segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

"A Religião na MPB", de Juscelino Filho





- Título: "A Religião na MPB"
- Autor: Juscelino Filho
- Editora: Do Autor (SP)
- Ano de lançamento: 2025
- N.º de páginas: 194


No livro independente "A Religião na MPB", o artista plural Juscelino Filho analisa como a religião, ou melhor, as diversas religiões são abordadas na música popular brasileira. Para isso, explora as composições: "Gita", de Raul Seixas; "As caravanas", de Chico Buarque; "Pagu", de Rita Lee e Zélia Duncan; "Cajuína", de Caetano Veloso; "Canto de Ossanha", de Vinicius de Moraes; "Divina comédia humana", de Belchior; "Metal contra as nuvens", de Renato Russo; e "Se eu quiser falar com Deus", de Gilberto Gil.

O autor dedica um longo capítulo a cada uma dessas letras de música, pois não só as investiga, mas compartilha um verdadeiro estudo sobre essas pérolas do nosso cancioneiro. Ele traz uma contextualização bem aprofundada a respeito de tudo o que pode ter influenciado na concepção de cada obra. Não é por nada que, por exemplo, ao final do livro, há duas seções de referências utilizadas, uma para a bibliografia, outra para a discografia. E, de posse desse arcabouço teórico, relaciona esse material com os modos de expressão presentes nas composições.

Juscelino executa essas tarefas de forma tão envolvente que quaisquer leitores, mesmo aqueles que não apreciam os estilos musicais em questão, sentem-se impelidos a conhecer as canções elencadas e a, no mínimo, respeitá-las enquanto criações artísticas de enorme valor.

Além disso, como é um livro de estreia, seu escritor teve a sensibilidade de, no início, apresentar-se aos leitores e contar um pouco sobre a sua trajetória. Em seguida, expõe uma introdução convidativa ao tema proposto, antes de começar o seu desenvolvimento. Ou seja, apesar de ser uma autopublicação, que poderia trazer falhas e limitações, o criador do querido "Musicália" tomou cuidado para que tudo saísse perfeito, coeso e coerente com o que inteligentemente planejou. Se há brechas para críticas negativas, a mim passaram despercebidas.

Portanto, "A Religião na MPB" é uma leitura muito interessante e relevante, inclusive para instigar a valorização do que se elabora no Brasil. Também, por todas as suas qualidades, como o apuro do conteúdo levantado, não apenas correspondeu às minhas expectativas, como as ultrapassou com brilho. Ela é indicada para quem sinceramente gosta de música, ou, até mesmo, de arte e cultura em geral, e é despido de preconceitos tolos — o que não deixa de ser um pleonasmo, porque todo preconceito é tolo.


- Cantor, compositor, produtor, ator, dramaturgo e crítico musical, Juscelino Filho é o criador do canal no YouTube "Musicália", cujo conteúdo é dedicado à valorização da cultura, em especial da música brasileira, produzida no passado e no presente.


(Escrito em colaboração com Adilson Junior Pilotto.)

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

"O passarinho do contra: uma biografia de Mario Quintana", de Gustavo Grandinetti

Fiquei encantado por esta obra de Gustavo Grandinetti. De forma respeitosa, o autor nos apresenta uma narrativa viva sobre a história do maior poeta gaúcho. Quem conheceu Quintana ficará ainda mais apaixonado por essa figura inigualável. Quem não o conheceu ficará impressionado com o que irá encontrar nas páginas deste volume.

Grandinetti fez questão de conversar com as pessoas mais próximas do poeta, como Armindo Trevisan e Dulce Helfer, por exemplo, estratégia que proporciona um tom intimista a esta biografia. Além disso, mesmo sendo carioca, Gustavo parece extremamente gaúcho, pois retrata com fidelidade a nossa cultura, a nossa história, o nosso ambiente.

"O passarinho do contra" não entrega aos leitores muitas imagens. Porém, revela da melhor maneira possível quem era Mario Quintana, o que pensava, como se comportava, seu modus operandi. Também, esmiúça, de forma lindamente organizada, as publicações feitas pelo escritor, o que, de certo modo, ocasiona um problema ao público, tendo em vista que essa metodologia aguça demais a curiosidade para conhecer (ou revisitar) tudo o que Quintana escreveu.

