quinta-feira, 5 de novembro de 2026

"Matilda", de Roald Dahl

Matilda é uma menina peculiar, uma leitora precoce em uma sociedade ignorante em todos os sentidos.

Lá pelas tantas, a garotinha descobre que possui a capacidade de mexer com o seu entorno e mudar a realidade.

Neste livro, Roald Dahl oferece aos leitores uma narrativa encantadora, que contrasta com a postura cruel adotada por quem deveria dar o exemplo.

É como se o autor sugerisse que a leitura civiliza e amadurece o ser humano, enquanto a falta dela embrutece e infantiliza os indivíduos.

Na história, Matilda é responsável e ponderada, enquanto seus pais e a diretora da escola são interesseiros, falsos, vis e inconsequentes.

Portanto, essa obra, cada vez mais moderna, é indicada tanto para o seu público oficial, o infantojuvenil, quanto para o público maiorzinho, que precisa aprender a ser adulto.

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

"Sentimento do mundo", de Carlos Drummond de Andrade

Lançado em 1940, "Sentimento do mundo" apresenta, com o perdão da redundância, exatamente o sentimento do mundo daquela época, em plena Segunda Guerra Mundial, da qual Drummond não se alheia nem se omite. O poeta retrata ao leitor todo o mal-estar que se vivia naquele tempo, permitindo que retornemos a ele e o experimentemos. É um livro muito sinestésico!

Dentre os que mais me marcaram, destaco os poemas "Privilégio do mar", "Madrigal lúgubre", "Elegia 1938", "Mundo grande" e "Ode no cinquentenário do poeta brasileiro" (no qual o autor homenageia o colega Manuel Bandeira).

"Sentimento do mundo", afinal, traz um Drummond diferente, mas não deixa de ser drummondiano. Logo, é excelente!


quinta-feira, 22 de outubro de 2026

"O monstro que se chamava Cala a Boca", de Luiza Alves



- Título: "O monstro que se chamava Cala a Boca"
- Autora: Luiza Alves
- Ilustrador: Bruno Veiga (Dhama)
- Ano de lançamento: 2026
- Número de páginas: 20

Entre o medo da rejeição e as marcas deixadas por palavras descuidadas, "O monstro que se chamava Cala a Boca" retrata o isolamento de um protagonista incompreendido. Com humor, leveza e sensibilidade, o livro explora o encontro com o monstro Boca Suja para nos lembrar da responsabilidade da linguagem, da força do altruísmo e da arte de saber quando e como falar.

Neste seu primeiro livro infantil, a multifacetada psicóloga, musicista, escritora e editora gaúcha Luiza Alves brinda os leitores com uma narrativa relevante, certamente fundamentada em sua bagagem profissional e conduzida por uma impressionante criatividade. Trata-se de uma história de leitura rápida, mas que permanece ecoando na mente de quem a aprecia de verdade.

A obra também é graficamente muito instigante. As ilustrações criadas por Bruno Veiga não apenas complementam o texto, como também estimulam visualmente o público ao fugirem do tradicional, pois os desenhos são modernos e expressivos, compostos por uma paleta vibrante de cores fortes — imagens marcantes, que não pretendem soar necessariamente "fofinhas".

O texto verbal, todo grafado em caixa-alta, apresenta bom tamanho e uma estética que remete à escrita manual, recurso que amplia o alcance do livro e acolhe indivíduos de diversas idades.

O material da edição física é durável e de excelente qualidade, uma vez que o acabamento grampeado combina-se a páginas densas e plastificadas, perfeitamente preparadas para o manuseio constante dos pequenos leitores sem demonstrar desgaste.

Portanto, "O monstro que se chamava Cala a Boca" é uma publicação de grande valor, capaz de encantar todas as idades e especialmente indicada para crianças maiores e pré-adolescentes. Seu enredo deixa lições valiosas sobre o incentivo à liberdade de expressão, o respeito à pluralidade de opiniões e a reflexão sobre a importância do bom senso ao decidir quando e como usar o dom da palavra.


quinta-feira, 15 de outubro de 2026

“Vó Folhinha – Colecionadora do tempo”, de Fabiano Tadeu Grazioli




- Título: “Vó Folhinha – Colecionadora do tempo”
- Autor: Fabiano Tadeu Grazioli
- Ilustrador: Eloar Guazzelli
- Editora: Edelbra (RS)
- Ano de lançamento: 2026
- Número de páginas: 136


“Vó Folhinha – Colecionadora do tempo”, escrito por Fabiano Tadeu Grazioli, é um resgate afetuoso das lembranças da infância, da avó colecionadora de calendários e do seu universo singular. Na obra, os calendários, quase agendas, marcavam de tudo: alegrias e tristezas, festejos e tragédias. Mais do que isso, eram eles que organizavam toda a rotina e a vida da família da Vó Folhinha.

