forma dentro da vida de cada leitor, dialogando com rotinas, com imagens recorrentes como a mulher, o mar, o pássaro, a gaiola, o corpo. São símbolos que se repetem e se transformam, proporcionando coesão e consistência ao livro.

Portanto, "Enredar-se" é um título que desafia quem o lê a se deixar capturar pelas malhas da poesia, onde cada verso é um convite à sensibilidade, ao imprevisto; a enxergar as nossas semelhanças, diferenças, particularidades, peculiaridades, enfim, o modo como absorvemos e lidamos com esta incontrolável, incompreensível, linda e desafiadora vida.


Quando é novembro
o amor paira pela praça,
cheira a pipoca e a papel.
E enquanto os poetas passarinhos
abençoam a primavera
de capas coloridas,
dos livros abertos
nascem asas
e pela praça
esparramam
palavras
voa
     do
          ras


(Página 26)

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

"Canções do Desoculta", de Pollyanna Carvalhaes

 



- Título: "Canções do Desoculta"
- Autora: Pollyanna Carvalhaes
- Editora: Chiado Books (SP)
- Ano de lançamento: 2021
- Nº. de páginas: 82


Publicado em 2021 pela Chiado Books, o livro "Canções do Desoculta", de Pollyanna Carvalhaes, reúne 82 páginas de poesia que se destacam pela combinação equilibrada entre poemas longos e curtos, todos trabalhados com um ritmo muito bem conduzido.

A autora demonstra grande competência ao tecer simbologias acessíveis, sem abrir mão da densidade poética, que nunca soa prepotente. Suas analogias são criativas e surpreendentes, fugindo do óbvio e convidando o leitor a mergulhar em novas possibilidades de sentido. Em seus poemas, ela parte de experiências individuais do eu lírico para alcançar dimensões universais, transformando situações particulares em reflexões que dialogam com o cotidiano de todos nós. Essa transição do íntimo para o coletivo é feita com leveza e astúcia, sendo reforçada pelo jogo com nuances de significado e pela sinalização gráfica que intensifica a expressividade dos poemas. Esse, aliás, é um dos aspectos mais marcantes da obra: o uso inventivo da forma, por meio da utilização de quebras de versos inesperadas e do emprego diferenciado das vírgulas, que criam cadências atraentes, prendem a atenção e tornam a leitura dinâmica.

A organização do volume é coesa e revela um planejamento cuidadoso, em que cada texto ocupa seu lugar de forma a compor um conjunto harmônico. Entre os poemas que mais se destacam estão “Insônia nua”, “Reza”, “Desenha-me uma boca”, “Um copo de corpo”, “Dormir só”, “Labirintite”, “Kamikaze”, “Lua Sangra”, “Quatro vias três segredos”, “Nó de luas nuas”, “Total” e “Carangueixa”, todos exemplos da força criativa da autora.

Portanto, "Canções do Desoculta" se apresenta como uma obra poética planejada em cada detalhe, desde a escrita até a disposição dos textos, oferecendo ao leitor uma experiência instigante e ao mesmo tempo suave. A leitura é inegavelmente agradável e demonstra uma poetisa capaz de surpreender pela originalidade e pela delicadeza com que constrói suas imagens. Para quem se aproxima do livro sem grandes expectativas, o resultado é uma grata surpresa, uma vez que a poesia de Pollyanna Carvalhaes fascina e encanta.

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

"Flor-essência", de Sofia Enderle Silva




- Título: "Flor-essência"
- Autora: Sofia Enderle Silva
- Editora: Filos (SC)
- Ano de lançamento: 2025
- Nº. de páginas: 116


Publicado em 2025 pela Filos Editora, "Flor-essência" é a estreia literária de Sofia Enderle Silva, uma autora de apenas 15 anos que já demonstra uma impressionante maturidade artística. A obra se divide em duas partes: “Poesia”, organizada cronologicamente entre os anos de 2021 e 2025, e “Prosa”, composta por cinco contos. 

Logo no início da leitura, percebe-se que Sofia não se limita à ingenuidade que se poderia esperar de uma escritora tão jovem. Pelo contrário, ela brinca com letras, fonemas, significados e formas, explorando disposições gráficas e sonoras que mexem com os sentidos e constroem uma poesia envolvente. Seus textos são profundos, nada óbvios, e muitas vezes se aproximam da prosa poética. Há ritmo, mas nem sempre rima; há sabedoria, e nunca superficialidade.  