Por isso, considero o título em questão uma leitura indispensável a qualquer indivíduo, pois sinto que todos temos a obrigação de conhecer pelo menos um pouco sobre um dos brasileiros mais singulares e preciosos que já existiram.

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

"As Willis: sexo, morte e escaravelhos", de Carlos Gerbase



Muito mais do que pelo enredo do livro em si, adquiri um exemplar de "As Willis" por conta de seu autor, Carlos Gerbase, músico e cineasta que admiro desde a infância. E confesso que a história me surpreendeu.

As Willis são Mirtha, Irina, Margot, Maria, Madalena e, finalmente, Giselle: belas mulheres que morreram virgens e que, pela influência dos poderes do escaravelho sagrado, retornaram à vida — ou a algo similar a isso. O “porém” é que elas precisam adquirir energia sugando a vitalidade de suas vítimas, como os vampiros fazem, mas de uma maneira um pouco diferente.

A leitura da obra é muito instigante! A narrativa de Gerbase é deliciosa; a ambientação em Porto Alegre e região dá um charme especial, além de proporcionar uma sensação de pertencimento a quem reconhece os locais descritos; as críticas são inteligentes e hilárias; as referências culturais são um atrativo à parte; e a formatação em estilo acadêmico desafia e desacomoda o leitor.

Ao final, na seção de agradecimentos, o autor confessa que, primeiramente, projetava produzir um longa-metragem com esse roteiro, o qual se tornou uma minissérie nunca filmada, até transformar-se em literatura.

Ou seja, após ler o livro, sinto que deleitei-me demais com esse que, sem dúvidas, é um dos melhores títulos que já li. No entanto, depois de conhecer essas informações, fico imaginando as maravilhas que o cineasta Gerbase realizaria com essa narrativa. Que riqueza de possibilidades!

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

"Olhos de Mandrágora", de Ivy Menon


- Título: “Olhos de Mandrágora”
- Autora: Ivy Menon
- Editora: Patuá (SP)
- Ano de lançamento: 2024
- Nº. de páginas: 88


“Olhos de Mandrágora”, da escritora paranaense Ivy Menon, é um livro de poesia muito coeso em toda a sua concepção, desde o aspecto gráfico até a escolha e a organização dos poemas. Estes, por sua vez, são essencialmente curtos na extensão e profundamente longos na significação. Também, são similares na estrutura, assim como são coerentes na abordagem.

Em seus versos, a autora faz críticas sociais contundentes. Para isso, tece muitas analogias com aquilo que encontra na natureza. Ou, sendo mais específico, percebe-se que ela aprende com a vida selvagem e a ressignifica, emparelhando-a com aquilo que se pode testemunhar na selvageria cotidiana. 

Além disso, a linguagem estudada e empregada por Ivy é densa no limite, pois, por mais exigente que seja, consegue ser acessível aos seus leitores, que, em contrapartida, precisam trazer uma bagagem cultural prévia, como um certo conhecimento sobre mitologia, por exemplo.

Particularmente, adorei os versos de “centro”, “metafísica da angústia”, “lacaniana”, “ilusão”, “fantoche” e “temerário”. Por outro lado, fiquei absurdamente entusiasmado com os poemas “engano”, “platônico”, “caça”, “prometeu” e “ecos”. Neles, encontram-se pérolas como: “cupins não dançam balé clássico” (engano), “a luz cega mais que a escuridão” (platônico), “o pecado de ontem salva o dia seguinte” (caça), “alimenta a liberdade / que lhe devora as vísceras” (prometeu) e “a cidade jamais dorme / sequer cochila” (ecos).

Ou seja, “Olhos de Mandrágora” é uma obra lírica extremamente requintada em todos os seus detalhes, cujas páginas guardam ácidos tesouros literários que ninguém imaginaria terem saído de uma pessoa tão gentil quanto Ivy Menon. Mesmo que eu já tenha tido, há alguns anos, algum contato com trabalhos seus, sempre bastante críticos e criativos, sinto, agora, que ela está cada vez mais competente na composição de suas estrofes, bem como surge mais incisiva em suas denúncias sociais e nas palavras que escolhe para fazê-las. 