Grazioli nos conta essa história em capítulos que se aproximam da crônica, estabelecendo uma relação direta entre o tempo registrado nas folhinhas e a trajetória familiar, também descrita em episódios. Tudo é narrado sob a ótica ingênua, questionadora e sincera de uma criança. Nesse contexto, o autor revela como, desde pequeno, já se mostrava seduzido pelas palavras e por suas inúmeras possibilidades.

A narrativa aborda a resiliência e a necessidade de seguir adiante, apesar das dificuldades e dos golpes que a vida e as pessoas nos impõem. É um livro que fala sobre cuidado, cortesia e a importância de cada um fazer a sua parte, demonstrando, inclusive, como, muitas vezes, as crianças têm atitudes e posturas bem mais racionais do que os adultos.

O texto traz uma linguagem poética e bastante sinestésica, muito típica da forma como nos recordamos da infância. Além do conteúdo, o livro é esteticamente lindo, pois as ilustrações de Eloar Guazzelli são extremamente significativas, complementares ao texto verbal e repletas de personalidade.

Muito bem escrito, “Vó Folhinha – Colecionadora do tempo” é classificado como literatura infantojuvenil, mas creio que a obra encantará especialmente os adultos jovens de coração, isto é, aqueles que ainda não se deixaram endurecer pela vida.

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

"Uma primavera talvez", de Claudino Pilotto

Lançado em 1986, "Uma primavera talvez" é o primeiro livro do saudoso poeta Claudino Pilotto, natural de Viadutos (RS).

Este é também o primeiro livro do autor que leio, embora já o conhecesse de nome havia muitos anos. Ainda na época de faculdade, a igualmente saudosa professora e poetisa Vera Beatriz Sass, um ser humano incrível que me ensinou tudo o que sei sobre poesia, pediu-me: “Guilherme, nunca pare de escrever. Alguns dos principais poetas da região desistiram de publicar, como o Claudino Pilotto e eu. Por isso, não desista você também.” E, certamente, a minha querida Profe Vera não imaginara quantas vezes essa lembrança voltaria à minha mente e o quanto ela seria importante para que eu não parasse de lançar livros.

Mas voltemos ao Claudino. A obra é dividida em três partes, sendo a última voltada à poesia gauchesca. Ao longo de suas páginas, Pilotto demonstra ter sido um escritor muito competente, pois utiliza os versos para abordar os mais variados assuntos, sob diferentes perspectivas.

Ou seja, "Uma primavera talvez" é um bom livro do gênero lírico, que marca, com notável propriedade, a estreia do bardo proveniente do Alto Uruguai gaúcho.

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

"Da lama ao caos: que som é esse que vem de Pernambuco?", de José Teles

Também biógrafo do saudoso e genial músico pernambucano Chico Science, o jornalista José Teles aborda, neste livro, principalmente a concepção do primeiro álbum de estúdio do influente grupo Chico Science & Nação Zumbi, o absolutamente relevante "Da lama ao caos".

No entanto, para tratar do disco, Teles também discorre sobre o surgimento da banda, os passos posteriores ao álbum e a repercussão de "Da lama ao caos" em diferentes cenários musicais, além de narrar a trajetória do próprio Chico, figura realmente central em todo esse processo.

O volume não é extenso, mas, considerando seu conteúdo, é muito rico em informações. Uma leitura adorável!

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

"O Mito da Caverna", de Platão

Presente no Livro VII da obra A República, "O Mito da Caverna" é fundamental não só para a Filosofia, mas para a sociedade humana de forma geral. Essa alegoria, criada pelo grego Platão, discípulo de Sócrates — ambos pilares da Filosofia Ocidental —, tem a capacidade de permanecer atual; parece que fica cada vez mais viva e faz cada vez mais sentido com o passar do tempo.

Por meio de seu mito, o pensador originário da Grécia Antiga nos faz refletir sobre ignorância, conhecimento, liberdade, responsabilidade, alienação, manipulação, dominação, doutrinação e efeito manada, entre outros temas. Podemos utilizá-lo, por exemplo, em relação à cultura, à educação, à política, ao entretenimento de massa — como a televisão, o rádio e a internet —, e especialmente às redes sociais.

Sendo assim, posso afirmar que o leitor se torna um indivíduo diferente após essa leitura, pois ela transforma a sua postura diante de si mesmo e daqueles que o cercam.