Entre os poemas, destacam-se alguns que se tornaram meus favoritos, como: “Pássaros” (o primeiro que escreveu, aos 11 anos); “Hábito”; “Dependência”; “Diálogo”; “Ciclo”; “Nós e o tempo”; “O ouvido de Bárbara está inflamado e é minha culpa”; “Caindo”; “Eu, tu e nós”; “Entre o Céu e a Terra”; “Inércia”; “Todas as faces instrumentais de um relógio”; “Factual”; e “O homem”. Em todos eles, Sofia revela uma lucidez incomum para sua idade e para um contexto social marcado pela alienação, convidando o leitor a decifrar enigmas e jogos linguísticos que ela habilmente constrói.  

Quando se chega à seção de contos, o impacto é igualmente surpreendente, pois eles estão à altura das narrativas produzidas pelos melhores escritores do país. Surge, então, a dúvida inevitável: seria Sofia melhor poetisa ou contista? A resposta talvez seja que ela transita com igual segurança entre os dois gêneros.

A escrita de Sofia é encantadora e transformou "Flor-essência" em uma das obras poéticas mais marcantes que já li. O fascínio não reside apenas no fato de uma autora tão precoce manifestar tamanha qualidade (o que por si só já seria um atrativo), mas sobretudo na consistência de sua produção. Sua linguagem é acessível, porém, simultaneamente, instiga o leitor a pensar, a decifrar, a mergulhar nos labirintos que elabora com palavras. Por isso, discordo da afirmação de Gilnei Oleiro Corrêa que, na apresentação da obra, chamou-a de “voz promissora”. Para mim, Sofia Enderle Silva não é promessa, é realidade.

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

"A arte do guerreiro lúcido", de Octavio Caruso


- Título: "A arte do guerreiro lúcido"
- Autor: Octavio Caruso
- Editora: Jaguatirica (RJ)
- Ano de lançamento: 2017
- Nº. de páginas: 222
 
 
Em seu segundo livro, cujo título é "A arte do guerreiro lúcido", o escritor, crítico de cinema, ator, roteirista e cineasta carioca Octavio Caruso tece uma narrativa vivida por personagens, muitas vezes, nem tão fictícios, a exemplo do protagonista Antonio, alter ego literário do autor. Ele utiliza esse romance como plano de fundo para retratar o panorama brasileiro atual sob vários aspectos (político, cultural, educacional, moral).
 
Nas páginas desta obra, Caruso mescla realidade, ficção, passado, presente e futuro, explorando as possibilidades do gênero para provocar reflexões, identificar o papel do cinema na sociedade, seja no seu princípio ou agora, além de projetar a importância da sétima arte nos nossos próximos momentos históricos.
 
"A arte do guerreiro lúcido" traz, também, trechos de relevantes crônicas escritas por Octavio, assim como oferece aos leitores algumas das suas principais análises de filmes.
 
Em um trecho particularmente interessante que eu gostaria de ressaltar, o autor proporciona ainda um roteiro para introduzir o cinema na vida das crianças.
 
Por fim, concluo que esse livro mistura textos diversos (romance, crônica, crítica) de maneira muito criativa, desacomodando (ou instigando) o seu público, mostrando, sobretudo, o quanto Octavio Caruso é lúcido de verdade.

sábado, 22 de novembro de 2025

"Poeamo-me: poemas de amor e desamor próprio", de Paula Taitelbaum

"Poeamo-me" é uma das propostas poéticas mais impressionantes (e certamente a mais completa) que já tive a oportunidade de conhecer. Isso porque o kit que acompanha o livro escrito e ilustrado por Paula Taitelbaum inclui instruções para a realização de dinâmicas de grupo a partir da leitura dos poemas, assim como os materiais necessários para colocá-las em prática: uma linda "Sacola para Poeamar", um rolo de barbante vermelho, um bloco de folhas brancas e uma cola.

Lançado pela Editora Piu em 2024, "Poeamo-me: poemas de amor e desamor próprio" é uma coletânea de poemas já publicados no primeiro livro da escritora, "Eu Versos Eu", repaginados e complementados por instigantes ilustrações em vermelho. Os textos são, em sua maioria, curtos, fáceis de entender, porém criativos e provocantes, características que realmente os tornam super indicados para o trabalho com jovens.