Portanto, este é um volume que encanta e, simultaneamente, incomoda, porque foi escrito para isso.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

"Enredar-se", de Joselma Noal


- Título: "Enredar-se"
- Autora: Joselma Noal
- Editora: Libertinagem (SP)
- Ano de lançamento: 2025
- Nº. de páginas: 68

Em "Enredar-se", Joselma Noal propõe ao leitor um mergulho em poemas que se entrelaçam como tentáculos, exalando “tintas de amor, de raiva, de anseio por viver, por recordar, por pensar o mundo, a escrita, a arte, a vida e a morte” (p. 65). A própria autora define sua obra como um convite a entrar na rede, e essa imagem se confirma na leitura, uma vez que cada poema é um fio que surpreende, prende e, ao mesmo tempo, ajuda a libertar.

A poesia aqui se apresenta como retratos instantâneos, como esquetes do cotidiano, e sempre plurissignificativa. Em textos curtos ou mais longos, Joselma constrói analogias que destroem a mesmice, como no pedido de que “as tonalidades venham fortes, e arrastem para baixo do tapete a monotonia nossa de cada dia” (p. 18). Há também momentos de delicadeza, em que um simples raio de sol se torna “afago, trégua nos dias nublados que demoraram a partir” (p. 27). O olhar da autora para o cotidiano é capaz de transformar o banal em reflexão, como nesta sugestão sobre o tempo, que “floresce uma só vez” e poderia ser cultivado em forma de sonhos, em vez de amarguras (p. 62-63).

Os poemas lembram os minicontos que a escritora também produz, pois são breves, incisivos, capazes de surpreender com poucas palavras. Essa economia verbal é uma marca de seu estilo, e nela reside a força de Joselma, especialista em provocar o inesperado. A poesia, assim, ganha ritmo e forma dentro da vida de cada leitor, dialogando com rotinas, com imagens recorrentes como a mulher, o mar, o pássaro, a gaiola, o corpo. São símbolos que se repetem e se transformam, proporcionando coesão e consistência ao livro.

Portanto, "Enredar-se" é um título que desafia quem o lê a se deixar capturar pelas malhas da poesia, onde cada verso é um convite à sensibilidade, ao imprevisto; a enxergar as nossas semelhanças, diferenças, particularidades, peculiaridades, enfim, o modo como absorvemos e lidamos com esta incontrolável, incompreensível, linda e desafiadora vida.


Quando é novembro
o amor paira pela praça,
cheira a pipoca e a papel.
E enquanto os poetas passarinhos
abençoam a primavera
de capas coloridas,
dos livros abertos
nascem asas
e pela praça
esparramam
palavras
voa
     do
          ras


(Página 26)

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

"Canções do Desoculta", de Pollyanna Carvalhaes

 



- Título: "Canções do Desoculta"
- Autora: Pollyanna Carvalhaes
- Editora: Chiado Books (SP)
- Ano de lançamento: 2021
- Nº. de páginas: 82


Publicado em 2021 pela Chiado Books, o livro "Canções do Desoculta", de Pollyanna Carvalhaes, reúne 82 páginas de poesia que se destacam pela combinação equilibrada entre poemas longos e curtos, todos trabalhados com um ritmo muito bem conduzido.

A autora demonstra grande competência ao tecer simbologias acessíveis, sem abrir mão da densidade poética, que nunca soa prepotente. Suas analogias são criativas e surpreendentes, fugindo do óbvio e convidando o leitor a mergulhar em novas possibilidades de sentido. Em seus poemas, ela parte de experiências individuais do eu lírico para alcançar dimensões universais, transformando situações particulares em reflexões que dialogam com o cotidiano de todos nós. Essa transição do íntimo para o coletivo é feita com leveza e astúcia, sendo reforçada pelo jogo com nuances de significado e pela sinalização gráfica que intensifica a expressividade dos poemas. Esse, aliás, é um dos aspectos mais marcantes da obra: o uso inventivo da forma, por meio da utilização de quebras de versos inesperadas e do emprego diferenciado das vírgulas, que criam cadências atraentes, prendem a atenção e tornam a leitura dinâmica.