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

“Vida de gado: trinta anos pastando no jornalismo”, de Tom Cardoso




- Título: “Vida de gado: trinta anos pastando no jornalismo”
- Autor: Tom Cardoso
- Editora: Rua do Sabão (SP)
- Ano de lançamento: 2026
- Nº.  de páginas: 172


Há volumes literários que enchem seus leitores de palavras. Este, por sua vez, deixa-os sem palavras, tamanho é o deslumbramento provocado não apenas por sua qualidade, mas também pela ousadia ao expor algumas das passagens aqui contadas.

Nesta divertida e curiosa obra, o jornalista Tom Cardoso, de quem eu já havia lido a excelente biografia “Ninguém pode com Nara Leão”, narra situações sempre surpreendentes, ora pelo humor, ora pela melancolia, vividas na companhia de ilustres figuras que cruzaram sua trajetória de três décadas no jornalismo.

Nas páginas de “Vida de gado”, Tom retrata o lado menos glamouroso e, ao mesmo tempo, mais inusitado da imprensa brasileira. Ao fazê-lo, oferece ao público uma visão pitoresca de uma realidade que exige do indivíduo não apenas boa capacidade de leitura, mas também um vasto conhecimento de mundo. Isso porque não entrega nada mastigado (apesar do título), contando com a inteligência e a cultura de quem tem em mãos esse seu lançamento.

Confesso que dei várias gargalhadas ao longo destas histórias, que, entretanto, não me conquistaram apenas pela graça. A escrita de Tom é primorosa, ágil e espirituosa, capaz de provocar no leitor as mais diversas reações – façanha alcançada por poucos artistas das letras. O humor, aqui, não é mero recurso para entreter, pois, muitas vezes, serve também para revelar o absurdo, a vaidade, a precariedade e até a estafa escondidos nas situações narradas.

Entre os verbetes presentes no livro, os que mais me fascinaram foram Caetano Veloso, Lobão, Marilyn Manson, Miele, Pastor Valdemiro, Paulinho da Viola, Roberto Carlos, Wilson Simonal e Zé Celso. A diversidade desses nomes dá uma boa medida da amplitude do universo percorrido por Tom Cardoso e da riqueza de (des)encontros que uma longa carreira jornalística pode proporcionar.

No fim das contas, “Vida de gado” passa longe de ser um mero arquivo de anedotas de redação, tendo em vista que, nele, Tom Cardoso transforma suas três décadas de batente em pura literatura, provando que, com o talento certo para a observação, até mesmo os anos “pastando” na profissão podem render um livro absolutamente irresistível.

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

"Squirt", de Telma Scherer




- Título: "Squirt"
- Autora: Telma Scherer
- Editora: Terra Redonda (SP)
- Ano de lançamento: 2021
- N.º de páginas: 88


"Squirt", de Telma Scherer, é construído por meio de poemas longos e prosas poéticas, sem dar título aos seus textos, uma escolha estética que parece ter sido pensada justamente para não fornecer pistas fáceis ou caminhos antecipados ao leitor. Conduzido por temas profundamente femininos, o livro explora sentimentos, sensações e pontos de vista sob essa ótica. Além disso, fala muito sobre as relações humanas, dedicando um foco especial e literal àquelas que se encontram doentes.

Sua leitura revela uma escrita de caráter denso, mas que se mantém acessível o tempo todo. A poesia de Telma é visceral, despudorada e empoderada, e, acima de tudo, muito humana. Ela se sustenta na força de imagens potentes e em uma intertextualidade refinada e nada óbvia, na qual a autora não hesita em recorrer a elementos escatológicos para dar materialidade aos seus versos. Nesse sentido, chama muito a atenção a forma como seus versos dialogam com diversas formas de arte, principalmente as visuais. Em vários momentos, fica evidente que a autora produz seus poemas de maneira análoga ao seu processo com a pintura: ela realiza recortes significativos na linguagem e, em seguida, os ressignifica com tinta, com suor, com sangue.

Por isso, recomendo "Squirt" para quem procura uma poesia corajosa, que disseca a vulnerabilidade dos vínculos com maturidade e sem idealizações. É a escolha certa para quem busca uma literatura forte e imagética, na qual a palavra alcança o humano orgânico para criar uma experiência de leitura intensa e provocadora.

sábado, 29 de agosto de 2026

"A Noiva de Ravel", de L. S. Oliveira




- Título: “A Noiva de Ravel”
- Autor: L. S. Oliveira
- Editora: M.inimalismos (SP)
- Ano de lançamento: 2025
- N.º de páginas: 112


Ravel é um jovem humilde que alimenta, durante anos, uma paixão silenciosa e, aparentemente, impossível por Beatriz, a jovem dona da beleza mais sublime de toda a cidade.