E, como se isso fosse pouco, além do formato físico, a obra está disponível nos suportes digital e audiolivro (este de forma gratuita nas plataformas de áudio).

Portanto, "Poeamo-me" é um projeto brilhante, com poemas muito bem selecionados e planejado com carinho em todos os seus detalhes, configurando-se numa imersão poética inigualável.

domingo, 16 de novembro de 2025

"Destino leia-se sentido", de Gabriela Marcondes

Em "Destino leia-se sentido", Gabriela Marcondes apresenta uma criação literária que alia inovação e tradição, revelando-se como uma das vozes mais instigantes da literatura brasileira contemporânea. Sua produção é marcada por um jogo lúdico com a linguagem, no qual frases de outros autores são reinventadas, fragmentadas e ressignificadas, enquanto palavras são embaralhadas até darem origem a novos termos, em um gesto de brilhantismo surpreendente.

Gabriela dá um tom acessível e estimulante àquilo que poderia soar excessivamente experimental, tendo em vista que seus versos não intimidam, convidando o leitor a participar do jogo, explorando significados múltiplos a partir de vocábulos simples, trabalhados com engenho e delicadeza. 

A multiplicidade da autora (médica, poeta, artista visual e mestre em musicologia) transparece em cada página, pois sua criação é atravessada por uma sensibilidade que dialoga com diferentes áreas do conhecimento, resultando em uma escrita que é, simultaneamente, racional e sensorial.

O título já anuncia a proposta: "Destino leia-se sentido", porque, se misturarmos as letras que constituem a palavra “destino”, obteremos “sentido” — gesto que revela não apenas a busca por novos vocábulos, mas, sobretudo, de significados, prenunciando aquilo que acontece no decorrer das páginas deste livro.

Mais do que reafirmar a potência da palavra como matéria viva, a obra desafia quem a lê a repensar os caminhos da poesia atual. Pela ousadia formal e pela clareza de execução, Gabriela Marcondes se consolida como uma das escritoras mais inventivas de sua geração.

domingo, 9 de novembro de 2025

"Café & Foco", de Mauro José Santin




- Título: "Café e Foco: Crônicas Astro Lógicas"
- Autor: Mauro José Santin
- Editora: Edelbra/AEL (RS)
- Ano de lançamento: 2018
- Nº. de páginas: 248


"Café e Foco: Crônicas Astro Lógicas", de Mauro José Santin, é fruto de um percurso que começou em 2010, com o lançamento do livro "Educação para todas as vidas: um novo olhar para a vida, um rumo novo para a educação", e ganhou corpo no blog "Café e Foco", criado em 18 de janeiro de 2011. Esse espaço virtual, ainda ativo, tornou-se um repositório de reflexões em forma de versos e crônicas, que em 2018 resultaram neste livro.

A proposta já está anunciada no título: C – A – F – E, isto é, Ciência, Arte, Filosofia e Espiritualidade, com a Astrologia também presente como chave de leitura. O estilo de Mauro é único, pois seus textos não apenas transmitem ideias, mas são cuidadosamente estruturados para que a forma dos versos dialogue com o conteúdo, criando uma experiência estética e reflexiva.

Cada crônica lírica transcrita neste volume é um convite a pensar o instante vivido, seja quais forem os aspectos da vida humana abordados, sempre com um olhar atento ao tempo histórico em que foi escrita. Por isso, não é uma obra para ser lida de uma vez só; ao contrário, pede calma, digestão lenta, como um café forte que se saboreia aos poucos. Ler um texto por dia, assim, é uma maneira de respeitar o ritmo que o próprio autor defende, já que Mauro condena os excessos da pressa e da velocidade que marcam a vida contemporânea.

Um exemplo marcante é a publicação “Interdependência da Reconstrução”, de 22 de dezembro de 2015, em que o autor escreve: “A Cada Instante Sagrado, ao passar de cada dia AoBemSoado, fica mais evidente a Interdependência entre tudo e todos neste nosso Planeta super-habitado. Torna-se, assim, impossível olhar para o Planeta, que é apenas uma das muitas Moradas no Universo, sem usar o Coração como Luneta, sem perceber que é Único o Verso…”. Nesse texto, Mauro denuncia a exploração insaciável da Terra, a objetificação dos animais e até das próprias pessoas, chamando à reverência e à gratidão. Ao mesmo tempo, recorre à linguagem astrológica para propor uma transformação: Plutão, “o Grande Detetive”, paira sobre Capricórnio e nos pede “Conversão em lugar de Diversão, Justa Ação em lugar do Autoengano da Corrupção”. É um chamado à consciência, à autogestão e à mudança de postura diante da vida e do planeta.