A organização do volume é coesa e revela um planejamento cuidadoso, em que cada texto ocupa seu lugar de forma a compor um conjunto harmônico. Entre os poemas que mais se destacam estão “Insônia nua”, “Reza”, “Desenha-me uma boca”, “Um copo de corpo”, “Dormir só”, “Labirintite”, “Kamikaze”, “Lua Sangra”, “Quatro vias três segredos”, “Nó de luas nuas”, “Total” e “Carangueixa”, todos exemplos da força criativa da autora.

Portanto, "Canções do Desoculta" se apresenta como uma obra poética planejada em cada detalhe, desde a escrita até a disposição dos textos, oferecendo ao leitor uma experiência instigante e ao mesmo tempo suave. A leitura é inegavelmente agradável e demonstra uma poetisa capaz de surpreender pela originalidade e pela delicadeza com que constrói suas imagens. Para quem se aproxima do livro sem grandes expectativas, o resultado é uma grata surpresa, uma vez que a poesia de Pollyanna Carvalhaes fascina e encanta.

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

"Flor-essência", de Sofia Enderle Silva




- Título: "Flor-essência"
- Autora: Sofia Enderle Silva
- Editora: Filos (SC)
- Ano de lançamento: 2025
- Nº. de páginas: 116


Publicado em 2025 pela Filos Editora, "Flor-essência" é a estreia literária de Sofia Enderle Silva, uma autora de apenas 15 anos que já demonstra uma impressionante maturidade artística. A obra se divide em duas partes: “Poesia”, organizada cronologicamente entre os anos de 2021 e 2025, e “Prosa”, composta por cinco contos. 

Logo no início da leitura, percebe-se que Sofia não se limita à ingenuidade que se poderia esperar de uma escritora tão jovem. Pelo contrário, ela brinca com letras, fonemas, significados e formas, explorando disposições gráficas e sonoras que mexem com os sentidos e constroem uma poesia envolvente. Seus textos são profundos, nada óbvios, e muitas vezes se aproximam da prosa poética. Há ritmo, mas nem sempre rima; há sabedoria, e nunca superficialidade.  

Entre os poemas, destacam-se alguns que se tornaram meus favoritos, como: “Pássaros” (o primeiro que escreveu, aos 11 anos); “Hábito”; “Dependência”; “Diálogo”; “Ciclo”; “Nós e o tempo”; “O ouvido de Bárbara está inflamado e é minha culpa”; “Caindo”; “Eu, tu e nós”; “Entre o Céu e a Terra”; “Inércia”; “Todas as faces instrumentais de um relógio”; “Factual”; e “O homem”. Em todos eles, Sofia revela uma lucidez incomum para sua idade e para um contexto social marcado pela alienação, convidando o leitor a decifrar enigmas e jogos linguísticos que ela habilmente constrói.  

Quando se chega à seção de contos, o impacto é igualmente surpreendente, pois eles estão à altura das narrativas produzidas pelos melhores escritores do país. Surge, então, a dúvida inevitável: seria Sofia melhor poetisa ou contista? A resposta talvez seja que ela transita com igual segurança entre os dois gêneros.

A escrita de Sofia é encantadora e transformou "Flor-essência" em uma das obras poéticas mais marcantes que já li. O fascínio não reside apenas no fato de uma autora tão precoce manifestar tamanha qualidade (o que por si só já seria um atrativo), mas sobretudo na consistência de sua produção. Sua linguagem é acessível, porém, simultaneamente, instiga o leitor a pensar, a decifrar, a mergulhar nos labirintos que elabora com palavras. Por isso, discordo da afirmação de Gilnei Oleiro Corrêa que, na apresentação da obra, chamou-a de “voz promissora”. Para mim, Sofia Enderle Silva não é promessa, é realidade.