Quando Ravel acreditava que a sorte finalmente estivesse a seu favor, a vida lhe desferiu o golpe mais baixo e humilhante que alguém poderia receber.

Considerando a sua existência completamente arruinada, o rapaz promete a si mesmo devolver todo o mal aos seus algozes. Para isso, não medirá esforços, aguardando com exatidão e paciência o momento certo para resolver cada situação e cobrar a sua dívida.

A narrativa proporcionada aos leitores pelo perspicaz escritor L. S. Oliveira é, a um só tempo, instigante e impactante. A história de Ravel, que certamente provocará a identificação daqueles que se sentem oprimidos de alguma forma, questiona conceitos sociais, expõe as mazelas brasileiras e exemplifica como o dinheiro e o poder manipulam as ações em nosso país, dando a entender que a justiça, sob essa ótica, é sempre parcial.

O estilo de escrita do autor permite que o público com maior bagagem cultural estabeleça ricas intertextualidades com outras obras. Particularmente, reconheci uma forte conexão com os primeiros filmes do cineasta José Mojica Marins, sobretudo na atmosfera que envolve o célebre personagem Zé do Caixão.

Creio que as perguntas que permanecem ecoando ao final da leitura sejam: Ravel é um herói, um anti-herói ou um vilão? Esse protagonista promoveu vingança ou justiça?

Para finalizar, recomendo este título àqueles que admiram histórias chocantes, mas que não se chocam com facilidade. Além disso, reitero que essa leitura é estritamente indicada para maiores de 18 anos, tendo em vista a presença de conteúdos sensíveis para faixas etárias inferiores.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

"Paulo Sant'Ana: o gênio indomável", de Márcio Pinheiro

No volume em questão, o jornalista Márcio Pinheiro concretiza um honroso texto biográfico a respeito do inegavelmente merecedor personagem Paulo Sant'Ana, que foi, de verdade, um gênio da crônica gaúcha.

Os leitores do Rio Grande do Sul liam as colunas de Sant'Ana antes do restante do jornal não só porque elas dialogavam de maneira perspicaz com o seu cotidiano, mas também por conta do carisma hipnótico dessa entidade do nosso estado.

Onde Paulo (ou Pablo) estivesse, seria o centro das atenções, pois, além da inteligência ímpar que possuía, temperada por um uso invejável da língua, ele detinha um magnetismo universal, tendo em vista que dominava todos os públicos. Num local dominado por chimangos e maragatos, gremistas e colorados, Sant'Ana era uma unanimidade.

E Márcio Pinheiro conta a história desse ícone de maneira notavelmente competente e respeitosa, enaltecendo as qualidades tamanhas do polivalente homenageado, assim como salientando os seus perturbadores defeitos.

Márcio fala da criança, do jovem, do adulto, do idoso. Discorre sobre o cronista, o radialista, o comentarista, o gremista, o político, o cantor. Inclui o viciado, o jogador, o herói, o vilão. Todos esses fatores, Pinheiro exemplifica com deliciosos dizeres do próprio Sant'Ana.

Ou seja, ele não deixa passar nada, bem ao estilo de Paulo Sant'Ana!

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

"Marcelino Pão e Vinho", de José María Sánchez-Silva

Livro que deu origem ao inesquecível filme homônimo de 1955, "Marcelino Pão e Vinho" aborda a história de um menino órfão criado por frades que estabelece uma curiosa ligação com Jesus Cristo.

Para mim, este é um dos poucos casos em que o filme supera o livro. Não que a obra literária seja ruim; mas, na minha opinião, a narrativa é contada organizando os fatos de maneira estranha. Por sua vez, o longa-metragem apresenta-se sublime, irretocável ou, utilizando uma alusão cristã, impecável.

Por conta disso, recomendo a leitura deste volume escrito por Sánchez-Silva para aqueles que, assim como eu, são fãs do filme dos anos 50.

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

“Máquinas moem sentimentos (Sob o foco do luar)”, de Rogério Salgado

 

 

- Título: “Máquinas moem sentimentos (Sob o foco do luar)”
- Autor: Rogério Salgado
- Editora: Baroni Edições (MG)
- Ano de lançamento: 2026
- N.º de páginas: 28


Neste ano, a Baroni Edições lança a “Coleção Plaquete”, composta por nove livretos individuais contemplando o gênero lírico.