Por conta disso, "Café e Foco: Crônicas Astro Lógicas" não é apenas uma coletânea de textos, mas um exercício de presença e de espiritualidade aplicada ao cotidiano. Mauro José Santin nos convida a olhar para o mundo com o “Coração como Luneta”, a perceber a interdependência entre tudo e todos e a mudar nossa relação com o tempo, com a Terra e conosco mesmos. É uma obra que pede calma, atenção e abertura — um café que aquece, desperta e inspira.

sexta-feira, 7 de novembro de 2025

"Neve negra", de Santiago Nazarian

Em "Neve negra", Santiago Nazarian narra a história de Bruno Schwarz, um artista plástico bem-sucedido que retorna à antiga casa da família, localizada em uma pequena cidade do interior de Santa Catarina, justamente em um dia de neve atípico. Desde o início, não é apenas o clima que se mostra fora do comum, pois o local tão (re)conhecido pelo pintor está enchendo a sua cabeça de perguntas.

O romance se constrói como um verdadeiro exercício de terror psicológico, em que paranoias, alucinações e dramas concretos se entrelaçam. Nazarian mistura lenda, mistério, isolamento, solidão e crise de identidade, ao mesmo tempo em que contrapõe o sucesso e o fracasso do protagonista. O resultado é uma narrativa que alterna entre suspense, poesia, humor e surrealismo, oscilando constantemente entre presente e passado, devaneio e realidade.  

Mais uma vez, surge a figura de Thomas Schimidt, alter ego literário do autor, que interage com as suas criaturas e oferece um divertido ingrediente ao livro.

Embora não seja a narrativa mais instigante que já li, "Neve negra" se revela interessante e em nenhum momento cansativa. Ao final da leitura, permanece a dúvida essencial: seriam os acontecimentos apenas alegorias criadas por Santiago, fruto da mente perturbada de Bruno Schwarz, ou experiências efetivamente vividas pelo personagem? Essa ambiguidade é o que sustenta a força do romance, deixando no leitor a inquietação própria do melhor terror psicológico.

domingo, 2 de novembro de 2025

"A viúva Simões", de Júlia Lopes de Almeida

O romance "A viúva Simões", de Júlia Lopes de Almeida, traz como personagem principal Ernestina, mulher madura e de beleza singular, cujo marido falecera recentemente, deixando-lhe muitas posses e a filha Sara, moça peculiar e fisicamente parecida com o pai.

No decorrer da narrativa, Ernestina descobre que Luciano, por quem fora apaixonada na juventude, estava retornando ao Brasil após longa estadia na Europa. E esse reencontro provoca o ressurgimento de antigos sentimentos em ambos, assim como reabre feridas mal curadas. Mas, para dificultar uma segunda chance entre os dois, intromete-se Sara, que zela demais pela memória do pai e pelo período de luto devido pela mãe.

Pode-se afirmar, então, que a história é interessante e convida à leitura, apresentando doses certas de suspense, romance, drama e, até mesmo, de um certo terror sobrenatural. Além disso, o terço final da obra é bastante surpreendente, muito embora possa parecer, de certa forma, arrastado e forçado demais, quase apelativo.

Contudo, não há nada que desabone esse tesouro da Literatura Brasileira, publicado no final do século XIX, pois, em suma, "A viúva Simões" revela um enredo competente, planejado e estudado, que, mesmo sendo antigo, ainda proporciona um especial deleite aos seus leitores.


sábado, 25 de outubro de 2025

"É tarde para saber", de Josué Guimarães

Li "É tarde para saber" pela primeira vez na escola, ainda durante o 1º grau (atual Ensino Fundamental). Lembrava-me de que era um romance trágico e de que fora um dos poucos livros que li com satisfação naquele período.

Hoje, relendo a obra com um novo olhar, achei-a boa, mas nada fantástica. Além disso, excetuando-se o risco iminente de um novo governo fascista de extrema-direita, percebi-a bastante datada, retratando especificamente a realidade da época em todos os seus aspectos.

Para quem não sabe, esse título narra a história de Mariana, menina rica moradora de Copacabana, e Cássio, menino pobre e enigmático. Ambos mantêm um relacionamento quase secreto.

Ao longo da narrativa, Josué Guimarães dá “tapas de luva” no regime militar, que era o máximo que poderia fazer naquela conjuntura política brasileira.

Enfim, "É tarde para saber" é um livro importante para a nossa literatura, principalmente na ocasião em que foi lançado, e que hoje nos diz muito sobre um momento histórico que parte da população do país prefere ignorar ou romantizar.

domingo, 19 de outubro de 2025

"8 passos para a reconstrução da esperança", de Octavio Caruso



- Título: "8 passos para a reconstrução da esperança"

- Autor: Octavio Caruso

- Editora: Estrada de Papel (PR)

- Ano de lançamento: 2025

- Nº. de páginas: 74


No livro “8 passos para a reconstrução da esperança”, o escritor, crítico de cinema, ator, produtor, roteirista e cineasta independente Octavio Caruso compara o panorama social que se descortinava durante a sua infância com o cenário distópico tristemente observável nos dias atuais. No decorrer das páginas, o autor carioca ilustra, com fortes argumentos, como os brasileiros estão prosseguindo ladeira abaixo enquanto seres humanos de valor, estando a sua vergonhosa maioria perdida, despencando sem perder a pose e o nariz empinado.

Por outro lado, apesar de escancarar a desfavorável realidade com elogiável lucidez, Octavio busca fazer a sua parte (como já vem realizando há muito tempo, aliás, por meio de seus espetaculares trabalhos), listando os oito passos que, segundo ele, permitiriam aos poucos cidadãos fora da curva voltarem a ter alguma esperança na humanidade.

O primeiro passo, “O resgate da gentileza”, aborda a maneira de agir grosseira, vil e egocêntrica testemunhada em quase todos os indivíduos na atualidade. Para o escritor, se as pessoas voltassem a ser gentis, tivessem mais empatia e pensassem mais no bem comum, e não só em satisfazer as necessidades fúteis e instantâneas dos seus sujos umbigos, teríamos uma sociedade visivelmente melhor.

O segundo passo, “A vergonha de ser burro”, trata a respeito de um aspecto que já percebo há algum tempo como professor: os estudantes não sentem mais vergonha de terem um mau desempenho escolar. Tirar uma nota ruim, o que antes era um motivo de desespero, hoje é algo recebido com a mais completa indiferença. Então, não saber é uma situação que não incomoda mais os seres humanos. O importante, para a massa, é arranjar formas de conseguir dinheiro com pouco esforço. Só é relevante aquilo que a levar a isso.

O terceiro passo, “Conservar é amar”, discorre sobre a cada vez mais ameaçada prática do colecionismo, capítulo que mexeu muito comigo. Pois, como sempre gostei demais de música, cinema e literatura, desde criança adquiro e conservo, com o maior zelo possível, CDs, DVDs, livros e gibis. E sinto-me desesperado com a notável “ditadura” virtual. Agora, só vale aquilo que pode ser acessado pela internet, tendo em vista que é o que a maior parte dos indivíduos consome. Sendo assim, os poucos adeptos do verdadeiro apreço à arte e à cultura que ainda não desistiram das mídias físicas estão a cada dia mais angustiados com o cerco que vem se fechando. Gradativamente, está ficando mais complicado de encontrar títulos em CD, LP e DVD, sobretudo de achar aparelhos de qualidade que rodem esses discos. E, concordando com Octavio, digo: a paixão pela mídia física, pelo garimpo cultural, é proporcional ao respeito que se tem pelo autoaprimoramento intelectual.

O quarto passo, “Ilumine o caminho”, também me sensibilizou, porque tece analogias com o papel do docente, que quase sempre é exaustivo, frustrante e infrutífero, mas que, nas raras ocasiões em que o plantio dá sinal de vida, provoca sensações inigualáveis. Aqui, Caruso afirma que não se pode mudar a mentalidade de alguém, restando somente iluminar o seu caminho, torcendo para que os demais acolham a oportunidade. (Porém, convenhamos que é uma tarefa hercúlea, visto que o único trajeto luminoso valorizado pela imensa maioria é a tela dos seus smartphones – as únicas peças estimadas em suas medíocres existências, sem as quais morreriam.)