O volume 1 apresenta ao público o título “Máquinas moem sentimentos (Sob o foco do luar)”, de autoria do consagrado poeta mineiro Rogério Salgado, escritor com cinco décadas de trajetória.

Embora breve, o livro é inesgotável, pois sua poesia se degusta e se aprecia, tal como um bom disco. Nestas páginas, Rogério brinda o leitor com versos que encantam por suas qualidades, representativas da moderníssima lira brasileira, que comunica com e sem palavras, com e sem rimas, pelo uso inovador da língua e da linguagem poética, assim como pela instigante conversa com a tradição.

Em “Máquinas moem sentimentos”, Salgado nos fala a respeito da nossa vida automatizada e virtual, da nostalgia pelo que passou, da solidão, da morte, da infância, da velhice, do Brasil e da política. Faz referência a Vivaldi, Bach, Mário de Sá-Carneiro e a ícones da cultura popular. Além disso, expõe poemas com excepcionalidades, como os que foram escritos em parceria e outros que foram musicados.

É possível, nesta obra, encontrar preciosidades como: “dizer palavras já não importa / sem que se tenha milhões de seguidores” (“Máquinas moem sentimentos”, p. 5); “preciso que me sintas / como a poesia sente / a presença do poeta” (“Ode”, p. 9); “quando eu tiver que partir / quero ser menino novamente / brincando ao volante da imaginação” (“Poema lusitano”, p. 14); “voar é sobrepor / alcançar o céu / retirar os véus / que o impedem de sonhar” (“Pássaro de Aruá”, p. 15); “aqui apesar de tanta poluição / ainda posso respirar a liberdade” (“A minha terra”, p. 16). Aliás, dentre todos, os poemas de que mais gostei foram “Máquinas moem sentimentos”, “Ode”, “Poema lusitano”, “Pássaro de Aruá”, “A minha terra”, “Fantoches”, “Canto de desatar nossos nós” e “Inspiração”.

Portanto, o livreto em questão é capaz de sensibilizar até mesmo os indivíduos que não estão habituados à poesia, pois apresenta linguagem e imagens acessíveis, que dialogam com o cotidiano e com a travessia de qualquer brasileiro. Recomendo com sinceridade os poemas de Rogério Salgado, cujos versos são uma aula de lirismo, ludicidade e lucidez.

sábado, 8 de agosto de 2026

"Monstros: o dilema do fã", de Claire Dederer

O ensaio "Monstros: o dilema do fã", escrito por Claire Dederer, busca responder à indagação que tem sido bastante discutida: é possível separar a obra do artista?

Para explorar o assunto, a autora expõe comportamentos terríveis de parte de grandes expoentes do cinema, da literatura, da música, das artes plásticas. Além disso, questiona valores da sociedade, sejam de décadas passadas, sejam de agora, que, por vezes, permitiam determinadas condutas.

Ainda, o livro traz reflexões pertinentes e bem fundamentadas, costuradas por uma linha de pensamento coerente que sabe onde quer chegar.

É uma leitura muito interessante, mas, em diversas ocasiões, incômoda, pois realmente tira o leitor da zona de conforto: mexe com preconcepções e instiga o consumo desacomodado e consciente de obras de arte.

Por fim, trago uma percepção que eu já tinha anteriormente, que foi ricamente abordada por Claire:


"Queremos que o canalha ultrapasse os limites, que quebre as regras. Recompensamos essa quebra de regras e, em seguida, damos um passo adiante e a vemos como endêmica à própria produção de arte. [...] Não apenas porque os guardiões, editores e diretores de estúdios são tradicionalmente homens, mas também porque nós precisamos de enredo e ação. Ansiamos por acontecimentos!

[...]

[...] Fingir que não existe fascínio por homens ruins é escamotear a realidade. As mulheres ao redor desses homens se amontoam como lenha. [...] A vida é uma chatice. Com um vilão por perto, é muito provável que alguma coisa aconteça." (p. 150-151)

terça-feira, 28 de julho de 2026

"A face poética da morte", de Angelo Asson




- Título: “A face poética da morte”
- Autor: Angelo Asson
- Ano de lançamento: 2022
- N.º de páginas: 68


"A face poética da morte" é uma obra inegavelmente atraente. A curiosidade já é despertada ao nos depararmos com a capa, de uma beleza ímpar, repleta de belíssimas ilustrações em tons quentes que remetem à celebração do Día de los Muertos, no México.

É justamente essa a proposta do escritor paulista Angelo Asson neste volume: discorrer sobre as diversas faces do passamento, explorando com sensibilidade e leveza os múltiplos recursos da poesia.