Por sua vez, os outros quatro passos sugeridos pelo autor desta valorosa obra não são menos importantes do que os supracitados e contêm uma abundante dose de joias em suas linhas. Contudo, não tecerei comentários sobre todos eles, uma vez que o presente texto deseja convidar os leitores para que tenham a mesma rica experiência que eu tive ao devorar “8 passos para a reconstrução da esperança”, e não resumir o livro inteiro, tendo em vista que isso acomodaria o público e, consequentemente, iria contra ao que Octavio Caruso sustentou neste seu lançamento.

Resta-me, assim, encerrar esta análise (bem menos aprofundada do que as brilhantemente executadas pelo escritor da obra em questão) com as minhas considerações finais. Concluo, afirmando que este foi um dos melhores livros que já li em toda a minha vasta experiência como leitor, pois não só encontrei em suas páginas, quase em sua totalidade, ideias com as quais me identifico, como também desfrutei de um título escrito com paixão, primor, verdade e as ponderações feitas por alguém que sabe realmente do que está falando. Octavio mostrou-se um sensível observador daquilo e daqueles que o cercam, assim como, há tempos, revela-se um verdadeiro protagonista da nossa sociedade, a quem devemos maior atenção. E espero, sinceramente, que isso aconteça.

terça-feira, 14 de outubro de 2025

"Olívio", de Santiago Nazarian

- Título: "Olívio"
- Autor: Santiago Nazarian
- Editora: Talento (SP)
- Ano de lançamento: 2003
- Nº. de páginas: 144


“Olívio”, de Santiago Nazarian, é um romance de escrita criativa, poética e envolvente, que prende o leitor desde as primeiras páginas. O enredo é construído com competência e ritmo, resultando em uma leitura fluida, agradável e surpreendentemente fácil de acompanhar.

O protagonista Olívio cria uma ligação imediata com o leitor. Sua trajetória é marcada por perdas, confusões e recomeços, especialmente após ser abandonado por Rosalina, sua amada. Esse rompimento o desnorteia e o lança em uma série de situações dramáticas e misteriosas, sempre permeadas por questionamentos sobre seu papel no mundo e na sociedade.

Nazarian estrutura o romance de forma engenhosa: cada capítulo leva o nome de um personagem, de acordo com a relevância que esse exerce naquele instante da vida de Olívio. Esse recurso não apenas organiza a trama, mas também reforça a ideia de que a identidade do protagonista se constrói a partir dos encontros, desencontros e repetições que surgem em sua caminhada. Os personagens se confundem, retornam em diferentes momentos e se sobrepõem em coincidências que soam estranhamente familiares, como acontece no cotidiano de qualquer um de nós.

O destino, por sua vez, não poupa Olívio, ora o golpeando com dureza, ora o surpreendendo positivamente. Essa instabilidade evidencia o caráter existencialista da obra, que convida o leitor a refletir a respeito da necessidade de “reiniciar” a própria visão de mundo (e sobre o outro) diante das inevitáveis transformações da vida.

Sendo assim, “Olívio” é, sem dúvida, um dos melhores livros que já li, porque, mais do que uma desventura bem planejada e bem dividida, é uma experiência literária que combina lirismo, reflexão e humanidade em doses certeiras. Por outro lado, sou suspeito em afirmar qualquer coisa, pois fiquei completamente encantado pela escrita de Santiago, tanto por conta do seu primor em contar a história quanto pela poesia de sua narrativa, o que faço questão de reiterar.

quinta-feira, 9 de outubro de 2025

"O idioma das sombras", de Simone Bacelar

- Título: "O idioma das sombras"
- Autora: Simone Bacelar
- Editora: Cobalto (SP)
- Ano de lançamento: 2025
- Nº. de páginas: 148


Em “O idioma das sombras”, Simone Bacelar apresenta uma poesia de fôlego intenso, que se lê quase sem respirar, como se cada verso exigisse do leitor uma entrega total, sem espaço para distrações. Nada mais importa diante da força de sua escrita, que se constrói de modo brutalmente cru e, ao mesmo tempo, profundamente poético. A autora leva ao pé da letra o recurso essencial da arte poética: criar imagens, transformar sentidos, reinventar percepções. Suas analogias são únicas e fascinantes, e é justamente nelas que reside parte da originalidade de sua obra. A poética de Bacelar é simultaneamente moderna, ousada e diferente, mas não rompe com a tradição; ao contrário, dialoga com ela, respeitando-a, enquanto abre caminhos novos. O resultado é uma poesia acessível a qualquer leitor, porém suficientemente densa para provocar reflexão. Essa densidade, no entanto, não se apoia em vocabulário excludente ou em simbologias quase inacessíveis, e sim na lucidez e na consistência das ideias, gerando uma obra fora de série, verdadeiramente autêntica e estimulante. Cada palavra pode ser saboreada, e deixar um verso passar despercebido seria quase um crime. A leitura amplia positivamente a noção de como se pode fazer poesia, justamente porque foge do lugar-comum e oferece uma percepção sensível e particular das coisas, das pessoas, da sociedade, do tempo e do próprio fazer poético.

Os versos de Bacelar são incisivos, como em “um esforço jogado no ralo, / porque o ralo aceita qualquer coisa” (p. 15), ou em “um lampejo de esperança esmagado / como bituca de cigarro na calçada rachada” (p. 15), imagens que condensam a experiência humana em metáforas cotidianas, ao mesmo tempo simples e devastadoras. Em “Tem no bolso um maço de silêncio / e na alma um grito inteiro” (p. 30), a poetisa explora a tensão entre contenção e explosão, enquanto em “Ser autêntico é isso: / cuspir na cara do mundo / sem se importar / com quem limpa a sujeira depois” (p. 30) afirma uma postura de enfrentamento, que perpassa toda a obra. Há também espaço para delicadas ponderações, como em “Perdão, no chão do homem / não nasce como capim. / É lavra de quem entende / que a dor precisa ter fim” (p. 33), ou em “[…] aprendeu a desenhar / mapas de retorno sem jamais traçar rotas de fuga” (p. 34), versos que revelam maturidade e lucidez. O amor, tema recorrente, aparece despido de idealizações: “O amor não precisa ser bonito. / só precisa caber” (p. 36). Já em “Como se o ar não estivesse poluído / por pensamentos que não se dissipam” (p. 46), a escritora traduz a inquietação mental, e em “Ela lê, / não para escapar, / mas para entender por que ainda está aqui […]” (p. 53) transforma o ato da leitura em gesto existencial. A sabedoria de seus versos pode ser observada ainda em reflexões como “percebo que a paz / não é a ausência de ondas, / mas a aceitação / de que elas vêm e vão [...]” (p. 97), ou em “[…] sei que somos todos finitos, / como quem passa e já vira sombra na esquina” (p. 118), que reafirmam a consciência da transitoriedade da vida.

Entre os poemas que mais se destacam, estão “Uma dor que grita no silêncio”, “A mulher que carrega espelhos”, “Acervo”, “Sem promessas”, “Lição”, “Amanhece”, “O cotidiano respira”, “Aniversário de Jesus”, “Gratidão é coisa de dentro”, “A leitora”, “A dor que fala”, “O amor chega cambaleando”, “Felicidade”, “Cavalo selvagem”, “Estranha cidade a minha”, “Acordo com o sol nascendo”, “Alça de caixão”, “Testamento” e “Ela entra na livraria como quem invade”. Cada um deles, à sua maneira, confirma a amplitude temática e a versatilidade da autora, que transita entre o íntimo e o social, entre o efêmero e o eterno, entre a dor e a esperança.

Assim, “O idioma das sombras” não é apenas um livro de poemas, mas um convite a olhar o mundo com outros olhos — olhos que não temem a sombra e, em vez disso, encontram nela um idioma próprio, feito de lucidez, dor, amor e resistência. É por isso que, para mim, o avassalador volume em questão comprova aquilo que penso há algum tempo: a baiana Simone Bacelar é a voz mais notável da poesia brasileira contemporânea.



sexta-feira, 3 de outubro de 2025

"A senha do mundo", de Carlos Drummond de Andrade

"A senha do mundo" é um livro de poesia infantojuvenil muito bonito, cujos poemas nos transportam à infância — e, de certo modo, à própria vida — de outros tempos. Para temperar seus delicados versos drummondianos, a obra traz ilustrações originalmente publicadas nos periódicos ingleses do século XIX Chatterbox e British Workman.

É um título que sempre encontrei nas bibliotecas das escolas em que trabalho, de valor inestimável e, infelizmente, pouco lido pelos frequentadores desses preciosos locais.