De minha parte, fiquei inicialmente fascinado pelos textos introdutórios — aqui compreendidos a quarta capa, a orelha e o prefácio, intitulado "abrindo a cova". Os três demonstram a capacidade discursiva do autor e o seu potencial para envolver o leitor desde as primeiras páginas.

Os poemas, por sua vez, estão organizados em cinco interessantes seções ("o que é a vida?", "tentando entender", "desvarios", "contando as horas" e "descendo o ataúde"), todas abertas por uma brilhante quadra que funciona como introdução ao conjunto de textos.

Ao longo do livro, Asson explora a poesia por meio dos sons e dos significados, produzindo versos de notável inspiração. Sua escrita é simples e impactante, buscando comover o leitor, e não se autopromover. Em seus versos, o autor sublinha a nossa efemeridade, o caráter repentino da morte e a imprevisibilidade tanto da vida quanto da própria finitude, dimensões que escapam ao nosso controle.

O livro se encerra com um perspicaz posfácio, nomeado como "epitáfio", no qual Angelo sintetiza, de maneira bastante feliz, os principais temas desenvolvidos ao longo da obra.

Após concluir esta leitura, posso afirmar que "A face poética da morte" é um título minuciosamente planejado, que reúne uma poesia muito bem construída, capaz de conquistar os mais diversos leitores, ao mesmo tempo em que suscita pertinentes reflexões sobre um tema inerente à condição humana.

Entre todos os poemas, os meus favoritos foram: "Tralha", "Vazio", "Faça barulho!", "Doce vida", "A morte das palavras", "Espetado", "O que é a vida?", "Lágrimas", "Fim de tarde", "Preparando a gente", "As cápsulas vazias", "Quem escolhe" e "Retrato".




quinta-feira, 23 de julho de 2026

"A Princesinha", de Frances Hodgson Burnett

Fiquei maravilhado ao assistir ao filme "A Princesinha", dirigido por Alfonso Cuarón e lançado em 1995. Tanto que, logo em seguida, adquiri o livro no qual o filme foi baseado.

Confesso que, durante a leitura das primeiras páginas, não havia me empolgado muito com a obra, e quase a abandonei. Até por conta de alguns preconceitos nada escondidos nas linhas da narrativa, como: "[...] Eu tenho o cabelo curto, preto e olhos verdes; além do mais, sou uma criança magra e estou longe de ter a pele clara. Sou uma das crianças mais feias que ela já viu. [...]" (p. 12). Ao ser caracterizada dessa forma, fiquei imaginando também por que Sara, a personagem principal, foi interpretada por uma menina branca, de lindos e expressivos olhos azuis e de cachos dourados (um novo preconceito?).

O volume escrito por Frances Hodgson Burnett é, em si mesmo, cheio de contradições que revelam uma autora bem-intencionada, mas, por outro lado, presa a concepções de sua época hoje inaceitáveis. Ao mesmo tempo em que lamenta profundamente que crianças passem fome, valoriza a riqueza e o poder, assim como o respeito e a influência que deles decorrem, enaltecendo, ainda, minas de diamante e casacos de pele.

Além disso, o livro tem por foco a humanidade de Sara, que trata a todos igualmente; porém, ao longo da narrativa, há diversos trechos em que a autora usa estereótipos, sejam intelectuais, sejam físicos, para julgar as personagens.

No entanto, essa obra literária, apesar de seus cada vez mais perceptíveis defeitos, encanta de verdade ao contar a história de Sara Crewe, uma menina rica que se torna pobre da noite para o dia, embora continue demonstrando a mesma nobreza de caráter.

Admito que a narrativa do filme agradou-me mais do que a do livro. Por outro lado, isso não desmerece as páginas escritas por Frances, que estão repletas de trechos interessantes, como:


"— Arrisco a dizer que é bem difícil ser um rato [...]. Ninguém gosta de você. As pessoas pulam, saem correndo e gritam: 'Oh, um rato horrível!' [...] Mas ninguém perguntou a este rato se ele queria ser um rato quando foi feito. [...]" (p. 103)


"Como os animais entendem as coisas é algo que desconheço, mas é certo que eles entendem. Talvez haja uma linguagem que não seja feita de palavras e tudo no mundo a compreenda. Talvez exista uma alma dentro de tudo que consiga sempre falar com outra alma, sem emitir um som sequer. Porém, qualquer que fosse a razão, o rato soube naquele momento que estava a salvo, mesmo sendo um rato. Sabia que esta jovem humana sentada no banquinho vermelho não iria pular e aterrorizá-lo com barulhos selvagens nem atirar nele objetos pesados que, se não o esmagassem, o fariam voltar correndo e mancando para seu buraco. Ele era realmente um rato muito bom e não pretendia causar o menor dano. [...]" (p. 103-104)


Apesar de suas contradições, "A Princesinha" continua sendo uma história profundamente tocante. Talvez seja justamente por reunir virtudes e limitações tão humanas (e por enxergar dignidade até nos seres mais desprezados, como o rato Melquisedeque) que a obra siga despertando encanto e reflexão mais de um século após sua publicação.

sábado, 11 de julho de 2026

"50 Anos de Sonho e de Sangue", de Juscelino Filho e Carla Cruz

 



- Título: “50 Anos de Sonho e de Sangue”
- Autores: Juscelino Filho e Carla Cruz
- Ano de lançamento: 2026
- N.º de páginas: 287


Neste livro, os excelentes Juscelino Filho e Carla Cruz dissecam o álbum “Alucinação”, lançado pelo saudoso músico cearense Belchior, obra que completa cinquenta anos de existência em 2026.

Os autores dão início ao texto relatando as suas primeiras experiências com o artista, discorrendo sobre como e quando conheceram a sua música. A partir daí, inserem o contexto de surgimento e produção do disco. Além disso, após descreverem os pormenores dos responsáveis por essa concepção, eles abordam as principais influências do período. Logo, contextualizam o mundo do cantor naquele momento, escaneando a evolução das letras, da parte instrumental e da harmonia presentes no título homenageado.

O ponto central da leitura é o longo exame de cada canção. É feito um estudo aprofundado sobre a criação poética e sonora de todas as faixas: “Apenas um rapaz latino-americano”, “Velha roupa colorida”, “Como nossos pais”, “Sujeito de sorte”, “Como o diabo gosta”, “Alucinação”, “Não leve flores”, “A palo seco”, “Fotografia 3x4” e “Antes do fim”.

Para concluir o volume, são incluídos, ainda, diagramas que esmiúçam a estrutura dessas composições, bem como um material interativo bônus, que pode ser conferido na plataforma de vídeo YouTube.

Sendo assim, pode-se afirmar que “50 Anos de Sonho e de Sangue: Uma análise do álbum Alucinação” é um registro indicado tanto para aqueles que já apreciam o repertório de Belchior quanto para as pessoas que desejam descobrir mais a respeito dele. Há material para quem busca perspectivas mais aprofundadas, como também há conteúdo para os leitores que chegam às páginas por mera curiosidade.

sexta-feira, 10 de julho de 2026

"Ensaios criativos", de Luiza Alves



- Título: “Ensaios criativos”
- Autora: Luiza Alves
- Editora: Fomento Literário (SP)
- Ano de lançamento: 2025
- N.º de páginas: 84


Este primeiro livro da psicóloga, musicista e escritora gaúcha Luiza Alves é muito instigante! Nele, a autora expõe de forma espontânea e criativa tudo o que se passa na cabeça e no coração. São pequenos poemas e prosas poéticas, cujas reflexões nos convidam a entrar na intimidade de Luiza, que nos auxilia nesse processo anexando ao livro fotografias de tudo aquilo que é importante para ela, inclusive para o seu processo de criação.

Os textos de “Ensaios criativos” provocam um impacto imediato, o que fortalece a sua capacidade de cativar os leitores. Além disso, sendo curtos, nunca são breves, pois ressoam em nossas vivências diárias. Em suas páginas, Luiza aborda inúmeros temas, como colecionismo, suportes de escrita, importância da escrita, onirismo, comportamentos sociais, sentimentos, trajetórias, escolhas, arte, perspectivas, entre outros.

Alguns dos poemas que mais me encantaram foram: “Artifícios”, “Tara por cadernos”, “Diário”, “Sonho”, “Eu me permito escrever”, “Prestatividade”, “Preserve-herança”, “Caderneta de bordo”, “A raiva em mim”, “Tempo de vida”, “Caminho incerto”, “Por onde andam as tuas flores?”, “Arranha-céu”, “Acalento”, “Só”, “Drama” e “Contar histórias”.

O livro traz questões psicológicas, cenas cotidianas e proporciona uma leitura muito envolvente. Tem um tom filosófico, assim como um tom lúdico. As fotografias entremeadas aos textos realmente enriquecem a experiência de leitura. A criatividade nas composições de Luiza é latente, e “Ensaios criativos”, embora pareça uma obra curta, é imensamente rica. Aqui, essa artista demonstra que tem tempo para contemplar, mas não tem tempo a perder.

Para finalizar, é preciso salientar que a escrita de Luiza só não é melhor do que as suas canções, que estou escutando no fone de ouvido, comovido, enquanto escrevo esta resenha.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

“Versículos para momentos difíceis (ou não)”, de Pietra Seráfico

 



“Versículos para momentos difíceis (ou não)” é um verdadeiro mimo! Publicado pela escritora e bookstan cristã Pietra Seráfico, é um livro de bolso que apresenta ao leitor salmos selecionados e organizados por temas, buscando aproximá-lo das escrituras e facilitar os seus momentos de fé em situações de aflição, ou não – como propõe o título.

Além disso, oferece às pessoas espaços para reflexões e a escrita de orações a respeito de cada salmo proposto, tornando-se, com isso, não só uma ferramenta de amparo à religiosidade, mas também de encontro com a sua crença particular, tendo em vista que incentiva os leitores a pensarem por si mesmos, a adequarem a religião às necessidades ligadas a suas próprias trajetórias.

Ou seja, num mundo tão urgente e perturbador, livros como esse da Pietra permitem que a fé faça mais sentido na vida dos indivíduos, porque auxiliam cada um de nós a compreender melhor as Escrituras, de uma forma mais cativante e acessível.


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Guilherme Mossini Mendel: Como se deu a escolha dos salmos para a organização desta obra?

Pietra Seráfico: Os que mais falaram comigo e conversaram ao meu coração foram os escolhidos.


GMM: Depois do lançamento de “Devocional Pensamentos”, qual é a intenção com este livro?

PS: Na verdade, publicá-lo foi uma grande surpresa até para mim. Eu o fiz há muitos anos, o achei recentemente e resolvi postar!


GMM: Por que foi feita a opção por lançar um belíssimo livro de bolso?

PS: Por ser um livro muito bíblico, queria que fosse algo fácil de carregar, para que haja sempre espaço e tempo para Deus em nossas rotinas.


GMM: De que maneira você percebe que livros como os seus atuam na aproximação das pessoas com a religiosidade?

PS: Creio que a forma como me coloco como ser humano que sofre e, mesmo assim, não perde a fé me humaniza diante dos leitores, fazendo com que percebam que não precisamos da perfeição para buscar a Deus.


GMM: Como você espera que “Versículos para momentos difíceis (ou não)” sirva de incentivo para que os leitores revisitem a Bíblia?

PS: Quero que este livro seja a porta de entrada para que cada vez mais as pessoas sintam despertar em seu coração a curiosidade por Cristo e, claro, busquem conhecê-lo mais profundamente.


terça-feira, 30 de junho de 2026

"Microlândia: As aventuras dos superátomos", de Patricia Keder Sandim Reis




- Título: “Microlândia: As aventuras dos superátomos”
- Autora: Patricia Keder Sandim Reis
- Editora: Ases da Literatura (SC)
- Ano de lançamento: 2025
- N.º de páginas: 52


O que acontece quando uma competente professora de Ciências une uma habilidade inata e responsavelmente trabalhada para contar histórias ao notável domínio do conteúdo que ensina em sala de aula há anos? Surge “Microlândia: As aventuras dos superátomos”, narrativa em que os átomos Rui, Tininha e Dito juntam seus talentos para manter o equilíbrio do lugar. Juntos, eles enfrentam vilões que facilmente associamos a figuras (famosas e anônimas) do nosso cotidiano.

Nesta cativante obra literária, Patricia Keder ensina sobre os átomos de forma lúdica, mas também aborda o respeito às diferenças, a empatia, a união, a autoestima e o trabalho comunitário, valências cada vez mais essenciais em nosso mundo. Com isso, a autora demonstra ser uma profissional atenta não apenas ao conhecimento científico transmitido aos jovens, mas também à formação dos cidadãos que construirão o amanhã do nosso planeta.

Ao longo de “Microlândia: As aventuras dos superátomos”, encontramos não apenas uma narrativa convidativa e estruturada em capítulos – o que facilita a experiência para todos os públicos –, mas também ilustrações atraentes e significativas, assinadas por Tayline Cristensen.

Por fim, vale ressaltar que a edição concebida pela Editora Ases da Literatura contribui para o sucesso da proposta, entregando ao seu público principal, as crianças, um material que além de belo, é bastante durável.


* Patricia Keder Sandim Reis é licenciada em Ciências Biológicas, Química e Pedagogia, com especializações em Neurociência, Neuropsicologia e Neuropsicopedagogia.